As sequelas

No meu tempo, «sequelas» eram efeitos ou consequências (marcas de uma doença, por exemplo), mas hoje o termo é usado a torto e a direito para designar a continuação (o seguimento, a sequência) de uma obra literária ou cinematográfica; e, a reboque, até se inventou o termo «prequela» quando o livro ou filme é sobre um período anterior ao tratado na obra original. Enfim, parece que as prequelas e sequelas estão na moda – e o mais estranho é que, no caso das escritas, até podem ser narradas e compostas por outros autores que não os legítimos, ou seja, os que criaram o enredo principal e as personagens. No entanto, que peso terá a questão do estilo contra o perigo de se interromper a saída e venda de um bom produto?… Veja-se, por exemplo, a série sueca Millenium, que não deixou de ser publicada depois de o autor ter morrido e vai certamente continuar a alimentar filmes suecos e americanos. Veja-se também a ideia de recriar Orgulho e Preconceito com zombies (sim, não estou a brincar) ou contratar um novo escritor para seguir com as aventuras de… Bond, James Bond. Os casos não param: desde Os Crimes do Monograma de Agatha Christie (mas escritos por Sophie Hannah) até ao Peter Pan e ao Drácula de Bram Stoker, passando pela sequência de E Tudo o Vento Levou e as aventuras de Winnie de Pooh, há de tudo, e os herdeiros dos criadores, pelos vistos, nem se importam muito.

Comentários

  1. Bom dia.
    Pois é. O negócio - já não a Literatura (o que é isso?) - oblige.
    Vivemos na época em que fazer melhor deixou de ser o mote. Fazer mais é o que norteia as empresas, sejam elas de que natureza forem. E isso é o que pode matar o livro: quando os chineses descobrirem que podem contrafazer - de facto - tudo. Até os livros. Contrariamente ao que se pensa, o livro acabará não quando deixar de existir, mas quando formos inundados - literalmente - por livros...
    Bom fim-de-semana.

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    1. já estamos inundados por livros, mesmo sem a contrafacção chinesa ter ainda surgido no sector livreiro.

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  2. Como é que dizia o outro (Rauleinho da Séa) ? Evoluçon-e na cuntinuidade!

    1º - Os descendentes estarão mais interessados nos proventos que daí lhes advenham que na herança em termos meramente literários!
    E nem critico, é uma mera constatação... sei lá eu se fora bisneto de Hemingway e me propusessem por umas centenas de milhares de dólares, não aceitaria uma sequela de "O velho e o mar" em que o personagem fosse um jovem adulto, ex-corrector da bolsa após o crash, desiludido e com consciência ecológica, praticante do "tag and release", uma forma de pesca sem morte...

    2º Para ser franco, não são as sequelas, prequelas nem trivelas e muito menos fivelas, que me causam qualquer impressão SE e desde que mantenham o espírito do original, mas há casos em que isso é manifestamente não-conseguido!
    Com a morte do argumentista René Goscinny , o Lucky Luke e o Astérix, perderam por completo o interesse, apesar de os desenhadores Morris e Uderzo serem os mesmos, mas os textos perderam qualidade e o humor que os caracterizavam tornando-se uma coisa muito insonsa a tentar ser engraçada de uma forma estranha ao original... Mais valera terem-se finado!
    Idem para as adaptações ao cinema. Tem havido inúmeras utilizações do mítico Tarzan, mas ainda não vi nenhum filme que de facto reviva o que lhe deu esse misticismo, que Edgar Rice Burroughs criou nos seus romances e aqui para nós, nenhum filme conseguiu!

    Voltando à literatura, não estou a ver que se consiga avançar com prequelas nem sequelas de o Hobbit ou o Senhor dos Anéis, nem estou a ver sequelas de "Aventuras de um chinês na China" ao género "Aventuras de um chinês em Angola" (Salgari) ou de "Miguel Strogoff - o correio do Czar" transformado num "O agente de Puttin na Casa Branca" (J. Verne).

    Mas já sucedeu ler aproveitamentos muito bons de clássicos. Um exemplo recente é "Clube de patifes", de Dan Simmons. É um excelente romance que poderia perfeitamente ter sido escrito por Hemingway!

    Saudações continuadas, cá da Cidade Morena!

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  3. "Orgulho e Preconceito" com zombies?! Vou já ler, a correr...

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  4. Chamo a isso tudo das sequelas a prequelas, o Síndrome da pastilha elástica.
    Sintomas- banalização
    Efeito- acefalia.

    Puck

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    1. Compreendo e concordo... dentro do conceito pipoqueiro!

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    2. Mais vale pipoca que naftalina!
      Não se vá matar alguma traça, e eu até gosto de traças ( literárias entenda-se:)

      Puck

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    3. Ahahahah! Boa... topou-me, mas eu anonimei sem querer...

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    4. O seu estilo é único, Pacheco.
      Abraço

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  5. Já agora recordo que no verão passado, penso que o "Expresso", ofereceu umas novelas curtas escritas por bons escritores portugueses a quem foi pedido que imaginassem o seguimento de "Os Maias". Li-os todos com muito prazer e gostei, em particular, da ironia contida na contribuição do Zambujal para esta mini-série de homenagem ao génio de Eça. Uma "sequela" (também odeio a corruptela a que o significado desta palavra passou a ser sujeito) que achei despretensiosa e de muito bom gosto !

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    1. Por acaso não li ... tive conhecimento dessa iniciativa mas não li!
      Aposto que o Mário Zambujal fez uma coisa ao seu género, com o humor e a qualidade que se lhe reconhece!

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    2. A do Zambujal é a história do galã português (Carlos Maia) que é visitado por mulheres casadas no seu consultório sem doentes do Rossio e que vem a descobrir que uma das suas amantes engravida e, após anos de devoção paternal e ajuda material a essa filha ilegítima, descobre que afinal a rapariga era filha do legítimo marido da sua amante. O sorriso malicioso e a troça queiroziana está bem presente ao longo desta novela curta, em particular no seu terço final.

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    3. Grato pela sua partilha, sou grande fã do humor fino de Mário Zambuja!

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    4. Ora ai está - se tiver qualidade que seja bem vindo.

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  6. Atribuía ao termo sequela um significado negativo, por exemplo efeitos colaterais de uma doença, prolongamentos de um filme muito lucrativo mesmo que medíocre, procedimentos lamentáveis reproduzindo um original de sucesso ainda que também lamentável. De prequela nunca ouvira falar, mas achei graça, a ponto de admitir integrá-lo no meu vocabulário, porque não?

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  7. Felizmente (sempre) tem quem goste o termo "produto".


    Cláudia da Silva Tomazi

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  8. Lembro-me logo do conto "Os ciganos" - o enxerto tornou-o pobre, mexeu na vibração do conto. Estragou a obra começada...

    Se vende? Talvez.
    Se é necessária? Não sei.
    Se retira valor ao universo literário do escritor? Não sei.
    Se o escritor dá voltas na tumba? Certamente.

    Quem resistirá? Quem ganhará?

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  9. Para além do negócio, a sociedade globalizada tem horror à obra finalizada e vive do constante "restyling" ou então, é como "diz o outro" (Eclesiastes 1:9. Velho Testamento) Nada há de novo debaixo do sol...

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  10. Há espaço para tudo e para todos, agora querer padronizar o gosto por elfos, gnomos, duendes, zombies e quejandos na literatura clássica não lembra ao diabo... Depois da literatura light a literatura MacDonalds?

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  11. Já tinha visto que a série Millenium tinha aumentado e quase que jurava que o autor morrera, mas como não sou fã não verifiquei. Há já muito tempo que as séries de "Os cinco" tiveram continuação, agora também a das "Gémeas", escritas inclusive por uma autora portuguesa...Sei que estes dois exemplos não são seguramente os mais chocantes mas para alguém que cresceu imersa neste universo foi uma desagradável surpresa, até porque temos de procurar bem pelo autor...eu ainda pensei que tinham sido descobertos livros escritos mas nunca publicados...mas não é o caso.
    Não percebo nem gosto destas tentativas de prolongar algo que teve uma época e também um fim, como é suposto.

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