Teatro

Existem relativamente poucos romances que abordem, mesmo que indirectamente, o  mundo da edição; há vários estrangeiros (de Laurent Binet ou Vila-Matas), mas em português lembro-me sobretudo de História do Cerco de Lisboa, de José Saramago, no qual são personagens fundamentais um revisor (Raimundo) e a sua chefe, uma editora chamada Maria Sara. Ao rever uma obra sobre o cerco de Lisboa, Raimundo decide introduzir a palavra «não» numa determinada frase (que tem que ver com a ajuda dos Cruzados na conquista de Lisboa aos mouros), mudando, de certa forma, o que foi a História… Pelo caminho, apaixona-se por Maria Sara (outra conquista, enfim). Falo deste livro agora porque li que, no Festival de Teatro de Almada, nada menos do que quatro companhias de teatro se juntaram para encenar uma adaptação do romance: a ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve, a Companhia de Teatro de Almada, a Companhia de Teatro de Braga e o Teatro dos Aloés. A dramaturgia esteve a cargo de Gabriel Antunaño e a encenação é de um outro espanhol, Ignacio García, contando os cenários com o talento de José Manuel Castanheira. A peça estreou-se no festival, mais vai regressar em Setembro e passar pelos vários teatros envolvidos, dando um pouco a volta ao País, de norte a sul. Uma boa ocasião para a ver e ler o romance de Saramago.

Comentários

  1. Há um outro livro português que aborda o mundo da edição (ainda que parcialmente): A Noiva do Tradutor, de João Reis. Entre editores e o tradutor estão lá algumas personagens editoriais. Mas em geral é um tema pouco abordado. Até gostava de saber se a peça entra em turnê.

    ResponderEliminar
  2. António Luiz Pacheco25 de julho de 2017 às 02:21

    Hum... realmente "casa de ferreiro, espeto de pau", isto é, os temas ligados à edição de livros são tão raros que nem me ocorre nenhum, no entanto se imaginarmos ou nos recordarmos de quão difícil foi, é e será, a actividade editorial em determinados regimes políticos e religiosos, isso daria certamente "pano para mangas"!

    De resto, mesmo nos regimes livres, vigora sempre uma espécie de censura daqueles que julgam detentores da razão e tentam impôr aquilo que acham ser o caminho! Suponho que, hoje como nunca, sob a tirania do política e ecológicamente correcto, as casas editoras sofram pressões imensas... e pior se são mesmo feitas a partir de dentro!

    Saudações político-religiosas sãs, cá da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
  3. Li este livro de Saramago há muitos anos e lembro-me de pouco. Recordo, porém, ter ficado um pouco desiludida, porque pensei que iria assistir a uma verdadeira mudança da História, ou seja, uma versão alternativa, depois de os cruzados recusarem a sua ajuda. Afinal, Lisboa acaba por ser conquistada da mesma maneira!
    Para que serviu afinal acrescentar esse "não"?
    Ou estou errada? Escapa-me alguma coisa?
    Como disse, foi já há muito tempo. Talvez seja melhor seguir o conselho e reler a obra.

    ResponderEliminar
  4. Antes o não de Raimundo!
    Do que o que fez a tradutora de Han Kang. Não só era auto-didacta como estava a aprender coreano há 6 anos apenas.
    Agora, com o prémio e o destaque de A VEGETARIANA, fez com que muitos coreanos lessem o livro e questionassem a traduçaõ.
    Uma análise mais cuidada demonstrou os graves problemas.
    10,9 % da primeira parte estava erradamente traduzido e 5,7% do texto original estava omitido. Apenas na primeira parte!!!
    Deduzo que a tradução da D. Quixote tenha sido feita a partir desta inglesa, não é Rosário?
    Não é livro que me interesse, mas como em breve lançarão um outro da mesma autora, a ver se não se encalham no mesmo. Para a tradutora foi óptimo negócio já que também recebeu prémio. Mas parece que deturpou um texto que não lhe pertencia, chegando mesmo a dar um estilo formal o que alterou, por exemplo, como os personagens são retratados.
    Para os interessados:
    https://koreaexpose.com/deborah-smith-translation-han-kang-novel-vegetarian/

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Interessou-me esta notícia.
      Mª do Rosário: a tradução da Dom Quixote provém desta chachada? Gostava de uma resposta já que nada sabia do assunto e sendo a editora do livro por cá era bom esclarecer.
      Obrigado.

      Eliminar
    2. É esperar para não se cansar, é o que lhe digo...

      Eliminar
  5. Não li o livro. E talvez me interesse a peça de teatro. Se passe num teatro perto de mim :).

    ResponderEliminar
  6. Haver, há! Estão é colocados na gaveta à espera de editor. Glosando Italo Calvino são é "Amores Difíceis".

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório