Pré-leitores

Embora eu ache que o gosto pelos livros e pela leitura é uma lotaria – e esse clique maravilhoso nem sempre acontece, fazendo com que alguns desistam às primeiras tentativas –, os especialistas dizem que o primeiro passo para que uma criança se torne leitora é ler-lhe desde pequenina, desde o berço ou antes ainda. Normalmente, o que os pais lêem aos filhos são histórias, mas num recente artigo de Catarina Homem Marques no Observador – citando um outro do New York Times, de Pamela Paul e Maria Russo, especialistas em literatura infanto-juvenil –, aprendi que o mais importante de tudo é a cadência da leitura, e não o que se lê – e por isso, para os pré-leitores de fraldas e chucha, podem ler-se receitas de bolos, manuais de instruções de electrodomésticos, bulas de remédio ou dicionários, porque tudo serve; no fundo, é como uma música – e os bebés, já se sabe, gostam de música, mesmo na barriga das mães. Claro que ouvir não chega e, mais tarde, os outros sentidos também contam: deixar os bebés mexerem nos livros, virarem as páginas mesmo antes de os pais lhas terem lido, receberem festinhas enquanto é feita a leitura para a associarem a uma boa companhia e à presença de alguém querido, tudo isso, numa primeira fase, é talvez mais importante do que o texto propriamente dito. E esta, hein?

Comentários

  1. Balelas! Em minha casa havia livros, sim, mas não para crianças, e nunca ninguém me leu histórias ao deitar. No entanto, sou uma leitora compulsiva desde sempre. Lia tudo o que apanhava, li alguns livros que nem eram próprios para a minha idade, mas estavam ali à mão. Curiosamente, agora estou a adorar descobrir livros para crianças.

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  2. Sim, estou plenamente convencida disso, ou seja, de que não importa o quê, é preciso é o embalo da leitura, o ramerrão, a cadência, a cantilena. E também estou plenamente de acordo quando dizes, Rosário, que ler em adulto é uma lotaria. Podia até dar exemplos de uma situação e de outra: miúdos com leituras ouvidas desde o berço e sem leituras ouvidas. Há sempre exemplos para tudo, não é? Agora, precisões científicas, isso já não sei.
    A leitura, entre os jovens - refiro-me a pessoas adolescentes - é uma situação extremamente difícil. Nos dias de hoje, com as solicitações que existem, tornou-se ainda mais difícil. Ler exige afastamento, concentração, sossego, silêncio, compreensão e muita, muita entrega. Ler não é um acto fácil. Não é nem nunca foi. Agora, "passar os olhos" isso sim, isso qualquer um faz. E o chamado "devorar livros" - não fui ensinada a devorar, mas sim a saborear, livros ou outra coisa qualquer - é o mesmo que nada. Pouca coisa se retém enquanto se devora. Nem se lhe toma o gosto.

    Cristina Carvalho

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    1. Belo texto !
      (não admira, escrito por uma excelente escritora)

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    2. António Luiz Pacheco26 de julho de 2017 às 05:01

      Aquilo que a Cristina diz, é obviamente reflexo da sua observação directa e da sua experiência, bem haja pelo seu trabalho de divulgação pelas escolas (e não só!) desse país. Se alguém merece um prémio pela divulgação da leitura é ela, não será a única, mas é uma das que merece!

      Uma beijoca repenicada, cá da Cidade Morena!

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    3. Obrigadíssima!

      CC

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    4. Muito obrigada, António Luiz Pacheco, pela sua observação.

      CC

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  3. Espetacular descoberta: a indução do gosto da leitura nas criancinhas consegue-se pela aplicação de simples técnicas de reflexo condicionado pavloviano ! Instintivamente, cheira-me a "Brave New World". Mas posso estar errado... Somos criaturas e, como todos os bichos, temos reflexos e instintos a condicionar o funcionamento do nosso aparelho mental. Há que aproveitá-los no sentido do BEM. Não ignoro as falsas ilusões a que tem conduzido o uso de métodos "behaviouristas" em psicoterapia, agora tão populares em Portugal, que têm como objetivo modificar apenas sintomas incómodos, sem procurar encontrar a origem dos desconcertos, e acenando com rápidas curas para males existenciais. Um "behaviourismo" que pode chegar ao extremo da perversidade de criar malignos e escravizantes reflexos condicionados, como é genialmente exemplicado no final do "Clockwork Orange" do Kubrick. O Behaviourismo nasceu e cresceu na América, a Psicanálise na Europa. Dois continentes, duas culturas, dois modos de ser e de pensar. Entretanto, vou-me deliciando com o Juan Marsé e o seu "Essa Puta tão Distinta" (a memória...). Como ele diz no livro, o que faz um escritor não é a intriga é a linguagem, no sentido do estilo literário. E a singularidade vem também, acrescentaria eu, do olhar próprio a cada criador.

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    1. O seu texto também não está nada mal, Artur.
      Diria até que está muito bom.
      Tenho de ler esse do Marsé.

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  4. António Luiz Pacheco26 de julho de 2017 às 04:58

    Não sou especialista em literatura infantil e menos em crianças, mas a minha mulher é!
    É uma educadora com 40 anos de experiência nos infantários, no terreno... lê aos miúdos e quase não usa os filmes de que se abusa muito, é mesmo contra isso, admite-os durante o período matinal de "entrega" dos garotos e no de "levantar", tem sempre um período para ler histórias e falar delas. Os miúdos distinguem o que ouvem e sabem se lhes estão a ler uma história ou o manual do microondas! Como se pode imaginar ou pior, "concluir" o contrário... a cantilena para adormecer é uma coisa, a leitura outra!

    Nunca ninguém me leu livros à cabeceira! Todavia eu tinha livros de pano e de papel, desde tenra idade, "via os bonecos" e imaginava as coisas...
    Mas, havia serões de leitura lá em casa, sim senhora, à luz do candeeiro de petróleo (daqueles suspenso no tecto com um sistema de contrapesos) e lembro-me muito bem de mãe, avó e tias-velhas, alguma prima solteirona, uma visita, a costureira que ia a casa e dormia lá... fazendo renda de bilros, croché, malha, costurando (faziam-se monogramas nas almofadas, lençóis, toalhas e panos de cozinha), dobando meadas de lã ou fio de tricotar... e a minha avó quem quase sempre lia, ou uma das outras senhoras, de óculos na ponta do nariz! Romances, história, costumes... e até histórias de fadas ou artigos do "Correio do Ribatejo"!
    Eu adorava! Preferia isso a estar na sala ou no escritório (salvo se o meu pai estivesse a limpar espingardas ou a preparar as coisas da caça, pois se carregavam os cartuchos em casa) a ouvir telefonia (que funcionava a baterias). Por vezes ouviam o "serão para trabalhadores" e o Teatro Trágico (dos Parodiantes) à tarde, era sagrado!

    Havia muitos livros, um salão inteiro dedicado a eles e à música ou desenho e pintura! Meu avô tocava violoncelo e a mãe foi violinista, minha avó pintava e minha irmã desenhava a carvão). Havia estantes com uma biblioteca variada em todos os temas e penso que foi aí que começou a minha paixão pelos livros e pela leitura. Mas meu avô Abreu, minha mãe, eram grandes leitores e tenho a certeza de que isso me influenciou...
    Muitas das nossas visitas eram pessoas ligadas às artes e todas liam, falava-se muito de vários temas (até se dizia muito mal do Salazar!).

    Acho que o que nos faz leitores é um ambiente em que se leia, em que se fale de livros e de leitura. O meu filho a quem eu lia todas as noites, teve um largo período na adolescência em que tirando o Harry Potter e o Tom Sharpe, não lia mais nada... mas depois começou a ler e hoje com 28 ou 29 lá vai singrando, mais pelos temas de acção. A minha sobrinha mais velha (42 anos) investigadora de ciências médico-farmacêuticas, é uma grande leitora, mas a minha irmã mais velha e o meu cunhado também lêem muito. A minha irmã mais nova (educadora) lê, e a minha segunda sobrinha (25) que acabou o mestrado em Indústria Alimentar na Holanda já vai lendo, coisa que pouco fazia. O meu sobrinho segundo (27) só lia os livros sobre fauna de que tenho muitíssimos e variados! Mas é biólogo, herpetologista e depois de trabalhar em Bruxelas num centro de estudo de venenos está na Austrália a fazer um mestrado em venenos de répteis. Mais sobrinhos tenho, um com 40 e duas com 17, não lêem... Mas tenho já uma sobrinha-neta com 11 anos que lê! Imagine-se. Dos outros dois sobrinhos-netos um ainda é muito pequeno (6) e outro não lê...

    No cômputo geral da família somos de facto dados aos livros, não sei se pela genética ou se de facto porque fomos habituados a eles, mas acredito que foi esta a razão, vivíamos em contacto com livros e com gente que lia! E que falava disso!

    Dizer que é bom ler manuais ás crianças... não me parece que tenha nenhum efeito salvo o de as adormecer se no tom certo!
    Infelizmente o que mais leio actualmente são coisas técnicas, o que é secante em termos intelectuais, sinto-o perfeitamente. E mais porque passo grande períodos aqui, sozinho, sem ninguém com quem conversar, por isso vingo-me ne

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    1. Realmente gente fina é outra coisa!
      Pelo que leio teve uma infância muito feliz, e ainda bem.
      Mas ser criado num ambiente tão culto não faz obrigatoriamente um amante da leitura - isso nasce com a pessoa.
      Mas isto é apenas a minha opinião, baseada em inúmeros casos que conheço de pessoas que, tal como eu, adoram ler e não tiveram qualquer incentivo para isso.

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    2. Caro António Luiz Pacheco

      Não se alonga, nem perora, leio sempre com prazer o que escreve, menos as diatribes da caça...ehheh... Um quarto das quatro horas de escrita de hoje partilho-as consigo em longa conversa.
      «Neste tempo de muitos deuses e diabos, e no dia dos avós, sou incapaz de ler um só livro ao mesmo tempo: todos tomam o seu lugar num mapa-mundo que se completa. Colecciono-os sofregamente, como coligia, menino infante, cromos de história universal. Querendo tocar tudo, todo o tempo, em todo lugar do mundo: que me enchiam a cabeça de sonhos de epopeias onde invariavelmente tomava o lugar do herói — sempre fui palco do épico... sempre senti ter atravessado outras épocas como actor... o que faz de mim inexoravelmente um crente na reencarnação dos espíritos que podem também tomar o nome de almas!
      Na minha cabeceira dormem à vez, esperando serem acordados como os génios e ninfas daqueles haréns do Livro das Mil e Uma Noites, Os Amores Difíceis de Italo Calvino, A Primeira República, I, Do Sonho à Realidade de António José Telo, Amanhã na Batalha Pensa em Mim de Javier Marias, Norton de Matos, Biografia, de José Norton, Manual de Pintura e Caligrafia de José Saramago, O Tempo das Reformas, II, A Reforma Protestante de Pierre Chanu...
      Pierre, já aqui o disse, é para mim o exemplo que dispensa outros do que deve ser o historiador. Um homem que liberta a História de articulações emperradas dando óleo ao mecanismo da motricidade humana. Embrenhando-se nesses tempos como um comentador-analista que a despe de modo sensual, não pornográfico, do seu anacronismo. Dele já tinha lido com atenção redobrada, pintalgando as sua páginas do princípio ao fim, os dois volumes da Civilização da Europa Clássica e outros dois da Civilização da Europa das Luzes. O Tempo das Reformas, II, dedicado à Reforma luterano-calvinista, salienta as condições que permitiram o humanismo e a revolução da Imprensa, formidável multiplicadora de informações e conhecimento. Diz a sinopse resumindo este livro soberbo: «O autor mergulha-nos num mundo onde os maiores intelectuais não hesitam em ser revisores de imprensa, e onde as novas técnicas de Gutemberg favorecem a expansão de conhecimentos de humanistas e teólogos: no fim do século XV, vinte milhões de livros impressos — quase todos religiosos — encontram-se em circulação. Mais do que a história da vida e da obra de Lutero, bem como a de múltiplos reformadores, como Calvino e Zwingli, o autor procura compreender os pequenos místicos renanos, flamengos, etc...»Destes diversos movimentos, Pierre Chaunu traça uma vasta 'Teoria geral sobre a Reforma Protestante'.
      Deste autor apetece dizer uma frase que vi algures, mesmo que "estapafúrdia" e sem nexo: às vezes eu uso palavras que não entendo para que eu possa soar mais "fotossintética" (fotossíntese era a palavra original). Mesmo a frase mais impune de causalidade ou sentido, difícil, mesmo hermética, eleva-nos a um patamar místico onde a beleza conjuga com liberdade. Num mundo, para nós os simples, complicado de abarcar e entender verdadeiramente no nosso classicismo, longe ainda do império das Luzes que nos dará o céu.» As luzes, pelo menos, António Luiz, as luzes para quem lê estarão lá sempre, como o farol que diviso da minha janela.

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    3. António Luiz Pacheco26 de julho de 2017 às 05:47

      Tenho evitado responder ou comentar anónimos... e de facto, dispensava-se o seu comentário inicial sobre a gente fina, mas se isso de algum modo o alivia de algo, fico contente por si!
      Vamos portanto deixar de lado a alfinetada e falar daquilo que aqui interessa e é o assunto:

      Discordo!
      O ambiente em que somos criados, e isto é da antropologia cultural, tem a maior importância na nossa formação!
      Claro que há excepções, mas não fazem estas a regra!

      Garantidamente a inclinação da minha irmã para o desenho a carvão teve a ver com ver e pintar com a minha avó... e não porque o meu pai a punha a pintar as letras no portão da quinta, se bem isto possa ter influenciado a sua ida para o IADE, anos mais tarde...
      A minha convivência com os livros e com pessoas que liam, que falavam das coisas que liam, fez-me a traça dos livros que sou e não tenho qualquer dúvida!
      Quem tenha nascido e sido criado sem qualquer contacto com os livros, difícilmente terá inclinação para eles...

      E como estamos num blog de leitura, há um livro da Condessa de Ségur, que me parece adaptar-se a esta discussão de forma lapidar: A Fortuna de Gaspar. Creio que é justamente nesta história de dois irmão filhos de um agricultor rude, talvez não tão desactualizada, que se vê a influência do professor, na influência a um dos filhos do camponês em quem alimenta a tendência para os livros e que se afasta da vida do campo!

      Mas esta é igualmente a minha opinião. Não me parece que tenha a ver com o acaso nem seja geração espontânea que se faz um leitor, tem de ser levado a isso, mesmo que fora da família, na escola ou de algum outro modo, porque houve algum contacto ou um qualquer despertar, até uma necessidade de se educar, instruir, evoluir. Tem que haver um motivo, não vejo ninguém, a fazer-se leitor só porque nasceu com vontade de ler...

      Saudações identificadas e de uma infância feliz, cá da Cidade Morena!

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    4. Não vejo motivo para se ofender, o António Luiz Pacheco pertence mesmo à "Gente Fina" - apenas quis brincar com o nome de uma série de tv já muito antiga.
      Eu, como já tinha dito mais acima, nunca tive livros infantis nem nunca me leram à noite, mas quando aprendi a ler, aos cinco anos, foi "tiro e queda".
      E bastava o livro da primeira classe para eu ficar encantada.
      Daí ter começado a ler o que havia lá por casa: Eça, Júlio Dinis, Ferreira de Castro, Dickens, Pearl Buck e até a Max du Veuzit, imagine.
      E toda a vida fui assim.
      E já ultrapassei os 60, já não vou mudar...
      Não se preocupe com a minha identidade (digamos que sou uma traça pobre) nem se dê ao trabalho de me responder.
      Saudações!


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    5. Explique-me lá uma coisa, caro Pacheco: então sabe as idades exatas dessa gente toda e não sabe a do seu filho? Essa não entendi...

      Em relação à leitura de manuais de instruções às crianças, penso que a nossa anfitriã se refere a crianças muito pequenas, que ainda não sabem falar nem entendem o que se diz.

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    6. Não sabe a idade nem o curso, foi o único que escapou, ahahah!

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    7. António Luiz Pacheco26 de julho de 2017 às 14:47

      Pelo contrário, Cara Traça Pobre, o que é infinitamente melhor do que pobre traça... e me perdoe por ter entendido mal o seu comentário, agradecendo que me o tenha explicado e desfeito está o mal-entendido!
      É o mal dos anonimatos, mas está visto que não são todos farinha do mesmo saco e me penitencio por tê-la julgado mal!
      Assim vale a pena conversar.

      Saudações tracejantes cá da Cidade Morena!

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    8. António Luiz Pacheco26 de julho de 2017 às 14:51

      Bom, na verdade não sei mesmo... mas acho que é 28 ou 29 , os outros é mais ano-menos-ano! Já o curso, é antes um recurso... como é um grandessíssimo preguiçoso foi fazer Relações Internacionais, não me perguntem o que é nem para que serve, mas deu para entrar de comissário de bordo (ou lá o que é) na TAP, e não me entendam mal, é que sou um bocado desligado e distraído nestas coisas... ahahah!

      Saudações cá desde o exílio, na Cidade Morena!

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  5. Cláudia da Silva Tomazi26 de julho de 2017 às 05:28

    No Brasil o referencial a leitura infatil (em todos os tempos) Monteiro Lobato, através de personagens do "Sítio do pica-pau-amarelo" embalou velhas e embala novas gerações; sob este prisma a formação resultante aprecia o encontro saudável, jovens com experiência lúdica confortável.
    Certamente é possível arranhar levemente este assunto comparando-o com alguma análise de Sigmund Freud "transferência afetiva".

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  6. Eu só não percebo qual a razão dos comentários ANÓNIMOS.

    Realmente, não percebo.

    Cristina Carvalho

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    1. Cara Cristina, a anfitriã deste blogue podia acabar com os comentários anónimos com dois ou três cliques. Ela não se incomoda, é o mais importante. Eu, por acaso, também não. Sempre permiti anónimos no meu blogue e respondo-lhes com a mesma educação e apreço com que o faço aos não-anónimos. Toda a gente tem o direito de ser anónima, se assim o entender. Razões, há muitas.

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  7. Meus amigos os filhos do Pelé, do Maradona, do Johan Cruyff não saem aos seus pais, saem todos aos respectivos avôs - autênticos matacões que não sabem dar um pontapé numa bola... e lá em casa só ouviam (e viviam) a falar em bola!

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    1. O anónimo (da bola) era eu.

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    2. Ora bolas, para quê desfazer o suspense?
      E eu a pensar que esse anónimo era eu, ahahah!

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    3. Francamente ASeve, chamar matacões a quaisquer avós precisamente no Dia dos Avós é, no mínimo, deselegante, não lhe parece?

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    4. Ó anónimo matacão é o futebolista não é o avô, evidentemente; matacão/nabo/caixa de sapatos/xanxo/xaretéu/ponta esquecida/pinheiro e tantos outros são termos que se usam no futebol para nomear aqueles para quem a bola é quadrada.

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    5. O que eu aprendo neste blogue.
      Incrível!

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  8. Gostei de ler o artigo de Catarina Homem Marques no Observador, de 7 de julho de 2017. Aprofunda alguns aspectos que os adultos, de um modo geral, desconhecem. Na verdade, muita gente que é pai e mãe ainda pensam que quando se tem um bebé é só atender às necessidades básicas de sobrevivência ligadas à higiene e alimentação, e fotografá-lo para partilhar as fotos e os vídeos nas redes sociais! Fazer um (bom) leitor é similar a fazer um espectador de teatro ou apreciador de arte em museus. O principal é pôr as crianças em contacto com a coisa que se lê, que se assiste, que se observa, desde muito cedo, naturalmente. A ser verdade que todos os textos servem o propósito de formar leitores (como educadora de infância não sigo essa estratégia), também é certo que lermos a lista telefónica com falinhas mansas e melosas não dá assim tanto prazer ao leitor-emissor propriamente dito. Há outras vias mais interessantes: ler poesia, por exemplo, pois há bons poetas que escreveram e escrevem para crianças. Mas cuidado com o Plano Nacional de Leitura! Há por lá muita porcaria! Por outro lado, na 1ª infância, o livro-objecto não serve apenas para ser lido, mas essencialmente para ser visto e manuseado. Os "Pré-Livros" ou livros ilegíveis propostos por Bruno Munari nos anos 80 são um excelente exemplo: livros de imagens, sem texto, para estimular a criatividade das crianças por via da curiosidade, ou seja, ensinar a pensar. Esse trabalho deve ser feito pela criança, sem grande intervenção do adulto, para se sentir "competente" no uso que faz desse "pré-livro" (não sabe ler, mas sabe retirar a informação possível, útil para ela naquele momento). "Ler para entreter" é um bom slogan para a infância, mas cuidado. Entretenimento e cultura não são a mesma coisa, nem para adultos nem para crianças, e haverá um momento certo para proporcionar à criança pequena a distinção entre os dois modos de percepção do mundo. Cultura para bebés? Sim, mas isso é outra discussão. Contudo, e voltando à leitura, podemos fazer bons e maus leitores, dependendo de uma multiplicidade de variáveis. E esqueçam os tablets na 1ª infância, por favor, são mais perniciosos que benéficos! Livros, sim, muitos livros, mesmo que o bebé lhes atribua outra função no uso que deles faz, como atirar ao ar, morder, abrir e fechar, e porque não, esquecer? Em liberdade, num ambiente sereno e natural.

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    1. Adorei as suas palavras, Adília, concordo plenamente, embora não seja mãe. Mas sou filha, claro, e tendo a ver estas coisas sob a perspetiva dos filhos.
      Permita-me pegar em algo que disse logo no início: «muita gente que é pai e mãe ainda pensam que quando se tem um bebé é só atender às necessidades básicas de sobrevivência ligadas à higiene e alimentação». Não falando agora na questão das fotografias e dos vídeos, eu também costumo dizer que muitos pais e mães pensam assim em relação aos seus filhos, mesmo os mais crescidos: basta alimentá-los, lavá-los, dar-lhes um teto... Pois se assim fosse, bem podiam todas as crianças serem criadas em lares!
      Ser mãe e pai é realmente muito mais do que isso.

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    2. Obrigada Cristina Torrão. De facto, e infelizmente, ainda existem muitos casos de "alucinação amorosa" pelos filhos. Pais e mães escrupulosamente cuidadosos mas ineficazes no que diz respeito ao desenvolvimento da criatividade e do livre arbítrio dos seus filhos. Como educadora de infância e juiz social tenho visto muitos devaneios e até negligências. Ser mãe de três filhas e avó de três netos completa este sentido observador que possuo em relação à evolução das características da infância ao longo do tempo e da própria educação que lhe é destinada. É uma das minhas responsabilidades enquanto cidadã. Por isso, não me empolgo muito com o "último" estudo bombástico que surge, é necessário que o tempo (e outros estudos complementares e/ou longitudinais) validem essas conclusões tão "interessantes".

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  9. não sei se o filho de um leitor e/ou escritor pode ou não ser "educado pelo exemplo". só posso falar por mim: quando era criança lembro-me de ver os meus pais a ler livros, não muitos se bem recordo, alternando entre clássicos e best-sellers. a verdade é que me tornei um leitor compulsivo (não devorador) e bibliófilo quase irracional (há livros que me é forçoso comprar, mesmo que só sejam lidos anos e anos depois...). curiosamente, o meu irmão - que é apenas um ano mais novo e foi obviamente criado no mesmo ambiente - quase não lê. por que razão não sei, mas nem sempre o "habitat" parece fazer o monge, salvo seja.

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    1. Precisamente.
      Claro que um ambiente familiar que propicie a leitura ajuda muito, mas o "bichinho" tem que estar dentro de nós - caso contrário nada feito.

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  10. Pois. Já toda a gente disse tudo a favor. Não tenho nada contra haver livros a servir de brinquedo, desde que não tenham cantos bicudos, não esfarelem (os bebés levam tudo à boca) e outras pormenorizadas coisas.
    Mas não sou apologista de leituras quando não são entendidas: Se a melodia é que conta, por que não falar apenas com eles? Ou pô-los a ouvir música? Mais tarde, sim. Contar histórias, oralmente ou de livros. Depois, a descoberta da leitura e o facto de verem pessoas a ler em casa, surte, em geral, o seu efeito. Digo eu que não sou leitora compulsiva nem quero ser. Basta-me ir lendo. Mas creio que ainda se virá a descobrir que o amor aos livros, em alguns casos, é genético :).

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    1. ah, ah, ah...é que o anonimato muitas vezes é involuntário; a gente esquece-se de preencher o cabeçalho:). E foi o que aconteceu acima.

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    2. Nem precisava identificar-se, Beatriz, o seu estilo é inconfundível :).

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    3. Bolas. E eu que gostava de passar nos intervalos da chuva. Ora esta. "Inconfundível"?! é exagero.
      Tomando no sentido positivo da coisa: muito obrigada. Sendo no negativo: não ligo, faço de conta que não existe e obrigada na mesma.

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  11. Um mundo de pré-leitores a degenerar num mundo de pós-verdade.

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  12. Dina Silva A das artes livraria26 de julho de 2017 às 20:53

    Concordo em absoluto. Tive um professor numa especialização alusiva ao combate ao insucesso e à iliteracia que afirmava o seguinte: "livros do berço à cova". (cito o professor Rui Veloso).
    Não me cingerei apenas ao livro no berço, acrescento as histórias contadas pela minha avó, mais tarde os livros da Biblioteca itinerante da Gulbenkian e os livros que a mãe ne podia comprar nad idad de carreira a Coimbra e ainda os da biblioteca de turma ou os oferecidos pela professora primária. Uma voiss é certa, hoje, como professora defendo a teoria e como mãe tenho aplicado na educação da minha filha. Agora com sete anos, desde o berço ouvia as minhas histórias inventadas e a historia do dia que nao era mais do que o relato do dia que havíamos passado. Entraram de seguida os livros, de todo o tipo- infantis mas de pano, de banho, de leitura, de imagens, etc... Consequência: um vocabulário bastante alargado, uma capacidade de reconto de análise e de relação ckm o mundo que a rodeia que me surpreendem. Claro. .. e uma criança muitíssimo exigente com uma argumentação que me deixa com os vabelos em pé. Curiosidade aguçada, criatividade idem. Três meses após o início da escolaridade ofereceu-me de presente de anos em casa da smiga Carla Pais a leitura de um livro da primeira à última página (drpois de pedir ezclarecimentos ao pai do som nh ja que o ag era mentiroso).
    Hoje adormeceu a let o minimalario, com a emoção e a percecao da relação entre a pkmba e o velhinho, intuindo a morte deste e muito mais.

    Enquanto professora, tambem sei que a adolescência trará uma quebra ou um corte na leitura. Contudo, as sementes estão lá para voltarem a germinar a qualquer momento e, muito importante, as competências estão lá.

    Assim, eduquem-se os mais nem que seja na consulta de acomoanhamento do centro de saúde, invista-se ba intervenção precoce, aposte-se no pré - escolar e primeiro ciclo... Todo os recursos incestidos na educação para a promoção do sucesso escolar e das literacias nos ciclos mais avançados são mero desperdício.... Muito mais tinha para duscutir com o estimado linguista, agora secretário de estado, dr. João Costa...
    Livros sim e do berço à cova. O resto são exceções que confirmam a regra.

    Boas leituras...também didaticopedagócicas, seguidas de reflexão sobre educação, escolga de livros e como os explorar...
    Tento dar o meu melhor em casa, nad sessões para crianças na livraria e na sala de aula ou na escola...quando me deixam fazer sombra...

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  13. E a (des) propósito. ..não sei qual a influência desta garotinha... mas é lindo o que está a fazer. ..

    http://www.blogdaletrinhas.com.br/conteudos/visualizar/A-menina-que-dissemina-leitura

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  14. Exmos e Exmas: Não vos conheço. Sabem que mais...nem vontade. Os Exmos (as) escrevem para se lerem e serem lidos e a maior parte das comunicações nada tem a ver com o texto da autora mas só "Ó pra mim! tão culto!". Pois fiquem lá a saber que as crianças ainda na barriga da mãe reagem à leitura como reagem à música: aproximam-se da parede abdominal, claro que tal se deve à cadência da leitura...claro que acaba por ser um reflexo condicionado. Mas temos esses reflexos em inúmeras coisas do dia a dia, só que já não damos por isso...e isso é mau? E claro que o meio condiciona os comportamentos. A 100%? Não! O grande segredo é a conversa e a companhia: despender horas para os filhos e amigos. Não têm tempo? O facebook e outros meios que tais encarregam-se então da educação deles.

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