Perplexidade e horror

A propósito de uma crónica de Ana Sousa Dias no Diário de Notícias (ou, melhor, de uma não-crónica, pois foi sobre o que não escreveu que eu acabei por ir bisbilhotar), descobri uma história tão romanesca que tinha mesmo de se transformar em livro (que eu saiba, ainda não traduzido entre nós, mas pode ser que alguém se lembre disso). Sacha Batthyany, um jornalista húngaro, sabia que descendia de aristocratas e que tinha tido uma tia-avó condessa muito respeitada, mas, como vivia na Suíça desde pequeno, estava mais ou menos afastado desse ramo da família. Um dia, porém, uma colega do jornal mostrou-lhe uma história terrível que acabava de ser publicada – e fê-lo porque o apelido do jornalista era incomum e coincidia com o de uma das personagens envolvidas na reportagem. Tratava-se do relato de uma festa em 1945, pouco antes do fim da guerra, num castelo que pertencia à tia-avó do jornalista, em que, a seguir ao jantar, os convidados tinham assassinado 180 judeus que trabalhavam como escravos na propriedade... e a convite do amante da anfitriã. O jornalista ficou perplexo e horrorizado e decidiu tirar tudo a limpo. Começou por interrogar o pai – que sabia da história – e foi descobrindo que não só a maior parte da família estava a par desse baile que acabara em tragédia para os judeus, mas também alguns dos seus membros nem sequer reprovavam realmente o que acontecera. Decidiu então pedir uma licença no jornal, investigar apesar das pressões da família para não o fazer (a tia-avó, ao que parece, ajudara muita gente no final da guerra a fugir para a Suíça) e escrever um livro que, na versão inglesa, se chama A Crime in the Family e narra o terrível episódio que desencadeou tudo, mas também os entraves e todas as peripécias da investigação.


 

Comentários

  1. António Luiz Pacheco7 de julho de 2017 às 03:08

    Horror, sim, perplexidade não!

    A Natureza para quem a conhece realmente, não dá presentes! Nunca deu... os "presentes" são obra nossa ou uma forma de a ver que só a humanidade consegue. Ela é violenta, é dura e sem sentimentos, e assim são os seus elementos não-vivos como a maioria do vivos.
    O homem, iniciou em dada altura um processo no qual se foi afastando da Natureza à medida que evoluía, e hoje ainda que o não entendam nem queiram assumir, a humanidade está onde está justamente porque afastada e fora da Natureza, ou continuaria a ser como foi e como são os animais, por exemplo.
    Essa evolução foi o processo de humanização a que as religiões chamam "alma" e nos torna únicos, se bem que não independentes dela e muito menos a dominámos, quando muito enganamo-la!
    Ao longo desse caminho, que ainda não terminou e não se sabe quando nem como ou onde isso acontecerá, foram havendo episódios como este, de horror (não de perplexidade, porque quem conheça a história e o Mundo em que vivemos tem essa consciência) que esperemos vão servindo para nos humanizar mais e mais pelo horror que provocam!

    Aproveito para fazer notar aos mais sensíveis ou críticos para com a nossa história, colonial e as ligações à escravatura, que este episódio nos esclarece que a escravatura fazia parte da sociedade, em toda a parte, e não apenas no Brazil ou África e praticada por nós, também os povos europeus civilizados a praticavam até há bem pouco tempo, e mesmo, ainda se pratica!

    Não estou a aceitar, apenas a fazer notar... ou a denunciar, se quiserem!

    Tal como, aquilo que era aceite no século XIX era por ser então e não hoje, tal como coisas que hoje são aceites seriam inaceitáveis há 50 anos... há que olhar a história à luz da época em que os factos se deram e não os interpretar segundo o cânones actuais. O horror está sempre associado mas repito que a perplexidade, não.

    De qualquer modo, parece-me ser um tema interessantíssimo esse e por certo que se o autor teve arte e engenho há-de ser um romance muito bom!

    Saudações horrorizadas mas não perplexas, cá da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito interessante a sua proposta de separar os dois sentimentos (horror e perplexidade). Fez-me lembrar a 'nova teoria do mal' de Miguel Real, onde é defendido que não será o Mal que nos deve espantar mas sim o Bem, chegando mesmo a propor-lo como 'o segundo mistério da humanidade'.
      Miguel

      Eliminar
    2. Efectiva e infelizmente o que hoje me surpreende e espanta e até, pela raridade, me emociona, não é o mal é o bem!

      Eliminar
  2. Há histórias parecidas com muitos alemães da atualidade, quando descobrem que pais e/ou avós estiveram envolvidos no holocausto. Pessoas nascidas vinte, trinta ou quarenta anos depois do fim da guerra não fazem ideia, durante muito tempo, dessas histórias horríveis, porque a família as cala. Se, por acaso, descobrem, têm muita dificuldade em viver com isso. Como aceitar que o pai, ou o avô, que adoramos, tenha sido um assassino em massa? Algumas dessas pessoas, em vez de se martirizarem e adotarem o comportamento da família (continuar a esconder), vão ao fundo da questão e pesquisam, numa tentativa de exorcizar os fantasmas. Outras, que têm essa possibilidade (normalmente, jornalistas), publicam livros ou realizam filmes e documentários sobre o assunto.

    E já que estamos a falar nisto, penso que, no caso português, seria uma boa ideia exorcizar os fantasmas de gente, cujos ascendentes estiveram ligados à PIDE. Eu, se fosse jornalista, punha-me a pesquisar esta questão. Interessar-me-ia sobretudo as vivências das crianças nessa situação, na altura do 25 de Abril (porque os agentes da PIDE eram pais, mães, avós). Como se modificou a sua vida (a das crianças)? Que vivências guardam dessa altura? Fica a ideia, para quem a puder e quiser aproveitar...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco7 de julho de 2017 às 05:02

      Extraordinária idéia essa, Cristina T. !!!!
      E tem muita razão (pasme! ahahahah! - tou a brincar, claro!) na sua análise.

      Sabem, eu conheci alguma gente da PIDE / DGS, sobretudo oficiais do exército, camaradas de meu pai, que prestavam serviço na PIDE. Esclareço que lá em casa, tanto do lado paterno quanto materno não se era salazarista... uns porque Talassas outros porque correligionários de Norton de Matos e mesmo anti-salazarista!
      Um deles, um excelente oficial, caçador e pessoa de quem muito gosto e admirei sempre, com quem ainda me dou e escreveu dois excelentes livros sobre armas e carabinas de caça, o Coronel Óscar Cardoso, serviu com meu avô na Índia, mais tarde criou o corpo especial de tropas indígenas "Flechas" (composto por san ou bosquímanos do Sul de Angola, os mucancalas) e depois do 25 de Abril foi para a África do Sul, onde integrou o famoso Batalhão Búfalo, só regressando à meia-dúzia de anos, depois de perdoado - diz-se que foi quem mandou abrir fogo sobre os populares no cerco à António Maria Cardoso - teve uma vida aventurosa e inspirou um personagem do meu romance "Largueza" , o "Capitão", que foi o mestre de armas do personagem principal.

      Sim, porque entre o bem e o mal, a vida é assim mesmo e pode ser rica e enriquecer-nos com os seus actores e personagens! No fundo assistimos e também acabamos por participar, é isso viver, digo eu.

      Creio que conhecem "A mulher do legionário" de Carlos do Vale Ferraz, pseudónimo de outro distinto militar e homem que muito prezo, o Coronel Carlos de Matos Gomes, historiador militar, antigo operacional e capitão do MFA! É autor de alguns belos romances sobre a guerra colonial que ele viveu na frente de combate, assistiu e fez, não ouviu contar ou espreitou de longe... o seu azar creio que foi ser afecto ao PCP e portanto algo ostracizado enquanto escritor, não tanto enquanto historiador, se bem que também não agrade porque trata a verdade, que muitos queriam que fosse diferente!

      Quanto a romances sobre o tema, os filhos dos PIDE, não conheço nenhum, alguém aqui conhece?

      Eliminar
    2. " Comboio nocturno para Lisboa", Pascal Mercier.

      Não é um livro só sobre esse tema, mas toca nele, entre outros.

      Eliminar
    3. António Luiz Pacheco8 de julho de 2017 às 06:26

      Obrigado, interessante... vou pesquisar!

      Eliminar
    4. "Comboio Nocturno para Lisboa" - Pascal Mercier
      Sinopse:

      "Numa manhã chuvosa, uma mulher prepara-se para saltar de uma ponte, em Berna. Raimund convence-a a não fazê-lo, e consegue, mas depois a mulher desaparece. Tudo o que sabe é que é portuguesa. De tarde, entra numa livraria e, por acaso, descobre um livro de um autor português, Amadeu de Prado, que foi médico, poeta e resistente durante o salazarismo.

      Raimund é, desde há muito tempo, professor de latim e grego, o que já o entusiasma tão pouco como o seu casamento, já em estado de desagregação. Aprende português e, uma noite, mete-se num comboio para Lisboa, uma cidade que irá ser o local de todas as revelações: dos mistérios da vida humana, da coragem, do amor e da morte.

      Um livro que apetece reler lentamente, mal se acaba de ler."

      Quando Raimund Gregorius encontra uma rapariga portuguesa prestes a saltar da ponte de Kirchenfeld, desconhece ainda o significado daquele encontro na sua vida.

      Gregorius é filólogo clássico e dedicou toda a sua vida às palavras, ao Grego, ao Latim, ao Persa, ao Hebraico, ... A sua vida é monótona, como se fosse um ciclo diário de rotinas mecanizadas. Vive sózinho, e a mais pequena alteração nas suas rotinas provoca um abalo semelhante a um terramoto na sua vida. Tal como naquele dia em que a ponte estava vedada ao trânsito e ele cometeu um erro na aula de Grego. Ele tinha errado! Era algo impensável para o Mundus, alcunha por era conhecido no meio dos seus alunos.

      Mas naquele dia de manhã, enquanto cumpria o ritual de se dirigir para a escola, encontrou aquela jovem que se preparava para saltar da ponte... Impelido na sua direcção, impediu o trágico acontecimento. Mas nesse dia a sua vida mudou... Ao ouvir a palavra "português" pronunciada pela jovem, sentiu-se como que enebriado pela sua sonoridade. Abandonou as aulas a meio, entrou num alfarrabista e encontrou um livro português, do autor Amadeu de Prado. Comprou um curso de português, para principiantes, e foi para casa, aprender a língua que até agora lhe era desconhecida e que entrara na sua vida de forma apaixonada, como nunca algo acontecera.

      Gregorius, cuja vida sempre fora planeada não deixando espaço para os acasos, deixa-se agora invadir pela força da vontade quase irracional, e parte de comboio para Lisboa.

      Em Lisboa, procura Amadeu de Prado e a sua vida. Encontra os seus amigos e familiares e reconstrói a vida do escritor a partir das vidas daqueles que o rodearam, desde a infância até à resistência anti-fascista. Percorre os caminhos de uma vida sofrida, pelas ruas de Lisboa, pelas ruas onde se desenrolou a vida de Amadeu de Prado, um jovem só, sofredor da sua solidão, que escrevia sobre os sentimentos de uma forma tão clara, crua e profunda, que as suas palavras se imprimiam na vida de quem as lia; um jovem e, mais tarde, um adulto, cuja imensidão de sentimentos, cuja profundeza sofrida do ser abarcava tudo e todos para uma sensação de nostalgia opressiva, ao mesmo tempo que os conduzia a uma necessidade de grito libertador.

      Este é um romance pleno de personagens fortes, sentidas, com vivências sofredoras e sofridas. Não é um romance fácil, alternando entre a história que narra e as páginas do livro de Amadeu de Prado, mas é um livro que cativa desde o princípio. Não é uma história de aventura, mas no entanto é a aventura de Gregorius. É um livro profundo, um tratado existencialista e filosófico sobre a vida, o que fazemos dos momentos que vivemos e a liberdade que temos de a viver, apesar de ser sempre uma vida onde se reflectem as impressões dos sentimentos que os outros sentem por nós e nós pelos outros.

      Gostei deste livro. Fez-me voltar às leituras mais filosóficas e existencialistas, de que tanto gosto!
      (Rosa Soares, em Conta-me histórias)

      Eu (A.L.Pacheco) comprovei ter visto um filme com o Jeremy Irons baseado neste romance... aliás muito bom!

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório