O segredo de Joe Gould

Ler um livro que não é ficção e, porém, ter a cada instante a impressão de que se está a ler um romance é magnífico. A personagem – Joe Gould – parece mesmo inventada: um velho escanzelado deambulando por Manhattan, com roupa que já foi decente mas agora muito suja, bebendo e comendo sempre à custa de alguém (um empregado de um bar ou um cliente, que até podia ser o poeta E. E. Cummings) ou passando uma fome de cão, o que também acontece frequentemente. Um homem que, mesmo assim, estudou em Harvard, era filho e neto de médicos, mediu crânios a centenas de índios e anda a escrever há que tempos uma obra aparentemente interminável chamada Uma História Oral da Humanidade em cadernos que espalha por todo o lado. Mas não, não se trata da imaginação de Joseph Mitchell, o autor, que publicou os dois textos sobre Joe Gould que constam deste O Segredo de Joe Gould na revista New Yorker, onde trabalhou durante anos. São também muitos anos os que separam estes dois «capítulos» do livro, mas Joe Gould é o mesmíssimo nos dois perfis que o escritor lhe traçou – e, apesar de ter existido, é o protagonista que todos os que escrevem ficção gostariam de ter numa obra sua. Lobo Antunes, que assina um pequeno prefácio, diz que há muito tempo que não encontrava nada assim. Nem eu. Este livro não se pode perder.

Comentários

  1. Este livro é uma reedição, não é?
    Lembro-me de o ter lido, há uns bons anos, também com um prefácio do ALA. Era um livro de capa roxa, salvo erro, e de pequeno formato. Talvez ainda o tenha, vou investigar...
    :-) Antonieta

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  2. De facto Joseph Mitchell é um autor muito bom, e este Livro O Segredo de Joe Gould, que passou despercebido durante anos em Portugal, se fosse escrito por um escritor português também ninguém lhe passava cartão. Editores e críticos - todos no mesmo saco.

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  3. Ou não fosse Joseph Mitchell um dos grandes senhores do jornalismo literário... (para quem quiser saber o que é este género: http://ialjs.org/ que, por acaso, até tem uma portuguesa na presidência).

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  4. Cláudia da Silva Tomazi21 de julho de 2017 às 07:22

    Certo(s) conceito(s) há quem o(s) prefira. Literatura ata e desata; constrói ou renova-se, seguindo a (ênfase) educacional em todos o tempos.

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  5. Há tanta gente boa que desconheço e tanta obra que gostava de ler. E sem retirar o mérito ao autor, há na verdade gente que parece saída de um livro. E é real. Existe, respira, faz coisas. Mesmo para quem não os escreve são panorama.

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  6. António Luiz Pacheco21 de julho de 2017 às 10:12

    Ora vejamos:
    1º - Será que a grande maioria dos personagens marcantes dos grandes romances de ficção, são realmente ficcionados? Ou são e foram inspirados em pessoas reais, anónimas ou nem por isso? Nem que sejam o alter ego do autor... portanto há gente que dá um livro, como há gente que parece ter saído de um.

    2º - Há livros que não sendo romance, se lêem como um, com o mesmo prazer e porque muitas vezes consegue o autor seguir um fio condutor que dá à obra essa possibilidade de se ler como tal. Lembro-me de um exemplo flagrante: Nos Caminhos de África - Maria Emília Madeira Santos, Edição do Instituto de Investigação Cientifica Tropical. Um trabalho de investigação com 606 páginas, que se lê como um romance!
    E todos nós conhecemos casos assim.

    3º - Não sei exactamente porquê, mas os homeless (pronto, tá bem Seve, os vadios... os sem-abrigo, os vagabundos) são personagens míticos Norte-americanos, ou não é assim? Há diversos filmes e romances que lhes são dedicados ou em que o personagem principal é assim. E, há casos verídicos de homeless que foram "alguém", lembro-me de um famoso campeão de boxe e de um violoncelista que deram papel a vender a jornalistas que sobre eles investigaram e escreveram e até deram filmes!

    Fica uma pergunta de traça dos livros curiosa: Há obras passadas em África, Índia e Oriente baseadas neste tema, mas e na Europa, ou entre nós portugueses, alguém conhece uma obra inspirada ou em que o protagonista seja um destes sem-abrigo, vadio ou vagabundo? O D. Quixote de la Mancha não conta! Também não vale o Byron! Ah, ok, o Oliver Twist... mas outros assim neste tema ou enredo?

    Saudações vadias cá da Cidade Morena!

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    Respostas
    1. Não sei se é assim que se começa a escrever sobre. Pode ser. Mas não consigo imaginar um escritor a pensar, deixa cá ver um assunto sobre o qual ainda ninguém - ou pouca gente - escreveu (em Portugal, na Europa, na Ásia...), olha, os sem abrigo dão bom material. É isso, vou escrever um romance e fazer deles personagem principal.
      Parece-me mais viável que alguém que se sinta incomodado pela situação possa abordá-la em letra de forma. O que quero dizer é que não sei se a procura é a da originalidade do tema.

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    2. António Luiz Pacheco23 de julho de 2017 às 03:03

      Pois eu também não sei se é assim que se começa um romance... pela procura de um tema original, e, também me parece que não seja. Também me parece que não seja porque uma situação incomode o autor, mas sim porque o inspire - negativa ou positivamente.

      O cerne da minha pergunta é mesmo se na Europa alguém escreveu algum romance baseado ou sobre os homeless? Que não conheço.
      Nas Américas, o vagabundo, o homeless, o vadio, é quase mítico, talvez vindo do tempo do cow-boy errante (nos EUA), depois fruto das depressões, das guerras e revoluções, dos inadaptados que retornaram dessas guerras, tornando-se objecto de tantos romances conhecidos, até mesmo porque há uma imensa franja marginal nos os seus bairros-de-lata e habitantes que são material inesgotável.
      Passadas em África conheço algumas obras deste género, assim como na Índia. Mas na Europa não... e em Portugal, alguém alguma vez escreveu sobre os emigrantes a salto e os seus bidonvilles por exemplo? Rentes de Carvalho andou lá perto... estarei enganado? Talvez porque os escritores e intelectuais portugueses não possuam essa sensibilidade ou não se misturem com o povo, o povo real, e apenas ficcionem inspirados em coisas que leiam, que imaginem, mas nem por isso no que se passa à sua volta. Inclusive preferem ir a outros países em busca de inspiração e dos temas.
      A minha dúvida e a minha pergunta, estou a questionar e não a afirmar!

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    3. Caro Pacheco, li um livro há cerca de dois anos, escrito por um europeu (britânico) que me inspirou esta opinião:

      É óbvio que este livro não tem um alto valor literário. Mas cumpre um dos pressupostos exigidos por quem se dedica à literatura: ensina-nos algo. Não somos os mesmos depois de o lermos. Ele não se restringe a narrar a amizade entre um homem e um gato. Aprendemos, acima de tudo, como vive um sem-abrigo, viciado em drogas, que tenta ganhar dinheiro fazendo música de rua (numa primeira fase, nem isso conseguia). E eu nunca mais vou olhar para um músico de rua da mesma maneira.

      Os livros também servem para nos darem a conhecer formas de vida, com as quais, de outro modo, dificilmente, ou nunca, entraríamos em contacto. Para isso, não é preciso escrever uma obra literária. É preciso publicar algo com pés e cabeça, um texto bem estruturado, que nos transmita experiências, sentimentos e sensações. E que seja honesto!

      Este é um livro sobre a solidão, sobre a indiferença pura e dura, sobre o desprezo em relação a alguém que não se enquadra nos nossos padrões de vida, um desprezo que só é possível aguentar sob o efeito de drogas.

      «A vida na rua rouba-nos a dignidade, a personalidade e... no fundo, tudo. Deixamos de existir para tudo e todos. Um sem-abrigo é invisível para os seus semelhantes».

      Penso que a grande vantagem deste livro é a honestidade. O autor, que não o escreveu sozinho (e não faz segredo disso) não se dá ares de intelectual, pelo contrário, é uma pessoa bastante humilde, que tudo relata com uma sinceridade desarmante. Foi isso que mais me tocou. Livros destes levam-me a tornar a fazer as pazes com o mundo, quando chego ao ponto de acreditar (e não poucas vezes) que honestidade e sinceridade não são compatíveis com o ser humano. Livros destes tornam-me a dar um pouco de esperança em relação à humanidade, ainda que, para isso, seja necessária a ajuda de… um gato!

      «Bob é o meu melhor amigo, ajudou-me a encontrar uma vida nova, muito melhor do que a anterior. Para isso, ele não exige nada de complicado ou de irrealista em troca. Ele deseja apenas que eu esteja a seu lado. E eu estou».

      http://andancasmedievais.blogspot.de/2015/07/a-minha-historia-com-bob.html

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    4. Mas há vários escritores que são e vieram desse povo real, estou a lembrar de vhm e de José Luís Peixoto. Também têm obras que espelham os lugares por onde andaram e cresceram. E deve haver muitos mais, só que sou pouco dada a biografias e não sei quais.
      Um dia alguém se lembra e escreve sobre eles. Não acho um tema muito apelativo, mas também é verdade que não sei escrever sobre temas. Ou nunca experimentei:). Mas sobre alguma coisa que me incomoda, sim. Retira-lhe a estranheza.

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    5. António Luiz Pacheco25 de julho de 2017 às 06:56

      Comungo desse seu sentimento Cristina!
      Depois de ler "A rainha do cinema Roma", passado igualmente entre os vadios, prostitutos homossexuais e gente da rua, no Rio de Janeiro, nunca mais olhei do mesmo modo para o miúdo que engraxa sapatos na rua (aqui há muitos...). Aconselho-lhe vivamente a leitura deste livro escrito por um mexicano que trabalhou na inserção social e lidou óbviamente com os casos e personagens em que se inspirou! Podia ter sido escrito por Jorge Amado, é a melhor crítica ou definição que posso fazer.
      Mas, lá está é "americano", igualmente Shantaran, escrito por um fugitivo de justiça australiano passa-se na Índia ( e vale igualmente a pena ler!), temos o suspeito do costume Agualusa mas passa-se em África e idem para o novo Ondjaki ...
      Este que me fala é então europeu... vou ver se o encontro! Acho interessante o tema e de facto admira-me que não haja da parte dos escritores europeus nenhuma inclinação para ele, bem sei que são proscritos e até desprezados, enquanto nos outros continentes são míticos e frequentemente inspiram livros, filmes... os homeless/vadios/sem-abrigo.

      Saudações de debaixo de telha, cá da Cidade Morena!

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