O essencial

Já aqui contei uma vez a história de quando a minha mãe começou a descrever uma cena com demasiados detalhes e frequentes desvios (nunca mais chegava ao fim) e o meu irmão mais velho, impaciente, lhe disse que deixasse, por favor, o Proust de lado e fosse direita ao assunto. Tratando-se de criação literária, nem todos os autores são como Proust, evidentemente, mas é muito difícil encontrar um romancista que diga apenas o essencial, que seja contido, económico, seco e mesmo assim agradável. Serão poucas as obras de ficção que não têm aquilo a que chamamos «palha», algumas passagens ou páginas que por vezes nem decorativas são e, portanto, podiam sair; mas, enfim, ficaram lá talvez apenas porque é muito complicado para um autor deitar fora o que escreveu. Por falar em contenção, em reduzir as coisas ao essencial, encontrei por aí esta maravilha que vos deixo abaixo. Devia ser dia de futebol, o padre que ficou sozinho na igreja queria, provavelmente, ir ver um jogo da sua equipa e, além disso, devia andar fartinho das confissões proustianas dos seus paroquianos. É preciso ter muita coragem para afixar uma coisa destas na porta de um confessionário. Mas é de se tirar o chapéu!


 


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Comentários

  1. António Luiz Pacheco18 de julho de 2017 às 02:15

    Ahahah! Faz-me lembrar aquele anúncio que dizia:
    A Procissão sairá do adro da Igreja, após a missa.
    Caso chova de manhã realiza-se pela tarde, caso chova de tarde realiza-se pela manhã.

    Não podia ser mais óbvio! Eheheh!

    Agora sobre a nossa amada literatura:
    Com efeito só um grande mestre consegue ser assim lacónico e agradável!
    Creio que são raros, e digo creio baseado na sensação que tenho de que escrever é como pintar um quadro. Os detalhes, os pormenores as minudências enriquecem-no, no seu todo entendo eu.
    Adoro "palha", mas palha da boa, descrições e considerações, aquela teia que compõem as cenas e me enredam, me conseguem transportar para lá e como que estar a ver tudo, eu que sou um observador e atento nos detalhes do que me cerca, o que acreditem me dá algumas vantagens até no meu trabalho, onde os detalhes contam e muito.
    Creio que está tudo ligado: a nossa maneira de ser, a profissão a forma como nela nos movemos, e, aquilo que lemos. Também somos aquilo que lemos!
    É natural que transpareça na nossa escrita.

    Saudações perifrásticas cá da Cidade Morena!

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  2. No sins or offenses today.

    AMNESTY DAY

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  3. Quando se fala de escrita com essas caraterísticas logo me acodem os nomes de Hemingway e Cardoso Pires, que muito aprecio.
    Neste caso o padre poderia ter fechado com aquela anedota: aguarde serenamente a sua vez de se confessar e quando ela chegar, cale-se.

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  4. Se não forem decorativas que se tirem, mas a massificação e a confusão com o jornalismo muito mal podem fazer à literatura. Só a experiência dá ao autor a capacidade do essencial, mas que não se diga que alguma palha aos olhos de uns não sirva para alimentar um animal menos seco de peles.

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  5. compreendo o sr. uma confissão não é uma consulta com o psicólogo ;)

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  6. Não me parece assim tão sucinto...

    Better:

    "Today (Saturday) only one priest is available. Therefore confession will be until exactly 5:30 PM and must focus directly on your sins and offenses, without explaining them. Thanks."

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  7. Do melhor! E quanto à palha... é uma infestação dela.

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    Respostas
    1. António Luiz Pacheco18 de julho de 2017 às 11:33

      Não resisto a citar o adágio:
      - Todo o burro come palha, a questão é saber dar-lha!

      Eheheh! E agora vou "palhar" (comer, na gíria militar, para quem não conheça).

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  8. Respostas
    1. Boa Pergunta!
      :-) Antonieta

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    2. Quando era criança, confessava-me todas as semanas e questionava-me porque tinha de o fazer pois os meus "pecados" eram tão pequenos quanto fazer as asneiras do costume: brincar.
      Em adulta, ia confessar-me quando achasse que era a hora, mas sempre com aquele sentimento que nunca tinha feito mal a ninguém, tenho os meus defeitos, mas sou educada , não matei, não roubei...
      Um dia, teria 31 anos, o padre fez-me uma pergunta que eu não queria responder.
      Fi-lo por meias palavras e não era nada de mais. Tinha 31 anos! O homem decidiu não me dar a absolvição, disse-me para ir ao padre da minha freguesia.
      Não fui e nunca mais me confessei.
      Desde então, o meu diálogo é com Deus, com a minha consciência.

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  9. Hoje está toda a gente perdoada.

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