Mulheres inspiradoras
Pouco importa discutir agora se as obras literárias têm sempre um fundo autobiográfico; algumas têm – e é isso que me traz hoje aqui para falar de várias mulheres de carne e osso que inspiraram personagens de livros de todos os tempos. A primeira é Beatrice Portinari, que Dante viu quando era criança e amou platonicamente o resto da vida, colocando-a em A Divina Comédia como aquela por quem sente um amor que não pode ser terreno e que o há-de guiar ao Paraíso. A heroína de Romeu e Julieta (Giulietta Capuletto) existiu também na realidade e pode ainda hoje visitar-se a sua casa em Verona, o que também acontece com a de Dulcineia (a do Dom Quixote) algures na Mancha. A Dama das Camélias, do livro homónimo de Alexandre Dumas, chamava-se na realidade Marie Duplessis e parece ter sido ela quem inspirou também a ópera de Verdi La Traviata. Quase nem vale a pena mencionar Alice Lidell (a de Alice no País Maravilhas) que Lewis Carroll fotografou e cujo rosto conhecemos bem; e, apesar de Flaubert ter dito que Emma Bovary não era senão ele mesmo, há a suspeita de que existiu uma senhora chamada Delphine Delamare, filha de um grande proprietário de terras francês, que terá inspirado a personagem de Madame Bovary. Há obviamente mais casos, mas fico-me por aqui para deixar os Extraordinários lembrarem heroínas que acabaram nas páginas de romances.
Segundo li, a casa de Julieta foi construída para ser a casa de uma personagem da obra de Shakespeare:).
ResponderEliminarMas é verdade que existem e existiram mulheres, perfeitamente identificadas, que inspiraram obras. Julgo que se a escrita feminina fosse corrente - que não era - o mesmo aconteceria com os homens.
Sim, não esqueçamos que o endereço 221B Baker Street, que não existia, foi criado porque muita gente escrevia ao Sherlock Holmes. Não se trata de uma mulher, mas lembrei-me agora, pois a Beatriz lembra-me uma questão interessante: as casas de algumas personagens não teriam sido construídas "a posteriori"?
EliminarAs fronteiras entre realidade e ficção não são, por vezes, claras ;)
Assim de repente estou-me a lembrar da Ofélia do Pessoa, da Ernestina do J. Rentes e da tia Julia do Vargas Llosa.
ResponderEliminarQuanto à Julieta penso que é como o Sherlock Holmes: apesar de terem "casas" não passam de personagens de ficção.
:-) Antonieta
Oh, escrevi o meu comentário, antes de ler o seu, Antonieta.
EliminarDesculpem a repetição!
Ora essa, Cristina - e obrigada pela flor!
EliminarEu ainda hesitei entre o Sherlock e o Pai Natal que, tal como a Julieta,
também recebe imensas cartas lá na Lapónia - todas com direito a resposta.
Eu e os filmes: há tempos vi um filme de que gostei muito - Cartas a Julieta - parece-me que era com a Vanessa Redgrave, mas não garanto.
Bom fds!
:-) Antonieta
A propósito do Pai Natal, vou contar uma história que, atrevo-me a dizer, em Portugal ninguém conhece. É que as cartas não vão apenas para a Lapónia.
EliminarA 15 km de Stade, a cidade onde vivo, na margem esquerda do rio Elba, há uma localidade com o curioso nome de Himmelpforten. Digo curioso porque, traduzido, o nome significa "Portões do Céu" ("Himmel" é céu e "Pforten" são portões - singular "Pforte" - uma palavra, sem dúvida, de raiz latina). Não sei qual a origem deste nome. Ora, muitas cartas que as crianças, na Alemanha, escrevem ao Pai Natal são dirigidas aos "Portões do Céu". Vão parar a esta localidade e já há muitos anos que os correios, nessa altura, organizam um serviço postal, que conta com a ajuda de muitos voluntários, encarregado de responder às cartas.
Aqui se pode ver a localização de Himmelpforten, apesar de não haver praticamente informações:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Himmelpforten
Bom fim-de-semana também para si, Antonieta, e para o resto da "pandilha extraordinária"!
As palavras são como as cerejas...
EliminarComeçámos com musas inspiradoras e já vamos no Pai Natal.
Eu já sabia que havia anjos em Berlin (Der Himmel über Berlin, Wim Wenders, 1987 - um dos meus filmes favoritos de sempre), agora um Pai Natal na Alemanha é mesmo uma novidade.
Gostei de saber, Cristina.
Um beijinho para si, outro para a Lucy.
:-) Antonieta
"Madame Bovary, c'est moi!" - exclamou certo dia Gustave Flaubert, irritado pela ofuscação a que o êxito do sensual romance votara o restante da sua obra. E de tal modo foi permanente e intensa a sua indisposição que, no leito da morte, exclamou sobre a burguesinha adúltera que tanto escandalizara o seu tempo: "Eu estou a morrer, mas aquela puta da Emma viverá para sempre."
ResponderEliminarC'est la vie, comme disait l'autre...
EliminarNão consigo de repente lembrar-me de todas... mas é bem sabido que inúmeras mulheres-reais inspiraram personagens romanceadas!
ResponderEliminarA Lucrécia Bórgia, a Leonor Teles, Charlotte Corday, Martha Jane Canary Burke, Phoolan Devi, as netas da Condessa de Ségur, apenas alguns exemplos, porque é bem sabido que as há muitíssimo mais que não foram mediáticas.
Alguém imagina que as personagens femininas do prolífico e genial Jorge Amado, não sejam inspiradas em pessoas reais? Apenas para referir um caso.
Saudações inspiradas cá da Cidade Morena!
é uma personagem menor mas como acabei de ler agora acho que é pertinente...O livro chama-se “Beija-me onde o sol não alcança” e trata de um triângulo amoroso no Brasil do século XIX. O protagonista masculino, é o conde Maurice Haritoff, que se casa com Nicota Breves, a rica neta do barão de Piraí e sobrinha e uma das maiores fortunas então.O terceiro personagem é uma negra, filha de escravo alforriado, Regina Angelorum, por quem Maurice se apaixona. Os nomes parecem inventados mas não...são pessoas reais. A autora (a historiadora brasileira, Mary del Priore teve acesso a cartas trocadas entre os personagens e escreveu o livro). Acheio-o muito interessante!
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