Mais censura

Comprei recentemente os direitos de tradução para português do romance de uma jovem alemã descendente de russos, romance cuja história se inicia justamente há cem anos, com a Revolução Russa, e termina com o recente golpe de estado (encenado?) na Turquia. Promete, até porque a prosa é moderna e pega nos episódios históricos pelo lado menos esperado. Mas, falando da Turquia, que é o que agora me importa, a verdade é que as coisas estão bastante difíceis para os escritores turcos. Asli Erdogan (que partilha o nome do senhor que manda na Turquia, mas pensa de maneira oposta à dele) foi há uns tempos acordada de uma sesta para lhe revistarem a casa e apreenderem todos os livros que tinha sobre curdos, acusando-a de apoiar o terrorismo. Foi presa, esteve numa solitária, e só cerca de quatro meses depois lhe deram a hipótese de se defender judicialmente. Acabou por ser libertada, mas, se for condenada no final do processo, enfrentará  provavelmente a prisão perpétua. Tendo ganho um prémio importante na Alemanha, o Prémio da Paz Erich Maria Remarque (já atribuído a outros escritores activistas como, por exemplo, a bielorrussa Svetlana Alexeievich ou o poeta sírio Adónis), pediu uma licença especial para sair da Turquia, que foi dada, mas os advogados duvidam de que o senhor Erdogan devolva à escritora o passaporte que tem na sua posse. Além disso, Asli é talvez a mais mediática, mas não a única escritora turca a ter problemas – e, ao que dizem alguns observadores, como um membro do P.E.N. Club norueguês, desde o golpe de estado que as coisas só têm piorado para quem escreve.

Comentários

  1. Escrevia Miguel Torga, em 10 de Setembro de 1953, no seu Diário VII, que estou a ler:
    -...a ocidentalização a martelo da Turquia, deu como resultado que em vez dum povo a mais na Europa, há um povo a menos no mundo.
    Curioso, digo eu.

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  2. Parece que a História está mesmo a perder a imaginação, de tal forma se repete sem respeitar ciclos centenários por onde a memória se perde ou se esbate.
    E as ditaduras tem cá uma alergia aos intelectuais!!!
    A menos, é claro, que tenham dom para o marketing.

    Fiquei na dúvida Rosário, a senhora em questão chama-se Asli ?
    Deve ter sido lapso.
    É que Ash pareceu-me um pouco mau augúrio.



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  3. Emílio Gouveia Miranda11 de julho de 2017 às 05:33

    Boa tarde. Julgo que seria interessante existir uma Editora que apostasse em criar uma colecção em que publicasse apenas livros e/ou autores censurados, com um prefácio em que fosse explicado ao leitor a razão ou circunstâncias que levaram à censura da obra e/ou autor. Título proposto para essa colecção: Obras de Liberdade. Esta colecção seria uma forma de homenagear personalidades cujas obras contribuíram ou contribuem para a defesa da Liberdade.

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    1. António Luiz Pacheco11 de julho de 2017 às 09:19

      EXTRAORDINÁRIA idéia!
      Seria uma forma EXTRAORDINÁRIA de denunciar e dar a conhecer, obras, escritores, regimes, razões... de divulgar a opressão!

      É que por sistema clama a esquerda contra a direita, mas ignora o seu próprio totalitarismo... seria interessante e EXTRAORDINÁRIO revelar as obras proibidas da Alemanha Nazi, dos tempos da Santa Inquisição, em Cuba e URSS, Coreia, sem esquecer o McCartismo e o Hoover, os censores da PIDE, da Stazi do KGB, do Chile... e por todos os tempos e em todos os lugares e regimes!

      Saudações libertário-livrescas cá da Cidade Morena!

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    2. Emílio Gouveia Miranda11 de julho de 2017 às 09:25

      Abraço, Amigo.

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    3. A propósito da interessante sugestão de serem editados livros proibidos pela censura, ocorre-me um episódio que, se não estou em erro, já em tempos aqui relatei.
      Mas vamos lá, que vem a propósito:
      Nos anos 60 uns camaradas da oposição ao regime de então foram de carro a Paris e, no regresso, traziam um exemplar da peça “A Tebaida” de Racine (séc XVII).
      Como era obrigatório, pararam na fronteira para a revista às bagagens.
      Ao deparar-se com o livro de Racine, o pide exclamou: “Não, não! Lenines, Estalines e Racines – não entra cá nenhum!”
      Conclusão: “A Tebaida” de Racine tem de – até pelo forte simbolismo – fazer parte da lista dos livros a editar por terem sido censurados.

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