Enchouriçada

Eu bem sei que, às vezes, faço uns posts que são mais ou menos «encher chouriços» (até já me acusaram disso aqui), mas a verdade é que é raro o dia em que não ponha o dedo no ar aqui no blogue e, por isso, tenho desculpa (perdoo-me a mim mesma, pelo menos) para a falta de imaginação e de assunto. De qualquer maneira, talvez isso não seja razão para que regularmente me mandem convites da Confraria Gastronómica dos Enchidos (estou a falar a sério) e, ainda por cima, da parte do seu Grão-Mestre… Não sou assim uma grande consumidora de enchidos na forma alimentar (já na literária a profissão obriga-me a ler muito livro que também não passa de encher chouriços) e, no geral, nem sequer leio muito sobre comida. Fico, porém, surpreendida com a produção livresca à volta do tema dos enchidos de que sou mensalmente informada; e, desta feita, a obra para cujo lançamento sou convidada (dia 15, às 17h30, no Centro de Exposição de Odivelas) chama-se Bodas de Madeira da Confraria dos Enchidos e, para comemorar as ditas bodas (cinco anos), conta a história dos enchidos, falando dos diversos tipos de enchidos, apresentando receitas que incluem enchidos e juntando depoimentos de outras confrarias (do Mel, da Chanfana…) sobre a matéria. Enfim, para quem goste de enchidos, pode ser uma boa opção. E eu lá enchi mais um chouriço.

Comentários

  1. Como já não há cozinheiros (agora são chefs) e a comida (uma caganita c/um ramo de salsa em cima) é o tema da moda, a CARNEIRADA é toda gastrónoma...uns tristes

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    1. Claro que também queria falar de livros/comida (mas carreguei em publicar sem querer), é que um dos melhores livros que li sobre o tema foi o primeiro livro do José Quitério, creio que o título será "a arte de bem comer"-mas trata de comida a sério (e não só) e não de caganitas c/um ramo de salsa a enfeitar.

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    2. Neste caso é uma tripa.

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  2. “ (...) O Sol andando lá fora, / fazendo lume nos vidros, / chegando carros ao largo / com gente que vem de fora / (quem será que vem de fora?) / e a gente pràqui fechados / na penumbra das paredes, / curvados pràs secretárias / fazendo letra bonita. (…)”
    Manuel da Fonseca, in “Coro dos Empregados da Câmara”

    * * *

    Pois se Maria do Rosário me dá licença, sujeito-me a dar a provar aos Extraordinários um chouriço que, temperado com os versos de Manuel da Fonseca que acima transcrevo, enchi aqui há tempos, e que esteve pendurado a secar para apurar o sabor.
    Bom apetite:

    « O TEMPO TEM MAIS HORAS QUE BARRIGA

    Ó sô’rquitecto, isto é como o outro, já estamos por tudo, o que vale é que não faltam dias a seguir às noites, haja saúde, homessa!
    E digo mais, se isto continua assim, quer dizer, sei lá onde é que vamos parar, um gajo anda aqui descansadinho, faz o que lhe mandam e, de repente, vai-se a ver, e ó, lá está, é o que eu digo, quando menos se espera, tau!, toma e embrulha, e não digas que vais daqui. Mas o que é que uma pessoa há-de fazer, não é?, um gajo anda p’ráqui sem saber com quantos paus se faz uma canoa, quer-se dizer…
    Olhe, eu digo quanto é franco, ou há moralidade… Mas isto, hoje em dia, ó, ninguém liga, um gajo nunca sabe nem da missa ametade, não é? Não se encontra nada que se diga: “Passa-se isto”.
    Lá está, o que faz falta é avisar a malta. Devia haver mais respeito, ora o carago!, desculpando-me a expressão, que um home às vezes, olhe, nem sei, um gajo passa-se, mas pronto, enquanto houver saúde, ao menos vamos comendo e bebendo, qu’é o que se leva desta vida.
    Mas olhe que é triste...
    Prontos, é assim... o que é que se há-de fazer? É preciso fazer passar o tempo, que ele tem mais horas que barriga. (...) »

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  3. Sinceramente, mais valia que lhe tivessem mandado um frasco de óleo de fígado de bacalhau.
    Que a Rosário tem o apetite de um "pisco".
    Mas antes enchidos que sapos, que esses é que são difíceis de engolir.
    Mesmo com mostarda ou salpicos de pimenta cheirosa.
    Vou já avisar a Confraria dos leitões para nem se atreverem...

    Atenciosamente
    Grosdemange

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  4. António Luis Pacheco6 de julho de 2017 às 07:02

    Pois e que belo chouriço aqui nos trouxe, ó! (Parafraseando o J.Jordão).

    Desconhecia a existência dessa Confraria, mas não me admiro, e, os enchidos portugueses além de bons, ricos e variados merecem ser defendidos e promovidos!
    Há quem confunda fumeiro com enchidos... mas estes podem ou não ser fumados, mas eu gosto de todos!
    Portanto aposto que será bem interessante o livro proposto, porque os enchidos fazem parte da nossa cultura, logo da nossa história!

    Haja chouriço! Até aqui há o chouriço picante do Cacuaco!
    Saudações cheias cá da Cidade Morena...

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  5. E perdoa-se muito bem, até a Lila Cerullo enchia chouriços e era genial. No meu entender eram ambas.
    Há coisas piores, como virar frangos.

    O meu amigo Viriato sofreu de um problema devido à prolongada exposição que a profissão o obrigava.
    Trabalhava numa conceituadíssima casa de churrascos e foram anos a virar frangos. O que não me parece dramático.
    No entanto ao fim de uns anos a pensar que tinha um magnetismo animal, apercebeu-se, após intricadas introspeções, que o poder da sua atração provinha de um cheiro a frango assado que não o largava, aconchegava-se nos poros e mantinha-se mesmo após as sabonárias intensas.

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    1. António Luiz Pacheco6 de julho de 2017 às 10:57

      Ahahah! E ele nunca experimentou passar piri-piri???

      Sabe aquela do carteiro que foi mordido nas canelas por um cão?
      (Esta tem barbas, claro... é do tempo dos carteiros a pé, e antes do PAN que teria acusado o carteiro de alguma coisa contra o cão ...)
      Do hospital telefonou ao chefe a comunicar a ocorrência, e, o chefe preocupado pergunta: Mas e você pôs alguma coisa na perna?
      Não chefe! Ele mordeu assim mesmo...

      Ahahah!

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  6. Emílio Gouveia Miranda6 de julho de 2017 às 12:29

    Quem nunca encheu chouriços que atire a primeira pedra... Afinal, talvez de tudo quanto somos, sejamos sobretudo produtores de enchidos...

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  7. António Luiz Pacheco6 de julho de 2017 às 14:23

    Uma terrível dúvida em assalta, e, vou fazer a pergunta de 1 milhão de dólares (ou a pergunta estúpida da noite...) : porque se diz "enchidos" e não "cheios" ou vice-versa?

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    1. Talvez por se "encher" a tripa/tecido/ o que envolve (??). Não sei, estou apenas a tentar arranjar explicação

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  8. Mais um historieta engraçada, desta vez à volta da gastronomia, tema fértil na nossa literatura, com o Eça à frente. E O Camilo também sabia da importância em nós do coração, da cabeça, e do estômago.

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