O que ando a ler

Pronto, agora é a sério... Ontem disse que estava a reler um romance de Han Kang – e é verdade –, mas também preciso de ler alguma coisa musical para ir intercalando com a prosa da sul-coreana que, neste novo livro, dá vários nós no peito, na garganta e no estômago, mesmo à segunda vez (é que agora já a estou a ler na nossa língua e isso muda tudo). E nada melhor do que o luminoso Vinicius de Moraes para encher o coração de coisas boas. Falo de uma das grandes ideias que a Companhia das Letras teve nos últimos tempos, a de publicar em Portugal o Livro de Letras do poeta brasileiro, que inclui tudo aquilo que cantamos de cor enquanto lemos, relembrando as músicas que nos afeiçoaram a essas palavras (de Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, Pixinguinha) e as vozes que no-las trouxeram (Elizeth Cardoso, Chico Buarque, Maria Creuza, Odete Lara, Amália Rodrigues, além, claro, da do próprio Vinicius, que ora cantava, ora recitava, e era sempre um show). O volume, imperdível, inclui ainda um artigo de Alexandre O’Neill sobre um concerto que Vinicius deu em Lisboa em 1969, um ensaio bastante extenso do crítico José Castello e ainda outro, mais curto, de Eucanaã Ferraz, o poeta que organizou a poesia completa de Vinicius de Moraes. Coisa para me acompanhar “por toda a minha vida”.


 


P.S. Nos próximos dias 5 e 6, não haverá post, vou a Madrid para a Feira do Livro dedicada a Portugal e a sessão de lançamento do meu livro em castelhano. Até dia 7!

Comentários

  1. E podemos saber qual é o livro da Han Kang que vai sair no Outono, ou é segredo?
    Já sei que ela vai estar na Feira do Livro do Porto (pela Anabela Mota Ribeiro).
    Quanto ao Vinicius, o que posso dizer? Os brasileiros estão, sem dúvida, entre os melhores do mundo - tanto na poesia como na música.
    Muito sucesso e diversão em Madrid.
    :-) Antonieta

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  2. Emílio Gouveia Miranda2 de junho de 2017 às 01:16

    Bom fim-de-semana. Boa viagem e muito sucesso.

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  3. Ler Vinicius é sempre um prazer. Com ou sem música é uma simplicidade poética que se impõe. Ternamente, digo eu.
    E muita coisa boa a acontecer por Madrid!

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  4. António Luiz Pacheco2 de junho de 2017 às 03:02

    Gosto muito de Vinícius... lembro-me de o ver, com a garrafa e o boné de basebol, acompanhado de Nara Leão e Edu Lobo.
    A figura e o carisma de Vinícius são o estereótipo do poeta, pelo menos para mim, enfim de um certo tipo de poeta, falo do poeta-boémio que vive nos bares e cafés e faz uma poesia própria, vivida e autêntica do filme que protagoniza ele mesmo. Óbviamente diferente de um poeta como António Gedeão que nos fala de uma outra humanidade, mais sábiamente e com um sentido, que diria telúrico.
    Gosto muitíssimo de ambos e por isso os refiro.
    A nossa anfitriã esqueceu-se de Gal Costa, para mim uma das melhores vozes que já ouvi, e que também cantou (e de que maneira!) Vinícius, além da já referida e desaparecida Nara Leão que tendo sido musa da Bossa Nova, tem de ser recordada e o seu nome é indissociável de Vinícius!

    Saudações do semba, cá da Cidade Morena!

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    1. Também se esqueceu da Maria Bethânia. Tenho aqui um cd dela "Que falta você me faz" em que apenas canta Vinicius de Moraes - é de ouvir e chorar por mais!
      :-) Antonieta

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  5. Acabei de ler "O Segredo de Compostela", de Alberto S. Santos. Li este livro porque me foi oferecido pelo meu irmão e ele já me tinha perguntado mais que uma vez o que achara da obra...

    Embora esteja bem escrito e seja de fácil leitura, tenho sempre alguma dificuldade em entrar dentro de romances históricos sobre contextos que desconheço (primeiros tempos do cristianismo no Império Romano...), porque gosto de saber onde começa a ficção e acaba a realidade.

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  6. Diz-nos Maria do Rosário que «nada melhor do que o luminoso Vinicius de Moraes para encher o coração de coisas boas».
    Concordo inteiramente.

    Meditemos, por exemplo, neste poema que ele escreveu em 1933:

    JUDEU ERRANTE

    Hei de seguir eternamente a estrada
    Que há tanto tempo venho já seguindo
    Sem me importar com a noite que vem vindo
    Como uma pavorosa alma penada.

    Sem fé na redenção, sem crença em nada
    Fugitivo que a dor vem perseguindo
    Busco eu também a paz onde, sorrindo
    Será também minha alma uma alvorada.

    Onde é ela? Talvez nem mesmo exista...
    Ninguém sabe onde fica... Certo, dista
    Muitas e muitas léguas de caminho…

    Não importa. O que importa é ir em fora
    Pela ilusão de procurar a aurora
    Sofrendo a dor de caminhar sozinho.

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    1. Caríssimo Joaquim Jordão,
      Acabei de ouvir a Bethânia cantar este, bem mais luminoso:

      «Um velho calção de banho
      O dia para vadiar
      Um mar que não tem tamanho
      E um arco-íris no ar
      Depois na praça Caymmi
      Sentir preguiça no corpo
      E numa esteira de vime
      Beber uma água de coco

      É bom
      Passar uma tarde em Itapoã
      Ao sol que arde em Itapoã
      Ouvindo o mar em Itapoã
      Falar de amor em Itapoã»

      Ai, quem me dera estar em Itapoã!
      :-) Antonieta

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    2. A mítica Itapoã só existe, só persiste nas palavras do poeta.

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  7. De regresso a Agustina: "O Manto".

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  8. Depois de ler o excelente "BILHETE PARA A VIOLÊNCIA" do nosso extraordinário Luís Eme -um admirável photo-maton da violência no futebol português (sei que no futebol para se singrar não basta saber jogar bem à bola e parece que na literatura o caminho não deverá ser muito diferente ...), estou mesmo a terminar (o muito bom) "DIÁRIO DA ABUXARDA 2007-2014" de Marcello Duarte Mathias -um diplomata e que bem escreve-!

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    1. António Luiz Pacheco2 de junho de 2017 às 09:18

      Ai-é? Conta lá mais ó Severino, como descobriste que é do Luis Eme?
      Essa agora, e a gente aqui sem saber nada!

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    2. Estou atento ao lindíssimo -excelentes fotografias- blogue do Luís Eme (LARGO DA MEMÓRIA).

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  9. E o que ando a ler, deu hoje texto. O significado da existência está quase sempre inerente à escrita como processo de interrogação daquilo que fomos, somos, seremos. O que diz Molero (do filho do Oliveira Penalty, o Dinis Machado do Bairro Alto, ou o Dennis McShade para os amigos do policial, bem bebido da miscigenação criativa de Eugénio de Andrade, da revista Tintim e do semanário Spirou), é um livro que pensamos impossível de percepção pelas novas gerações. «Um irradiar de sinais belos e inteligentes» nas palavras de outro grande escritor contemporâneo (infelizmente pouco divulgado na dimensão escrita), o Mega Ferreira. Não das gerações que saborearam Abril, esse extraordinário marco. Essa epistemologia para um novo patamar da vida Lusa como enunciado no seu regresso por Rogoff (um economista Americano olheiro da revolução dos cravos, actualmente em Lisboa para as Conferências do Estoril, e que encontrou no ciclo longo português um volte face excepcional).
    O que diz Molero encontrei-o uns anos após o seu lançamento. Marcou-me tão profundamente como um mosaico sorvido, inigualável na cenografia, afirmando-se como um marco geodésico de uma novilíngua e noviescrita, bela, reflexiva, plástica, simultaneamente vestida do emergir de um nonsense anárquico, mas composto. A figura de Dinis inspirou mesmo um refazer totalmente livre de Molero. Um exercício tijolar absurdo de mais de duzentas páginas. Trinta anos mais de dinâmica deste país renovado e complexo no entendimento, com a figura central, e indecisa, do improvável herói de uma nação tão cheia de virtudes como de vícios: pedaços fragmentários das nossas vidas, das nossas memórias, do nosso país.
    Molero, O Regresso, ou à Procura de Molero, marcaram o primeiro toc-toc a uma editora. Sem sucesso, é certo, para além do prazer da escrita. Dado como afirmação do desconhecimento do passado por uma nova geração fio dental na capacidade condutiva, e sem fio de prumo. Para memória futura do próximo lançamento (a minha feira do livro) lá estarão as notas para quem nunca foi habituado à virtualidade meritória dos trabalhos de casa, sofrendo de exaustão prematura do texto lido.

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  10. Acabei de ler "O luto é a coisa com penas" do Max Porter.
    Um livro extraordinário!
    Maria

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