Envelhecer
O País enfrenta um problema grave: a falta de natalidade aliada ao envelhecimento de cada vez mais pessoas. Seja Feita a Tua Vontade é, por isso, um livro extremamente actual. Conta a história de um médico octogenário que decide que não quer continuar a viver. Metódico e informado, prepara a sua morte: ocupa um quarto da casa, comunica à família as suas intenções e deixa, pura e simplesmente, de se alimentar. Apesar do choque inicial que a notícia provoca, um dos netos resolve ajudá-lo a cumprir esta sua última vontade. Visita-o diariamente, e as horas que passam juntos a rememorar o passado e a conversar sobre os tempos que se aproximam constituem uma terna despedida, uma espécie de luto pacificado. Mas eis que, numa reviravolta completamente inesperada, o médico acorda um dia com uma súbita vontade de viver… E essa atitude intempestiva, em lugar de representar um alívio, abala a já conquistada serenidade, dando lugar a uma convulsão em que mesmo o afecto é posto em causa. Num momento em que a eutanásia e a qualidade de vida dos mais velhos estão na ordem do dia, Paulo M. Morais constrói neste romance, que foi finalista do Prémio LeYa, uma narrativa fulgurante que nos leva a pensar como a família – e a sociedade – se deve estruturar para lidar com a morte próxima de um dos seus elementos. A ler, pois claro.
Um tema interessante e actual, aliás!
ResponderEliminarUm médico, enfim e sem desprezar ninguém, é uma pessoa evoluída e com um certo nível social, económico e intelectual. O seu pensar (ainda que ficcionado) é um, mas qual será o pensar de tanto velho (parece que para ser políticamente correcto deveria dizer idoso, mas acho que aqui todos sabem o que é um velho...), mais básico ou menos evoluído, perdido nos bairros velhos das cidades ou pelas aldeias desse país?
Sem minimizar o romance ora proposto, fico a pensar nos meus conhecidos, os velhos da minha aldeia e vizinhas, antigos trabalhadores agrícolas, que vivem nos seus casais e casitas, mais ou menos entregues a si próprios... muitos ainda me tratam por "menino" ou mesmo por "Luizinho", e normalmente emocionam-se quando nos falamos, sendo a conversa deles sempre sobre o tempo passado, em que tinham forças e se sentiam algo que hoje sabem já não ser, o vinho o único consolo. Na verdade não sei o que pensam, mas de vez em quando algum ainda se pendura pelo pescoço num arame de fardo, ou bebe o "remédio" das laranjeiras.
Anda tanta gente preocupada com as barrigas de aluguer e a adopção pelos casais monoparentais, com os direitos dos animais, os ditos refugiados... pergunto-me o que sentirão ou pensarão estes velhos que pura e simplesmente são obliterados pela modernidade e não cabem na globalização, obsoletos e quem sabe incómodos, uma despesa para o Estado e muito pouco mediáticos para atraírem as atenções dos partidos ou dos media. É muito mais importante o estado de saúde do Goucha!
Enfim, cogitações aqui da Cidade Morena, votos de um bom fim de semana e as minhas habituais e geriátricas saudações!
Não. Não é mais importante o estado de saúde do Goucha. Se bem que ele seja um e quem dá a notícia ou a procura, não pense em resoluções e vise satisfazer curiosidade (e vender), que importância não tem nenhuma. A preocupação com figuras públicas é um enrugar de testa e nem se deve chamar preocupação que não chega a sê-lo.
EliminarAs barrigas de aluguer, se visam CR7, têm alguma razão, mas cada um assume as suas escolhas com o dinheiro e a vida que tem. Na decisão concreta que referi há qualquer coisa que roça o leviano. Julgo.
Preocupar-se com os velhos é uma questão de educação a nível individual e de colectivo; e precisa apoio exterior à família. Mas é tão outra coisa que eu diria que é estranha aos dois temas. E talvez nem seja.
Está na lista de desejos, gostei bastante de "Revolução Paraíso".
ResponderEliminarBom fim-de-semana,
Rui Miguel Almeida
Nunca li nada do Paulo M. Morais, eu que gosto tanto de ler escritores portugueses assumo está minha falha, mas este romance não me escapará... O tema parece-me muito interessante e certamente que o livro me irá surpreender...
ResponderEliminarUm abraço e bom fim de semana aos extraordinários da sala.
Carla Pais
Manifesto
ResponderEliminarTenho a certeza que tudo começou com o Ingmar Bergman e " O sétimo selo".
Essa história das conversações e conversinhas, tabuleiros de xadrez, como se não tivesse mais o que fazer, e tudo fosse pretexto para me adiar o trabalho.
Como se não bastasse a população mundial multiplicar-se a uma velocidade furiosa e os efectivos de que disponho continuarem os mesmos desde o princípio das eras.
Agora é mais eutanásia, pandemias, genocídios, a guerra da Síria, crises do caraças, catástrofes mil. E eu estou farta.
É que é muita pressão!
Até os aliens, insistem, cada vez que vem ver se as criaturas já se extinguiram.
Ora quando me atribuíram esta tarefa exotérica-mitológica-administrativa, isto não estava no contrato, garanto-vos.
Uma pestezita de vez em quando, um cataclismo ainda vá que não vá.
Mas a toda a hora é um abuso.
Ainda por cima o guarda-roupa é uma miséria, os rapazes do Vaticano todos janotas a preceito com uma criação do Michelangelo, e eu que trabalho há mais tempo que eles, de andrajos negros e gadanha.
Vou fundar um sindicato do além, é o que vos digo.
Se continuarem assim qualquer dia faço greve e nem o Saramago vos livra...
Deixem a morte em paz!
ah, ah, ah... D. Morte, muito prazer, como é que nos achou aqui neste cantinho de conversa?! Pois é, tem de mudar os apetrechos que a ceifa é pouca e mecânica, foices e gadanhas já eram; e a farda negra, com este calor, faz mal à pele, o preto torna-se muito quente. E daí não sei se é assim tão boa ideia, ainda que lhe entenda a agastura. É que a senhora já tem resmas de tradição, quilómetros e quilómetros de anos sendo como é.
EliminarBom, é consigo; faça como quiser.
Olhe, foi um prazer saber que anda lendo blogues nos tempos livres que é como quem diz, entre mortes umas mais macacas que outras e enterros.
Tenha um bom fim de semana cheio de tempos livres. E faça o favor de ter cuidado, deixe as pessoas irem à praia que está um calorão e não se deite a afogá-las, matá-las de insolação e outros desaires. Porte-se.