As vozes do silêncio

Já de há alguns anos a esta parte que a Fundação Calouste Gulbenkian, com a supervisão de Helena Vasconcelos, promove um concurso de leitura de textos literários – muitos de poesia, mas não só – feita por jovens. No fim-de-semana passado, os vencedores da edição de 2015 do Dá Voz à Letra (assim se chama a iniciativa) – João Teixeira, Matilde Anjos, Maria Casquinha, Pedro Freitas e Rita Sousa – realizaram um pequeno espectáculo dirigido por Carlos Pimenta e com sonoplastia de Tiago Jónatas intitulado Sons no Silêncio, aproveitando o belo cenário da clareira do Jardim da Gulbenkian. Os textos, escolhidos por Helena Vasconcelos, construíam um diálogo entre dois poetas (a que alguém chamou também uma espécie de duelo): Fernando Pessoa (melhor dizendo, Álvaro de Campos) e um poeta norte-americano que aquele muito admirava (e nós também): Walt Whitman, autor do fabuloso Leaves of Grass (Folhas de Erva). Terá sido estupendo, mas, para quem não sabia ou não pôde ir (o meu caso) vai haver uma repetição no próximo fim-de-semana (dias 1 e 2 às 16h00) – e a melhor notícia é que a entrada é livre.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco27 de junho de 2017 às 07:50

    E como este é um blog de leitores, porque tenho mais tempo do que a Nossa Extraordinária Anfitriã, e, sem a querer ultrapassar, atrevo-me então a citar aqui o extraordinário poeta que foi considerado o pai do poema livre e julgo na minha ignorância de traça dos livros, que estava à altura do Extraordinário Pessoa:

    Das Pessoas que Atingem Posições Elevadas

    Das pessoas que atingem posições elevadas,
    cerimónias, riqueza, erudição, e similares:
    para mim tudo isso a que chegam tais pessoas
    afunda diante delas — a não ser quando acrescenta
    um resultado qualquer para seus corpos e almas —
    de modo que elas muitas vezes me parecem
    desajeitadas e nuas, e para mim
    uma está sempre zombando das outras
    e a zombar dele mesmo ou dela mesma,
    e o cerne da vida de cada qual
    (a que se dá o nome de felicidade)
    está cheio de pútrido excremento de larvas,
    e para mim muitas vezes esses homens e mulheres
    passam sem testemunhar as verdades da vida
    e andam correndo atrás de coisas falsas,
    e para mim são muitas vezes pessoas
    que pautam as suas vidas por um hábito
    que a elas foi imposto, e nada mais,
    e para mim é gente triste muitas vezes,
    gente afobada, estremunhados sonâmbulos
    tacteando no escuro.

    Walt Whitman, in "Leaves of Grass"

    Saudações terra-a-terra e folhosas cá da Cidade Morena, também conhecida por Cidade das Acácias Rubras!

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    Respostas
    1. Não conheço o poema. Mas o excerto que copiou é simpático. E talvez seja verdade que as pessoas de posição elevada cuja, nos próprios, nada modificou, sejam a modos que infelizes. É como se o autor diga que há que assimilar e tornar nosso. Ou vale nada. Mas pode o poeta dizer qualquer outra coisa que a minha mente está inda bem não a parar, e não é de confiança em tal estado

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    2. Ó Caro amigo Pacheko retrato perfeito de alguma gente que eu conheço...uns tristes, infelizmente.

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    3. António Luiz Pacheco28 de junho de 2017 às 05:03

      Foi o que também pensei, ó Severino! E, repara que o poeta, poetou isto lá por mil oitocentos e tal... mais que um poeta, ele era um sábio! Como Gedeão, Yates, Camões, Pessoa, Coleridge ... e outros que poetavam com sentido, o sentido da vida! Não se limitavam a trovar, percebes o que quero dizer? Eram Homens de conteúdos!

      Grande abraço!

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