Ver passar comboios

Um dos amigos que ganhei com o casamento é um engenheiro que se especializou em transportes e que sabe absolutamente tudo o que há para saber sobre comboios (alta velocidade, ramais, construção, linhas desactivadas, percursos, acidentes, etc.). É fascinante, de resto, ouvi-lo falar do assunto e aprender tanta coisa que nunca me tinha sequer passado pela cabeça. Os comboios atraem muita gente e há um certo romantismo em redor das longas viagens ferroviárias – o Expresso do Oriente, o Transiberiano – mas também um lado trágico por detrás da construção dos caminhos-de-ferro, sobretudo em territórios com condições climáticas extremas (em alguns lugares, as mortes foram numerosas). Raramente, porém, se fala dos profissionais que dedicam a vida aos comboios – e agora o jornalista Carlos Cipriano, mediante entrevistas e recolha de testemunhos, resolveu fazer, em Guardas de Passagem de Nível, o retrato de quem está na base da pirâmide: heroínas anónimas que, longe de ver apenas passar os comboios, vivem à beira da linha, em lugares tantas vezes inóspitos aonde a tecnologia ainda não chegou, e garantem que «a composição» pode seguir e que os transportes rodoviários e os peões não atravessam a passagem de nível. Para quem goste de comboios, como eu, é para espreitar. O livro é publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Comentários

  1. Ah, são outros "Comboios Rigorosamente Vigiados".

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  2. António Luiz Pacheco4 de maio de 2017 às 01:37

    O combóio é um elemento literário muito importante!
    Muitos autores de muitas obras dos mais variados géneros incluem e usam o combóio como meio, recurso ou meramente o citam ... mas está presente em tantas obras!
    E digo combóio em geral, seja a composição, a linha, a sua construcção... etc. Foram e serão temas usados pelos escritores desde que existe.

    Guarda de passagem de nível é o equivalente ao faroleiro!
    Eu desejei ou invejei tantas vezes os faroleiros, já os guardas de passagem de nível, embora me despertando curiosidade, nem tanto.
    Hoje, creio que como o faroleiro, se tornou uma profissão rara ou mesmo obsoleta, com a automação e o comando digital a distância, mas ficam na mesma aquilo que os caracterizou e envolve um certo romantismo, diga-se, se bem que nem tanto para quem o foi ou é!

    Saudações cá da Cidade Morena, onde o combóio teve importante papel!

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    1. Ó Pacheco já leste "O HOMEM QUE VIA PASSAR OS COMBOIOS", do Georges Simenon? -muito bom-!

      Em contrapartida não gostei nada do "Comboio Nocturno para Lisboa" de Pascal Mercier, que li aqui há tempos.

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    2. António Luiz Pacheco4 de maio de 2017 às 03:10

      Não! Conheço o livro, mas nunca o li. Tenho lidos alguns do Maigret... nem me lembro quais, pois não sou grande policiário...
      Mas é um grande escritor!!!!!

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    3. Mas se tiveres oportunidade lê que vais gostar. Este homem que via passar os comboios não é policial é sim um homem que, após largos anos de uma vida irrepreensivelmente respeitável, com emprego das 9 às cinco, decide romper com a rotina da vida diária, abandonando a mulher, os dois filhos, a profissão, e assume uma uma marginalidade que sempre, ao nível do imaginário, o tinha fascinado.
      Saberás certamente que o Georges Simenon foi dos escritores mais prolíficos (criadores, geradores) que a Bélgica e este mundo gerou.

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  3. Ao ler este post lembrei-me de "A besta humana", de Zola, descreve os caminhos de ferros e os seus trabalhadores. Muito interessante a vários níveis.

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    1. Émile Zola - uma pérola esquecida - já ninguém lê-.

      GERMINAL foi um livro que não esqueci, mas há outros absolutamente imperdíveis (A TABERNA, NANA...)

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    2. António Luiz Pacheco4 de maio de 2017 às 03:14

      Ó Severino, se bem que concorde, lembro-te que há tanto excelente escritor, mas tanto, e sempre a aparecerem mais... que alguns ficam forçosamente esquecidos... o leitor interessado e curioso pode ir procurando e na minha opinião é para isso que serve também este blog, para divulgar e provocar curiosidade em nós, amantes da leitura.
      Estou farto de descobrir livros e autores aqui nestas nossas conversas e diatribes, e por isso, considero que este blog devia ser de utilidade pública literária!

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    3. Este blog devia ser de utilidade pública literária

      Concordo e subscrevo (e assino já por baixo)!

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  4. Que ideia interessante. Sobretudo porque as passagens de nível fecharam senão todas, quase todas. E por ser um trabalho muito preso a horários nocturnos e diurnos.

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  5. Já tinha reparado neste "Guardas de Passagem de Nível", e fiquei de olho nele (e no orçamento)...

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  6. «o Expresso do Oriente, o Transiberiano» - então e o "nosso" Sud Express, de quem Eça já falava, n' "A Cidade e as Serras"? A viagem de Jacinto e Zé Fernandes no Sud Express, com o Anatole e o Grilo a carregarem as malas, é uma delícia.
    «Que aventura, Zé Fernandes!»

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