O que ando a ler
Interesso-me, naturalmente, pelo que produzem alguns escritores que começaram a publicar já neste século XXI – e não passei, por isso, ao lado do romance de estreia de Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas, de que falei aqui no blogue na altura em que saiu e que, mais tarde, ganharia o Prémio Literário José Saramago, entre outros. Mas, sendo esse um livro bastante peculiar, com uma longuíssima lista de personagens que, frequentemente, não chegam a cruzar-se, era muito difícil saber o que o autor faria a seguir, sobretudo em termos de estrutura. O que ando a ler é justamente o seu segundo romance, Hoje Estarás Comigo no Paraíso, recentemente publicado pela Quetzal. E é um livro muito diferente (o que são boas notícias), mais articulado, de grande maturidade (literária e não só), que poderia claramente ter sido escrito por alguém mais velho, dada a ampla reflexão sobre uma panóplia de assuntos e a cultura que habita o texto sem nunca se exibir. Partindo da história real do assassínio de um primo do próprio autor aos vinte e um anos – morte violenta –, o romance é, a um tempo, a investigação sobre os factos e as suas razões e uma permanente revisitação da vida familiar e social do narrador, com páginas belíssimas (e também tristíssimas) sobre a infância e figuras inesquecíveis, como, de resto, já se encontravam na obra anterior. A ler, evidentemente.
Bom dia. Boa semana. Com boas leituras, evidentemente.
ResponderEliminarEu cá, estou a terminar "Os naufrágios de Camões", de Mário Cláudio.
ResponderEliminarDe certa forma desiludiu-me! Estava à espera de uma obra de investigação e não de um romance... mas, afinal o próprio romance é desenvolvido em volta dessa suposta investigação e vai desvendando alguns factos, dúvidas e detalhes sobre a obra camoniana que amplamente substituem aquilo que julguei ia ser o livro e me satisfazem completamente até pelo muito que aprendo e me vai sendo desvendado.
Diga-se também que enquanto africanista e proto-explorador sou muito interessado em Richard Burton, um personagem verdadeiramente fascinante e muito à minha medida! Mário Cláudio inclui-o no romance e faz-lhe boa justiça, notem!
No resto, que dizer? É sempre um prazer ler Mário Cláudio!
Tem uma capacidade descritiva que se conhece e me agrada sobremaneira, escreve com uma clareza e riqueza ímpar no nosso panorama literário actual!
Depois, o seu conhecimento da nossa língua e a forma magistral como a usa, num estilo ou com uma técnica que me atrevo a dizer clássica que julgo só tem par num Aquilino ou Eça, é um deleite para quem goste de ler, digo eu... sem pretender ser mais do que aquilo que sou, uma traça dos livros que rói estes textos com o prazer que me daria uma ração de pata negra. Para mim é o melhor artífice da nossa escrita e língua, na actualidade!
Perdoem-me se me excedi nos encómios, não pretendo ser pretensioso nem armar-me em culto, mas estou deliciado com a leitura deste "Os naufrágios de Camões", não pelo tema nem pelo enredo, mas pela escrita em si.
Saudações de um náufrago cá na Cidade Morena!
Não se pede desculpa por motivos dessa natureza:).
EliminarAinda bem que os livros flutuam!
EliminarAdorei os encómios, à falta de poder mandar embrulhar meia dúzia para levar para casa, talvez acrescente esse livro à lista.
Ó Pacheco tem a certeza que não conhece o Fermín Romero Torres?
Bibliógrafo da Sempere e Filhos?
Quase que ia jurar que podiam ser aparentados.
Vénia e pirueta:)
Refere-se a este?
Eliminar"Fermín Romero de Torres
Carlos Ruiz Zafón é um escritor espanhol, nascido em Barcelona, em 1964. Seu romance de estreia, “O Príncipe da Névoa”, foi lançado na Espanha, premiado e traduzido para vários idiomas.
O que Zafón entrega ao leitor é puro entretenimento e, às vezes, é só isso mesmo o que se quer: um livro envolvente, bem escrito, divertido. Provavelmente, ele traz essas marcas de sua atuação como roteirista em Los Angeles. Seus livros têm sempre um clima noir, envolvem algum crime ou mistério. Entre eles, “A Sombra do Vento”, que se passa na Espanha Franquista, a partir de 1945, continua a ser meu preferido, talvez porque tenha sido aquele que me apresentou a Fermín Romero de Torres, que rouba a cena e arrisco que seja um de meus personagens favoritos, de todos os tempos.
Fermín é inteligentíssimo, debochado, dono de um humor ácido e irônico. Torna-se fiel escudeiro de Daniel Sempere, filho de um viúvo livreiro que luta para manter as contas de sua livraria em dia. Ao buscar a solução para um mistério, Fermín e Daniel nos levam a um passeio por Barcelona e seu Bairro Gótico. Essa é uma característica dos romances de Zafón: folhear suas páginas é como ser levado, por um guia local e apaixonado, a conhecer as entranhas da capital catalã."
Saudações cá da Cidade Morena
É mesmo esse que para além de todos esses atributos junta-se-lhe uma escola filosófica robustecida por um metabolismo fantástico que deglute qualquer pata negra como se fosse tofu.
EliminarA única pena que eu tenho, é que tão insigne personagem nunca tenha provado uns pastelinhos de bacalhau. Mas não se pode ter tudo.
No seu último livro Zafón dá-lhe ainda mais protagonismo e ficamos assim a conhecê-lo melhor.
Pode até ser leitura de entretenimento, sim e muito mais. Neste último livro "O labirinto dos espíritos " que tem sugus mas não é pastilha elástica. Para além das névoas, os mistérios do bairro gótico que há-de pairar sempre por Barcelona encontrarmo-nos com os ecos da guerra civil e as crianças roubadas por um regime. Enfim tudo do mais puro imaginário literário, porque a humanidade como nós sabemos, não é capaz de tal coisa.
Sou o Puck,
EliminarEsqueci-me do nome porque estou quase a cometer harakiri por causa dos pastéis de bacalhau.
Do que eu me fui lembrar!
Saudações
Ainda não li nada do autor, mas o texto aqui presente, a identificá-lo e dar conta das obras, está muito bom.
ResponderEliminarGostei muito da "Sombra do Vento", (o único que li) mas fico com a sensação que começou a escrever livros a metro...(pode ser apenas um preconceito meu).
EliminarTambém gostei bastante de um livro intitulado A sombra do vento e que é o primeiro de uma trilogia (foi mesmo o que mais gostei da trilogia). Mas é de Carlos Ruiz Zafon.
EliminarDe BV Amaral gostei também de "Aleluia!", poucas páginas sobre religião, interessante.
ResponderEliminarEstou a ler "Middlemarch", de Eliot.
Estou a adorar Reviver o passado em Brideshead, do inglês Waugh.
ResponderEliminarAndo a Ler_54
ResponderEliminarNa vez passada falei aqui de “ C’est de l’eau “, de David Foster Wallace, e elogiei o facto de cada página deste livro conter apenas um parágrafo, sendo assim o leitor induzido a ter calma... pensar o que acabou de ler... reflectir... enquanto muda de página...
Ora bem: dado o que me aconteceu posteriormente, cada vez mais me convenço de que não sou eu que procuro os livros, eles é que vêm ter comigo.
Pois aconteceu que, por mor da tradicional e obrigatória limpeza da Páscoa, a nossa empregada levou a cabo mais uma re-desarrumação das prateleiras da biblioteca. De modo que, aproveitando a confusão, puseram-se-me ali à mão de semear nada menos que três livros organizados nesse simpático estilo de textos curtos.
C’est de l’eau, quer dizer, claro como água: eles é que me procuraram.
E, educadamente respeitando a prioridade aos mais velhos, organizaram-se em fila de espera pela seguinte ordem: “O Senhor Ventura” (1943, Miguel Torga), “Rafael” (2003, Manuel Alegre) e “Prosa\Poesia” (2011, José Mário Silva).
Miguel Torga – metáfora das venturas e desventuras da História de Portugal, do auge dos Descobrimentos ao declínio do Império.
Manuel Alegre – prisão e posterior exílio nos anos 60 / 70 do século passado, aventuras, desventuras e venturas da oposição ao antigo regime.
José Mário Silva – pequenos textos que nos induzem na aventura de criar o que poderia ser o antes e/ou o depois do que ali está escrito. São como que pequenos excertos de livros que, na Biblioteca de Babel, aguardam que alguém os escreva. Pequenos milagres.
Sendo eu também um Torguista (ou Torgal?) , esse livro que menciona não conhecia, mas há-de ser interessante!
EliminarAbraço cá da Cidade Morena!
É um livro da juventude de Torga, por isso mesmo interessante.
EliminarÉ o chamado 'pequeno grande' livro - cerca de 100 páginas.
EliminarSó aquele prefácio de 1985 vale ouro: sim, porque não é todos os dias que um autor como Torga nos chama 'querido leitor' e nos trata por tu.
:-) Antonieta
Ó Pacheco, és capaz de gostar do Senhor Ventura, é ventura e um homem de grandes aventuras (gostei, um livro muito leve mas "agradável").
EliminarGostaria de ler algo expressivo feito Mário Cláudio... Leitura de estudo revela-se monótona. Por exemplo, assuntos dedicados à arte e ensaios tem seu mérito; contudo ler um bom romance é sempre agradável.
ResponderEliminarBruno Vieira Amaral: um autor fabricado pelo FJV numa viagem inesquecível ao sucesso "esperado". Arrebatou todos os prémios. Parcerias convenientes...
ResponderEliminarE todos os prémios com uma salganhada desestruturada que é tudo menos romance. E penso que foi assim que classificaram o monstro: romance.
EliminarEstou a reler a biografia de Fernando Pessoa escrita por João Gaspar Simões, cuja primeira edição é de 1950.
ResponderEliminar(apesar de um ou outro defeito, continua a ser (para mim claro), a melhor biografia do Poeta)
Ora aí está uma excelente dica, para mim que sou um leitor de biografias !
EliminarE logo Fernando Pessoa! Promete!!!
Mais, está a gostar, o que para mim é uma garantia...
Estou a ler:
ResponderEliminar"JOSÉ SARAMAGO - NAS SUAS PALAVRAS"
Uma selecção (de Fernando Gómez Aguilera) das mais variadas intervenções na esfera pública do melhor escritor português, depois de Camões!
E é sempre tão bom ler/reler Saramago, Severino - já estou a imaginar alguns risinhos por aqui, mas é a minha opinião, claro.
EliminarAndei a reler os Cadernos de Lanzarote recentemente e as verdades que eu por lá encontrei...
:-) Antonieta
"OS CADERNOS DE LANZAROTE" -5- um prazer de leitura!
EliminarÓ Antonieta, já leu alguma coisa da Carson McCullers? e da Flannery O'Connor? e do Truman Capote? e da Joyce Carol Oates?
EliminarSim, Severino, já li vários livros de todos esses autores (até falei de alguns aqui no Horas) e, se também gosta deles, estamos em sintonia: são todos excelentes escritores.
Eliminar:-) Antonieta
Falta aqui o Philip Roth mas também nesse sei que estaremos em sintonia. Boas Leituras (este maravilhoso vício que, infelizmente, tantos, atrevo-me a dizer -a maioria- desconhecem).
EliminarAntonieta, e já leu John Fante?
EliminarÓ Severino, mas que grande interrogatório!
EliminarNão, nunca li nada do Fante e, já que estamos nos 'Fs', também nunca li nada do Franzen - embora esteja nos meus planos ler, quando é que não sei...
Ontem comprei o mais recente da McCullers: Frankie e o Casamento.
E tenho a certeza que vou gostar muito de o ler.
Boas leituras, Seve, e bom fds!
:-) Antonieta
'Escombros' da Elena Ferrante. Sempre nos píncaros, Não percebo porque andam os bisbilhoteiros a bisbilhotar por outros sítios quando quase tudo sobre a escritora está neste livro.
ResponderEliminarNeste momento ando a ler um livro de peso - e bem pesado, com cerca de 700 páginas: é uma edição da Ponto de Fuga sobre a Natália Correia e, quanto a mim, um livro imprescindível para quem admire esta Mulher Extraordinária.
ResponderEliminar:-) Antonieta