Mentiras

Talvez mentir seja uma coisa a que ninguém escapa, pelo menos durante a infância, para evitar um castigo. Eu, que não gosto nada de mentiras, também já terei pregado algumas petas, sobretudo para fugir a reuniões indesejadas (sociais e profissionais). Quando cheguei à edição, quase «de fraldas», alguém me disse que devia estar preparada para as mentiras que a gente do meio contava sobre o que tinha lido (mas que, afinal, não tinha lido). E houve até quem sugerisse que, quando eu estivesse desconfiada de que determinada pessoa não tinha lido um livro que fingia ter lido, lhe falasse da cena do cão para ver o que dizia, pois raramente há cão – e aí se apanharia facilmente o mentiroso... Pois bem, leio agora no The Guardian que mentir sobre o que (não) se leu é, efectivamente, prática corrente (e não exclusivamente de editores e escritores); e que – calculem – até existe há vários anos um Top dos livros que as pessoas dizem ter lido, mas não leram, actualizado com regularidade. Curiosa, fui espreitar. Pensava que se tratasse de Proust, Joyce, Tolstoi ou mesmo a Bíblia, mas fiquei altamente surpreendida ao perceber que as leituras sobre as quais mais se mente são de obras como O Senhor dos Anéis, O Código Da Vinci ou a série James Bond, de Ian Fleming... Não vou mentir-vos: a verdade é que não li nenhum dos três, mas não tenho qualquer vergonha de o confessar. No Reino Unido, porém, não ter lido os livros que serviram de base a filmes de sucesso deve parecer quase pecado. Ou será, no fundo, que os tempos estão mesmo a mudar e a exigência baixou drasticamente?

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda9 de maio de 2017 às 01:31

    Quanto a mim, há muitos livros - dos sobejamente conhecidos e publicitados - que não li, mas não tenho qualquer vergonha. Às vezes, uma certa pena, mas a verdade é que acredito que nem sempre (ou quase nunca) somos nós quem escolhe os livros, mas eles que nos escolhem. Por isso, aguardo que me escolham. Não para que eu os leia, mas para ser por eles lido...

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  2. Eu li O Código Da Vinci assim que o livro saíu e também não tenho vergonha nenhuma de dizer que gostei de o ler - já do filme não gostei muito, serviu mais como guia turístico.
    Curiosamente lembro-me de ter ouvido o Vasco Graça Moura dizer numa entrevista que tinha lido o livro, numa das suas semanais viagens de avião, e que afinal não era assim tão mau como alguns intelectuais da nossa praça apregoavam.
    :-) Antonieta

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    1. Emílio Gouveia Miranda10 de maio de 2017 às 09:24

      Li O Senhor dos Anéis e grande parte da obra de Tolkian e não me arrependo de modo nenhum. Julgo ter lido um dos melhores escritores Universais... Quanto a O Código Da Vinci, para além de uma trama muito bem «montada», julgo que se trata de um trabalho capaz de nos levar a grandes reflexões, numa época em que começamos a esquecer-nos de colocar certo tipo de questões...

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  3. Na literatura e noutras coisas, conceito e preconceito constituem preceito.

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  4. Eu então sou ao contrário, não tenho vergonha de dizer que não li nenhum dos citados e outros da mesma estirpe...tanta coisa que tenho para ler, para quê perder tempo com papel que não me interessa (o que não quer dizer que não possa estar enganado a propósito da avaliação que eu faço-é o meu critério,o meu gosto que manda e, por vezes, também a recomendação de amigos com gostos semelhantes).
    Não costumo mentir sobre os livros que li (ou não li), quanto muito posso dizer que li um determinado livro (contudo, porque não gostei mesmo nada, não o acabei); neste caso digo que li e não gostei, mas normalmente não irei referir que não cheguei ao fim, só se a conversa se proporcionar-não será propriamente uma mentira, talvez seja não dizer toda a verdade.

    Sobre os britânicos, não esperava outra coisa, uma cambada (a maioria) de xaretéus que quer é cervejola e pequeno almoço com linguiça, chouriço, coiratos, feijão catarino e porrada e salto pa trás...

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    1. ...britânicos que, atenção, têem a mania que são superiores a tudo e a todos e olham todos os outros bem lá de cima.

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    2. Plenamente de acordo consigo, em todos os pontos.
      Os ingleses já são há muito os americanos da Europa.

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    3. É preciso ter em conta a ordem: os americanos é que são os ingleses da América.

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  5. Cláudia da Silva Tomazi9 de maio de 2017 às 03:58

    Engraçado. Li o livro O Código Da Vinci de Don Brown em sete dias, depois o devolvi.

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    1. E não gostou, Cláudia?

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    2. Indiferente e supérfluo. Um livro escrito com objetivo de influenciar o conceito subliminar* através a velocidade em cenas patéticas.

      *Conceito relativo

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    3. Obrigado pelo ESCLARECEDOR, CLARO e TRANSPARENTE esclarecimento...percebi muito bem...

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    4. Cláudia da Silva Tomazi9 de maio de 2017 às 07:11

      Você assina ASeve e será ASeve em todos os possíveis lugares do mundo em diferentes culturas, mas a diferença é que você é igual a todo mundo. Don Brown espeicializou-se com roteiros, literatura exige-se ser arte. O livro O Código Da Vinci está traduzido em dezenas de idiomas; trata-se séria paródia que estimula desavisados, com violento pano de fundo. Sim, também agride a índole ao desmascarar qualquer insensatez.

      Seria eu capaz de saber o quê fazer com uma "mentira" ao ser produtiva ou mercadológica quando a verdade está revestida de saudade em todos os lugares(?)

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    5. A Cláudia leu o livro e depois devolveu-o à livraria?
      Mas isso é uma ideia muito interessante - não para as livrarias, claro!
      Antonieta

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    6. Aposto que desta vez o ASeve já percebeu tudo muito bem...
      Eu não sei se os Extraordinários comentadores deste blog passam a vida a ler livros eruditos. Eu, de vez em quando, gosto de ler livros de puro entretenimento, por exemplo um policial. E o livro do Dan Brown não passa de um policial que é resolvido em 24 horas - com a polémica de "garantir" que a descendência de Jesus e Maria Madalena ainda anda por aí.
      Parece que os católicos não gostaram muito... e acabaram por fazer do livro um sucesso de vendas.
      Antonieta

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  6. António Luiz Pacheco9 de maio de 2017 às 05:24

    Bom... mentiroso sou eu que faço parte de uma celebérrima confraria deles, os caçadores e pescadores, eheheh!
    Costumo dizer que quem não é para mentir não é caçador... mas não entendam mal, pois as mentiras de caça não são mais do que um exagero saudável da realidade, feito com a arte de quem pinta um quadro e como tal compõe uma história. Os caçadores são normalmente bons contadores de histórias, acreditem, e porque de facto as sabem compôr com alguma dose do sal e pimenta ou porque estas são muitas vezes fantásticas, têm essa fama, a de serem mentirosos.

    E, por falar em fantástico... em minha opinião, se há livros que devem ser lidos, são os de Tolkien! As aventuras de Tom Bombadil vá que não vá, o Silmarillion é francamente chato, agora a sequência do Hobbit e depois o Senhor dos Anéis, são de facto obras primas e um deleite!

    Não li o Código porque calhou ver o filme e perdi o interesse em ler e nem nenhum de Ian Flemming pelas mesmas razões cinéfilas, confesso. Já a obra de Tolkien, foi exactamente por ter visto a primeira versão (animada) que foi feita para o cinema nos anos 70 (creio...) que me despertou a curiosidade e porque havia lido as obras de Lloyd Alexander de que gostei bastante. Tolkien superou-o em minha opinião, como superou C.S. Lewis (as Crónicas de Nárnia) por exemplo - aliás foram parceiros.
    Fui grande leitor de fantásticos, e ainda hoje gosto muitíssimo de Edgar Rice Burroughs (que não escreveu apenas o Tarzan...) de Rider Haggard, e de Robert Howard entre outros.
    Vi os filmes do Harry Potter, mas nunca li nenhum dos livros, também confesso, embora os tenha oferecido ao meu filho, e creio que devem ser muitíssimo bons.

    Já agora... li tanta coisa (gaba-te cesto!) que já nem sei, e às vezes posso mentir sem querer, por julgar que sim ou por não me lembrar... já sucedeu!

    Saudações fantásticas cá da Cidade Morena!

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    1. (Costumo dizer que quem não é para mentir não é caçador... )

      Ó Pacheco também sei que efectivamente os caçadores gostam de aumentar o número de "cabeças" que caçam; deste modo, satisfaz-me lá a curiosidade, por favor: gostam de pregar estas mentiras pelo prazer de mentir ou apenas pelo prazer de matar?

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    2. António Luiz Pacheco9 de maio de 2017 às 06:44

      Ó Severino, em verdade te digo o seguinte, o prazer da caça é... a caça! Ou seja, a busca e o achar do animal, depois a sua aproximação... a morte é uma consequência e não o fim absoluto, pois muitas vezes o animal foge ou é errado, e o lance preenche na mesma o Caçador.
      Falamos do caçador que não caça para comer, evidentemente, pois para um mucuíço o que conta é matar a caluíta, seja como for... ou passa fome!
      O caçador mente não pelo prazer de matar, ou de fingir que mata, mas para se fazer melhor do que é...
      Uma vez, num atelier de um amigo taxidermista onde fazíamos tertúlia habitual, um dos confrades estava a contar umas histórias de África, dessas bem salgadas (ou regadas) e um outro, mais ingénuo, comentava baixo para os demais - este senhor é um grande caçador! Alguém lhe disse: é mas é um grande mentiroso! E todos rimos, a começar pelo próprio... ahahah! É assim que funciona... já o meu amigo JB quando alguém lhe dizia, é pá isso não foi bem assim, ele sem se ralar retorquia: Pois não, mas assim tem mais graça!

      Vou citar ainda Ortega y Gasset: Mato porque caço e não caço para matar.
      Aplica-se às histórias de caça... mentimos para compor o quadro e não pelo prazer de mentir, seguramente que menos pelo de matar!

      Abraço

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    3. Se não matam para matar a fome; se não matam pelo prazer de matar; se caçam apenas pelo prazer de caçar, pelo exercício de perseguir a presa: porquê usar balas de verdade?

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    4. António Luiz Pacheco9 de maio de 2017 às 13:18

      Meu caro... poderia responder e explicar-lhe que a balística é uma ciência e uma das muitas vertentes que compõem a prática cinegética - não, caça não é desporto! E poderia ainda falar-lhe no tiro que é uma outra ciência diversificada, seja tiro ao vôo, tiro a chumbo, tiro à bala, de aproximação, e com muitas e variadas técnicas e nuances. Você ficaria a saber um pouco mais, entender é óbvio que jamais e nem eu perderia tempo a tentar explicar-lho ou fazer compreender...
      Porém , eu determinei que não falava com mais nenhum anónimo... e termino.
      Cumprimentos.

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    5. Se tiver oportunidade (e se quiser, evidentemente) leia a página 35 do
      livro "As fabulosas histórias da Tapada de Mafra", da Cristina Carvalho.
      Nas primeiras 15 linhas ela exprime exactamente o que eu penso sobre este tema.
      Antonieta

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    6. António Luiz Pacheco10 de maio de 2017 às 02:03

      É assim, nem o caro anónimo nem a minha querida amiga Cristina Carvalho sabem, que depois do grande fogo que consumiu a Tapada e portanto queimou a vegetação de que se alimentava aquela fauna, quem acudiu com camiões de feno foram as organizações de caçadores, nomeadamente a ANPC e o CPM... pois é! Veja lá a ironia...
      Posteriormente, a Tapada passou a ser gerida por uma "régie" composta pelos serviços do Estado e pelo CPM (Clube Português de Monteiros, aliás de cuja direcção eu fiz parte).

      Saudações para si cá da Cidade Morena, e quanto à caça, não pense que, reflicta, informe-se e colha elementos de análise para um síntese se não favorável, pelo menos correcta,
      Creia-me que sem acrimónia...

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    7. Apenas uma pergunta, caríssimo Luiz Pacheco:
      Leu as 15 linhas da página 135?
      Leu mesmo?
      É que se leu, não compreendo esta sua resposta... mas isso será, talvez, incapacidade minha, uma vez que o meu caro amigo tem sempre razão.
      E, se me der licença, se me permitir, eu gostaria de continuar a 'pensar que', e a exprimir a minha opinião (talvez irreflectida e pateta) neste blog que tanto aprecio.
      Antonieta

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    8. António Luiz Pacheco10 de maio de 2017 às 05:35

      Caríssima Antonieta:
      Não li ainda a referida obra da minha estimada Amiga Cristina Carvalho, por óbvia falta de oportunidade. Mas, sei o que ela pensa sobre a caça, o que não a impede de gostar de saborear uma perdiz e de ser minha Amiga. Sabemos ambos separar as coisas... e até nos rimos bastante os dois.

      Não compreende a minha resposta? Pois estou-lhe a dizer que à Tapada de Mafra numa ocasião difícil, quem lhe valeu foram os caçadores... é simples. Como têm sido os caçadores quem a ajuda a manter, aliás julgo que sabe que ela é obra do Sr. D. Carlos que foi um notório caçador?

      Para que se entenda que nós caçadores não estamos empenhados em matar e acabar com tudo... e depois caçaríamos o quê?
      O caçador moderno é como o agricultor, semeia e apascenta para depois colher, ao contrário do original recolector.
      Isso raramente é entendido... mas no dia em que a caça deixe de estar disponível aos caçadores, quem a sustentam, o espaço vai ser inapelávelmente ocupado pelo betão e pelos interesses económicos, uma vez que a caça deixe de ter valor... ou acredita que vão ser o PAN , a ANIMAL e a QUERCUS quem vai sustentar espaços e animais?

      Saudações cá da Cidade Morena

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    9. Pois, eu calculei que não tinha lido, caso contrário teria compreendido que eu não estava a criticá-lo...
      E sim, a sua grande amiga Cristina separa muito bem as coisas... e eu também: foi por isso que gostei tanto da nota pessoal que ela escreveu nessa página.
      E ela conta tudo, mas tudo, acerca da Tapada, umas coisas eu já sabia, outras não. Li o livro no início de Abril deste ano e gostei imenso dele.
      Não deixe de o ler, é um livrinho maravilhoso para crianças, jovens e adultos.
      E, para que conste, eu gosto muito de animais mas não pertenço ao PAN nem ando em manifestações.
      Antonieta

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    10. António Luiz Pacheco11 de maio de 2017 às 09:13

      Peço desculpa pelo equívoco! E, grato pela sugestão, claro que lerei o livro assim que possa tê-lo na mão!
      Saudações manifestadas cá da Cidade Morena.

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  7. " ... a cena do cão...", eheh, lapidar Rosário!
    Nunca me tinha lembrado de tal ( continuo a rir para dentro), já antevendo as futuras cenas do cão, avestruz ou rinoceronte...:))
    Gosto tanto de livros e de falar neles, mas acontece por vezes ser-se arrastado para um verdadeiro torneio dos Ferraris da literatura e é aí que convém tirar a alimária do bolso:)).

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  8. Por falar em mentiras: Prémio LeYa - lêem todos os originais?

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