Latino e americano

Uma vez por outra, há um jornalista que fala de América do Sul para se referir à América Latina, esquecendo-se, sem dar por isso, do grande México e de todos aqueles pequenos países do istmo que liga a América do Norte à América do Sul (Guatemala, Nicarágua, Belize, Costa Rica…), já para não falar de umas quantas ilhas (Cuba, Porto Rico e outras). Porém, no recente Festival Literário da Gardunha verifiquei que essa não é a única incorrecção praticada com regularidade quanto ao universo latino-americano. Quando falamos em literatura latino-americana ou literatura da América Latina, pensamos, regra geral, na literatura dos países que nos deram grandes escritores como García Márquez, Mario Vargas Llosa, Borges, Cortázar, Rulfo, Neruda, enfim, toda essa constelação de países que, embora muitíssimo diferentes uns dos outros, têm um denominador comum: grandes escritores que escrevem em espanhol (pronto, para os que vierem já a seguir corrigir, «castelhano»). Mas, como dizia no referido encontro o cronista, tradutor e activista brasileiro Eric Nepomuceno (tradutor premiadíssimo de grandes obras como Cem Anos de Solidão e uma pessoa com muito de interessante para contar), a literatura brasileira também é latina e também é americana – então porque é que nunca se mencionam livros de autores brasileiros quando se fala de literatura latino-americana? Tem razão, evidentemente. Ainda vamos a tempo de corrigir isto, não?

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda25 de maio de 2017 às 01:49

    Como sói dizer-se - as atitudes ficam com quem as pratica - assim como os erros. Felizmente umas e outros são sempre passíveis de correcção. A falta de uma vírgula pode fazer uma fusão, e talvez não seja tanto um erro, mas mais uma gralha. No entanto o seu a seu dono, como também sói dizer-se. Borges é um Universo à parte. Tal como Mario Vargas Llosa. Não seria importante, se não fosse ponto de honra a correcção com que «aqui» se escreve. Bom dia e bem-haja pelo tanto que partilha «aqui» connosco.

    ResponderEliminar
  2. António Luiz Pacheco25 de maio de 2017 às 02:13

    Bom-dia, bom-dia! Como se diz por cá...
    Para mim, que estudei Geografia no liceu, e que sou do tempo dos concursos de danças latino-americanas, o Continente Americano é composto pela América do Norte , a América Central (de que a Nossa Extraordinária Anfitriã se esqueceu de nomear como tal) e a América do Sul.
    A América Latina, são os países que falam língua latina, mas não no sentido correcto do termo, dado que o inglês e o francês falados na América do Norte (Canadá e EUA) são línguas latinas, mas a referência "latina" significa os que falam sobretudo castelhano, o que parece ser consensual e começam na América do Norte no México, passam a toda a América Central e do Sul, que incluem o Golfo das Caraíbas e do México, mas não as ilhas Galápagos e as ilhas da Jamaica, de Santo Domingo e outras onde se fala francês ou inglês.
    Também nunca percebi porque é que o Brazil parece ser excluído e recordo que nos tais sons Sul-Americanos surgem rumba, salsa, tango... mas não me lembro de ver o samba!
    No entanto, sem dúvida que o Brazil tem cultura latino-americana, em muitas das suas vertentes culturais (passe o pleonasmo) e sociais, mas nem por isso políticas, e me corrijam, mas creio que o próprio Brazil sempre se tentou aproximar mais dos EUA do que dos demais países "latinos", e a sua elite política e até intelectual, assim o entende.
    Talvez seja por isso... os brazileiros "bem", que gostam de exibir cultura e mundaneidade, enfim globais, adoram usar termos americanos ou americanizados...

    Isto é o que m'a mim parece...

    No panorama dos nossos queridos e extraordinários livros, há uma certa misturada... mas para mim, os Grandes Autores e que são dos melhores do Mundo Literário, com Jorge Amado à cabeça, são definitivamente Latino-americanos! Não concordam?

    Saudações geográficas e africo-latinas cá da Cidade Morena!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cláudia da Silva Tomazi25 de maio de 2017 às 03:53

      Honorável António L. Guianas fazem fronteira ao Brasil, idioma francês e a bucólica Tahiti. A distante Galápagos aprecio e, por lembrar as profundezas abissais que favorecerem a transição as correntes marinhas do Pacífico. Ah, o mar de Cortez as lulas Humboldt... Bem, a literatura destes lados trás (génese ou gênese) em atmosfera brilhante, o céu outro; límpido, inspirador.

      Eliminar
    2. António Luiz Pacheco25 de maio de 2017 às 04:08

      Mui estimada Cláudia, as Guianas, as Antilhas, as Martinicas, as Malvinas/Falklands... tudo é Universo Americano, se bem que nem todas latinas! E algumas dessas ilhas produzem névoas fumegantes, eheheh!
      Mas sim, são inspiradoras sem dúvida, se bem que o Tahiti seja já Polinésia e nem por isso América. Bucólica... lembro-me dos meus amigos tahitianos com o seu "ukelele" (afinal o cavaquinho minhoto, introduzido pelos nossos emigrantes minhotos) cantando:
      Mon ami pechêur, aime le poisson!
      La mer est pas bon, reste à la maison!

      Eheheh!
      Saudações especiais e atlânticas para si!

      PS - Já andei debaixo de água lá pelo Chile, mas nunca me calhou ir às Galápagos, onde gostaria de ir, em especial à ilha Floriana. Conhece o livro de certeza... vi muitos lobos e pinguins de Humboldt , lá na corrente fria do mesmo nome.

      Eliminar
  3. A propósito de literatura latino-americana, saliento a notável iniciativa da Leya e do jornal Público, com a sua recente colecção de obras deste universo, aos sábados com o jornal. Livros bem cuidados, a preço simpático e que pretendem fazer uma ronda por muitos destes países (incluindo Brasil, Portugal e Espanha). Para além dos incontornáveis (do Perú, Chile, Colômbia, Argentina), podemos encontrar exemplos quase esquecidos ou há tempos esgotados (do México, Honduras, Guatemala, Uruguai,…). Faltou talvez reeditar qualquer coisa de autores esgotados de momento do Paraguai e Costa Rica. Por outro lado, foi publicado há pouco tempo uma curiosa obra de um autor venezuelano que explora o fenómeno do “chavismo”. Assim de repente, tenho para mim como principais lacunas (grandes territórios) a Bolívia e o Equador, mas desconheço se já terá sido editado entre nós algum autor destas proveniências?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco25 de maio de 2017 às 03:24

      Não se esqueça dos escritores cubanos! Que os há, muitos e bons!
      Jorge Icaza... é um escritor equatoriano de renome, lembro Juan Montalvo e Joaquín Galegos Lara. Sugiro uma busca do "gúguel", a respeito!
      Já autores bolivianos, ocorre-me Adolfo Cardenas (contemporâneo).

      Quem se lembra de "A rainha do cine Roma"? Que foi Prémio Leya... um dos melhores livros que já li, comparável a um Jorge Amado, da autoria de um mexicano radicado no Brazil e que escreve sobre a realidade brasileira porém, que pode ser transposta para qualquer país, daí o seu profundo impacto!

      Saudações impactadas cá da Cidade Morena.

      Eliminar
    2. muito obrigado pelas dicas

      Eliminar
  4. Não penso que seja um erro.

    A língua faz milagres e os brasileiros acabam por ser "mais portugueses" que latinos.

    ResponderEliminar
  5. Cláudia da Silva Tomazi25 de maio de 2017 às 03:55

    Isabel Allende, Mercedes Sosa e Violeta Parra. Sim, Frida (também), arte e circunstância.

    ResponderEliminar
  6. Bem, tudo isto me parece um fenómeno "estadunidense", ou "estado-unidense", ou seja, foram os EUA que começaram a chamar "latinos" aos habitantes das Américas Central e do Sul, que falam, na sua maioria, espanhol, a fim de os distinguir de si próprios, os anglófonos (embora o francês quase estivesse para ser a língua oficial dos EUA). Claro que a distinção entre "Central" e "do Sul" é, para eles, totalmente irrelevante, assim como o facto de no Brasil se falar português (quantos norte-americanos saberão isso?). Assim como o termo "americano" se utiliza para os naturais dos EUA, esquecendo-nos que americanos são todos, de norte a sul, passando pelo centro. E, mesmo quando se fala de norte-americanos, temos tendência a ignorar os canadianos, como eu aliás fiz em cima, por isso, acho apropriado o termo brasileiro "estadunidense", ou "estado-unidense" (ambos válidos, segundo o dicionário Priberam) e talvez fosse uma boa ideia adotá-los também em Portugal.

    Quanto à origem latina das línguas: o inglês tem muita influência do latim, mas não diretamente, e sim a partir do francês. Os romanos estiveram na Grã-Bretanha, mas a população local nada absorveu do latim, nessa altura, continuaram a falar os seus dialetos anglo-saxónicos, britânicos (no caso do País de Gales) e gaélicos (no caso da Escócia e da Irlanda), depois da queda do império romano.
    Quando William the Conqueror (ou The Bastard), duque da Normandia, se tornou rei de Inglaterra, no século XI, levou o francês consigo. Durante séculos, a elite inglesa falava francês, enquanto o povo continuava anglo-saxão (também Ricardo Coração de Leão falava apenas francês, era incapaz de entender o povo sobre o qual regia, nem dele queria saber; o seu suposto carinho pelo povo inglês não passa de uma lenda). No entanto, muitos termos franceses foram entrando no quotidiano também das pessoas mais simples e, quando Henrique V, no século XV, estabeleceu o inglês como língua oficial do seu reino, aquele já estava bastante adulterado pelo francês. Foi assim que o latim acabou por influenciar o idioma inglês.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Em Berlim

O que ando a ler

O principal e o acessório