Inspirações
Podemos aprender a gostar de poesia com poetas assim-assim, e não com os melhores; e podemos acordar para o desejo de nos tornarmos escritores por termos lido determinado livro que não tem necessariamente de ser uma obra-prima (se calhar, as obras-primas são tão perfeitas que nos inibiriam de experimentar). Li recentemente um artigo engraçado sobre os livros que fizeram com que alguns escritores hoje conhecidos quisessem começar a escrever. E, desde logo, achei curioso que um autor como Jay McInerney (As Mil Luzes de Nova Iorque) tivesse sido inspirado sobretudo pelos poemas de Dylan Thomas (é que nada o faria prever). Rachel Kushner parece mais consistente quando diz que foi Cormac McCarthy quem a inspirou, bem como a mais leve Jodi Picoult, que parece ter sido despertada para a escrita por E Tudo o Vento Levou, de Margaret Mitchell. Já a sul-africana Nadine Gordimer (Prémio Nobel da Literatura em 1991) admite que foi Evelyn Waugh (o autor de Reviver o Passado em Brideshead) quem a fez querer ser escritora, enquanto Richard Ford aponta Faulkner como o autor que o levou à ficção. Desconheço se todos os escritores sabem o livro ou o autor exacto que os fez, passe a redundância, escritores, mas eu acho que comecei a gostar de escrever poesia por causa de João de Deus.
Não era a Agustina que dizia que o Manuel Alegre era um poeta assim-assim...Para mim os mais inspiradores são o Pessoa e seus heterónimos (preferência por Álvaro de Campos) e o Herberto Hélder. Na ficção o meu favorito é o Céline da "Viagem ao Fim da Noite". Aí vai uma citação :"Uma forte vida interior basta-se a si própria, só ela é capaz de fundir vinte anos de icebergues".
ResponderEliminarE o Anónimo é escritor?
EliminarNão lhe estou a perguntar o nome, porque, obviamente, não se quer identificar: basta um sim ou não.
Antonieta
Não sou escritor nem tenho pretensões a tal; aliás acho que já está tudo dito, escrito, pensado, manipulado, cozinhado, que é difícil ser-se original nos dias de hoje, por isso, limito-me a ler os mestres, os melhores, desde os clássicos até aos contemporâneos. Outra questão: por acaso a menina Antonieta é a mesma que também faz comentários no blogue "Escrever é Triste"?
EliminarNão, não sou, mas já reparei que aparece por lá uma Maria Antonieta (afinal não sou a única com este lindo nome, eheheh).
EliminarGosto imenso do "Escrever é Triste", mas habitualmente só comento aqui no Horas.
Antonieta
Nunca percebi muito bem porque razão as ditas "obras primas" são normalmente obras chatas, que exigem uma paciência quase ilimitada aos leitores.
ResponderEliminarAinda bem que há poetas e escritores que gostam de escrever coisas normais. E também é bom conseguirmos encontrar beleza nas obras "imperfeitas". :)
uma pequena correcção (?): a "idade da inocência" que conheço (e que até originou um bom filme de scorsese) é de edith wharton e não de evelyn waugh (esse foi o do "brideshead revisited", entre outros).
ResponderEliminarClaro, que disparate - vou já corrigir.
EliminarAgora, que penso nisso, acho que foi uma confusão de iniciais...
EliminarMas os nomes próprios (edith wharton, evelyn waugh) já não se escrevem com letra maiúscula? note que estou só a perguntar, porque, sinceramente, com esta coisa do Novo Acordo Ortográfico quantas e quantas vezes já tenho dúvidas em certas palavras, como é agora o caso...
Eliminarnão tem nada a ver com o a.o. (aborto ortopédico), que aliás abomino. acontece apenas que escrevo sempre com minúsculas.
EliminarAbomina? e escreve os nomes próprios com letra minúscula? e começa uma frase com letra minúscula? bem, o Valter Hugo Mãe também o fazia (entretanto arrependeu-se) e diziam-no escritor...se até o Zé Cabra foi disco de oiro...bem dizia o outro: desde que vi um porco a andar de bicicleta já nada me admira!
Eliminarque eu saiba, exceptuando os nomes dos meses do ano, o a.o. não tem grande coisa a ver com o uso de maiúsculas, que é uma notação convencionada, e sim com a grafia das palavras, e muito por causa das consoantes mudas e da acentuação.
Eliminarmas gostei do "e começa uma frase com letra minúscula?", até parecia escrito por mim :)
ASeve, olhe que VH Mãe foi lançado (tal como Tordo e Peixoto) pela anfitriã deste espaço. Tenha cuidado, não o ponham na rua ;)
EliminarCaro Anónimo devo dizer-lhe que não é a primeira vez que me refiro ao VHM propriamente para o elogiar e nunca fui posto na rua nem tão pouco senti qualquer animosidade de quem quer que fosse aqui neste espaço de (total) liberdade. Aproveito até a oportunidade para agradecer à MRP a gentileza e atenção que tem tido para com alguns meus comentários, porventura menos correctos.
EliminarPor isso lhe pisquei o olho, ASeve, caso não tenha reparado.
EliminarE mesmo esses, caro josé luís, não têm de ser escritos com minúsculas. Nem as estações do ano. O novo AO deixa esse aspeto ao critério de quem escreve, isto é, ambas as opções são válidas. Tanto se pode escrever "novembro" como "Novembro"; ou "verão" como "Verão". Não sei porque é que as pessoas que aderiram ao AO desatram todas a escrever estas palavras com minúsculas. Eu aderi ao AO (pela simples razão de que as crianças aprendem a escrever assim), mas continuo a escrevê-las (as referidas palavras) com maiúsculas.
EliminarEu acho que comigo foi com os livros de Júlio Verne e depois com relatos de exploradores do planeta Terra, especialmente os de Roald Amundsen. Isto para não falar - e um pouco mais tarde - dos discursos de Yuri Gagarin que eu até sabia de cor. Tudo isto muito antes do mergulho nos romances de Camilo, aí por volta dos dez anos. E para não falar em mais nada, uma vez que são incontáveis os livros que li na infância e na adolescência e a cada um deles, mais me crescia a vontade de, também eu, conseguir escrever um livro.
ResponderEliminarCristina Carvalho
Como não sou escritora não adianta dizer quem me inspira.
ResponderEliminarVou ficar à espera (provavelmente sentada, eheheh) que os vários escritores que aqui comentam desvendem a origem da sua inspiração.
:-) Antonieta
Tenho uma ideia do livro que me despertou para a leitura e de que rapidamente percebi que a leitura e a escrita encerravam em si um mundo mágico e infinito de possibilidades.
ResponderEliminarDepois das primeiras leituras, foram inúmeras as obras que me acicataram a fazer o mesmo e, sobretudo, a intentar fazer melhor. Livros perfeitos, ou nem tanto. Alguns bem conhecidos, outros nem por isso. Alguns elogiados, outros contestados... Não me faltaram, felizmente, inspiradores nem inspiração. Não apenas para escrever, mas para ver o mundo com outros olhos. Julgo que é, entre inúmeras coisas, para isso que serve a literatura. Bem hajam por isso aqueles que fazem da palavra imortal substância.
Não sei o que me fez gostar de ler, penso que foi mesmo gostar de ler. Fiquei bastante contente quando, na segunda metade da primeira classe, desatei a ler tudo que encontrasse sem lhe procurar sentido, só para exercício de ser capaz de desvendar aqueles sinais que tanta gente à minha volta desconhecia. Quando me aventurei nos Corin Tellado das minhas tias, de mistura com os livros de aventuras que um tio, alguns anos mais velho, lia desalmadamente sem que eu entendesse porquê, compreendi que havia histórias inteiras à minha disposição. Foi a grande descoberta da minha vida, o prazer de ler; antes dessa experiência, a leitura era mero exercício de utilidade.
ResponderEliminarÀ poesia cheguei tarde, através de uma conversa de entreter tempo, entre duas estudantes que desconhecia e, como eu, esperavam o professor. Estavam sentadas juntas bem na frente da sala enquanto eu espapaçava no cansaço das três da tarde bem mais atrás. Falavam elas num entusiasmo de de girassóis e Eugénio de Andrade. Depois da aula, passei na biblioteca e requisitei um livro do poeta. E sintonizámos.
Nunca sabemos a afecção das nossas palavras nos outros. Devo a poesia a essas duas mulheres que nem sequer me deitaram um soslaio, a indiferença de um olhar.
Claro, há diferença (entre) massa encefálica masculina e feminina.
ResponderEliminarUm tio meu, teria eu para aí 7/8 anos, ofereceu-me uns dez livros da colecção "Fantômas", um personagem francês fictício de literatura, criado pelos autores Marcel Allain (1885–1969) e Pierre Souvestre (1874–1914). Na altura, princípios do séc. XX (a personagem foi criada em 1911), um dos mais populares personagens no gênero "policial", em França.
ResponderEliminarMais tarde, consegui completar a colecção, creio que serão cerca 30 volumes, com capas muito coloridas, da Editora Civilização.
Foi com "Fantômas" que me iniciei neste vício, cruzei-me logo de seguida com o grande e eterno Victor Hugo e foi a bebedeira total, até aos dias de hoje.
Conheço o "Fantômas" dos filmes com Louis de Funés e Jean Marais, uma trilogia francesa dos anos 1960, que a televisão alemã repete até à exaustão ;)
EliminarOs alemães têm destas coisas. Os filmes inenarráveis da dupla Bud Spencer/Terence Hill também são aqui repetidos até à exaustão. Quando o Bud Spencer publicou a sua biografia, poucos anos antes da sua morte, conseguiu um "Best-seller" em terras germânicas.
É pá... e seu ainda vier a ser um escritor famoso, em vida, e ma fazem essa pergunta... tou tramado!
ResponderEliminarTenho de começar a pensar numa resposta... na poesia sei que foi António Gedeão, mas sou fraco leitor! É uma resposta clássica e que fica bem... até satisfaz e é verdade!
Para o resto... sei lá! Todos... ou quase... vai ser cá uma açorda!
O melhor é desistir de ser escritor famoso, pronto, para o ano nem concorro ao prémio Leya nem nada!
Saudações cá da Cidade Morena!
Talvez tenha tudo começado muito antes de saber ler.
ResponderEliminarCom as lenga-lengas e os poemas da minha mãe. Que não eram da sua autoria, mas tão maravilhosamente ditos, naquelas noites em que não se lembrava de histórias ou que o cansaço não lhe permitia ler.
E depois em certa altura, vieram os quadros, as pinturas dos museus e o mundo dilatava-se, não mais plano mas prismático.
Lembro-me de deslumbrar perante as cores, a captura da luz e do tempo imóvel. E já eles me contavam histórias, acho que mesmo antes de saber ler.
No outro dia alguém se queixava de não conseguir fazer poemas, só me ocorreu dizer - Ouve a música.
Há uma música inerente aos poemas que não vem de nenhuma pauta, mas está lá "- Como se os deuses o dessem", sílaba por sílaba como dizia a Sophia.
Os poemas como os personagens, antes de serem bons ou maus já existem. Talvez venham dos livros, talvez doutro planeta.
Nunca me lembro de ter acordado a pensar " hoje vou ser escritora" ou hoje vou fazer um poema. Simplesmente surgem e imiscuem-se no quotidiano. Com um à vontade que chega a ser má educação.
Talvez o facto de ler, não seja mais que um acto de lhes deixar a porta aberta. A esses entes da ficção.
A primeira vez que se me apresentou um desses seres do imaginário, foi numa cidade sitiada, em guerra profunda.
Onde as rajadas e as tracejantes rasgavam sem nexo e tudo se estava a destruir.
O Isaías apareceu ( não era o profeta ) e levou-me ao mundo dele, de cartões e fugas, de corre senão morre.
Ainda hoje, eu e ele temos uma boa relação apesar de saber que a minha arte de escrever não está à altura dele.
Mas foi o primeiro e embora o cenário fosse de destruição e morte, não o consegui matar e ainda bem. Porque ele volta.
E não se ponham a pensar que oiço vozes.
Na impossibilidade de acender as cores como um Van Gogh ou fazer sair da tela num palpitar de vida, como um Rembrandt, uso o verbo.
Com o mesmo deslumbramento da descoberta das cores, com todo o horizonte da desmesura.
Não sei, se só se é escritor depois de publicar ou se nasce para escrever.
Mas eu vou continuar a brincar com as cores à minha maneira, sem terebintina nem pincéis.
Já não me importo se o faço bem ou mal, sei que tenho de o fazer.
Muito boa noite!
ResponderEliminarÉ possível indicar o link para o referido artigo?
Muito obrigada!
Aqui vai:
Eliminarhttp://lithub.com/the-books-that-made-your-favorite-writers-want-to-write/
Obrigadíssima!
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