Críticos e escritores

Aconteceu em Espanha, mas vale a pena reter em qualquer lado. Um escritor viu um romance seu duramente criticado num jornal. Num texto curto, o crítico aproveitava mesmo assim mais de metade do espaço para dizer que o facto de a crítica ter vindo a perder prestígio fez com que o mercado ganhasse poder e muitos autores, para satisfazerem as exigências comerciais das editoras, entregassem produtos de qualidade duvidosa. Comentava o escritor atingido que a crítica tem, obviamente, razões para se queixar: recebe cada vez menos dinheiro e tem cada vez menos espaço (até porque aumentou o número de blogues literários, alguns mais lidos do que os suplementos dos jornais); mas contestava a afirmação de que, sem a vigilância da crítica, os escritores se tivessem tornado escravos do mercado, como se os críticos estivessem numa espécie de intocável Olimpo e não fizessem parte desse mesmíssimo mercado. É sabido que a imprensa actual tem tantos ou mais constrangimentos do que os escritores e que, especialmente em Espanha, há grandes grupos que detêm editoras e jornais e que, por isso, alguns jornais nunca criticam negativamente livros de autores publicados por chancelas do seu grupo… Além disso, diz o escritor, sempre houve livros bons e maus, independentemente do prestígio da crítica, tal como sempre houve bons e maus críticos, independentemente de os livros terem ou não qualidade. Curiosamente, ele não contesta o que o crítico diz sobre o seu livro (subtil e inteligente), mas apenas a sua arrogância, a sua superioridade moral, ao suspeitar dos escritores sem pensar por um segundo que os críticos estarão sob a mesmíssima suspeita. Porém, o mais interessante é quando, no final, reivindica um espaço de diálogo para críticos e escritores, uma vez que a relação é desigual: os críticos têm poder sobre a recepção e a aceitação da obra de um escritor, enquanto os escritores não o têm sobre o que os críticos escrevem. E conclui: emitir juízos de valor de cima de um pedestal não é útil nem para o leitor nem para a literatura – e talvez essa seja também uma das razões por que a crítica tem vindo a perder prestígio. Muito interessante.


 

Comentários

  1. Mas a critica sempre funcionou assim, sempre "escreveu lá de cima".

    Acho que a "igualdade" reclamada pelo escritor não tem razão de existir, pois ambos têm tarefas distintas. O que se quer é liberdade, independência e honestidade (nestes tempos coisas muito complicadas de se encontrarem...)

    Em relação à actualidade, penso que a critica (os críticos, claro...) é menos livre e também lê menos. E cultiva um "amiguismo" (ainda maior que noutros tempos...) que não faz nada bem à literatura, como se só meia-dúzia de pessoas é que escrevessem.

    Mas isto estende-se a todas as áreas da cultura. O exemplo de Salvador Sobral (que teve de ganhar o festival e e o eurofestival para ser reconhecido...) diz tudo, o disco que editou em 2016 não só não passou nas rádios como foi ignorado pela generalidade da crítica musical...

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    1. Quando pego num jornal (nalguns não vale a pena) a primeira coisa que procuro é a página onde se falam de livros; raramente encontro uma crítica a um livro que me leve a comprá-lo (ou não). Para além do Pedro Mexia não vejo um -assim de repente que me lembre, não quero ser injusto- que eu goste efectivamente de ler (sobre livros). Ó Luís e o que disseram (se lho deste a ler) os críticos do teu Paulo Gama, excelente personagem com quem muito me identifico (ainda por cima do meu clube); então e o Leonardo? ainda terei oportunidade de lhe fazer uma festa? -(ainda vou a meio do caminho)- Já não ia ali para aquelas bandas há uns anos e estou a gostar da paisagem e não só.A Mariana convidou-me agora para um passeio à beira mar, mas eu não tenho nada a ver com ela... Ainda sobre os críticos de livros alguém disse:é mais fácil emendar um livro do que escrevê-lo.

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    2. Severino, como o meu romance é sobre futebol e escrevia num jornal desportivo (sem ser uma "prima donna") - "Record" - isso acabou por ser ainda mais estranho e passar ao lado de quase toda a gente (ainda teve crítica literária no "Record" e em "A Bola"... mas nos restantes foi ignorado.

      Como a Inês Pedrosa escreveu há pouco tempo no "Delito de Opinião", os jornalistas detestam "escritores-jornalistas"...

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    3. Eu, sinceramente, estou a gostar e felicito-te.

      Tal como no futebol, para se ser jogador de topo não basta ser bom de bola...

      Ó Luís, infelizmente, o mundo está cheio de Eliasss...

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  2. Gostei muito. Só acrescentaria que muitos críticos, senão todos, são também escritores, poetas, ou tencionam vir a sê-lo no curto prazo. Há que os ler com prudência e algum cinismo . Alguns nem sequer fazem segredo do amiguismo...
    JCC

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  3. Será possível partilhar o link do artigo em questão?
    Grato

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  4. António Luiz Pacheco15 de maio de 2017 às 04:48

    Sou um ignorante nestas coisas... uma traça dos livros, no entanto gosto de ler críticas, raramente me influenciam, mas gosto de saber o que pensam os demais, sobretudo aqueles tidos por especialistas ... coisa de que duvido em alguns casos, mas isso é outra história.
    Todavia, tendo a concordar com o que diz o autor espanhol...

    Acredito que a crítica literária enquanto análise qualitativa e interpretativa de uma obra, é fundamental tanto para os leitor quanto para o autor e a literatura. Mas deve ser feita assim, de forma isenta e honesta, ou pelo contrário, mata!

    Saudações isentas cá da Cidade Morena.

    PS - Já que se falou dele, fiquei feliz e orgulhoso pela vitória de Portugal no festival da canção, fico contente pelos autor/intérprete.

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  5. A gíria se lhe diga: amigo da onça.

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  6. A crítica é o patinho feio da literatura. Dos leitores aos autores, todos tratam os críticos como gente cheia de segundas intenções. Se dizem mal de um livro é porque são invejosos ou arrogantes, se dizem bem é porque são amigos ou querem agradar.

    Aos escritores fica bem fingir uma pretensa superioridade que os leva a nunca responder às críticas: qualquer jornal publicaria uma resposta de um autor à crítica de um livro seu mas os autores, em vez de encararem o crítico como um leitor informado e, por dever de ofício, atento, encaram-no como um ser menor que se atreve a julgar os livros deles.

    Não digo que toda a crítica seja honesta ou, sequer, boa crítica, mas já vi muitas "sovas" que pediam uma resposta ou pelo menos uma reflexão da parte dos autores criticados. Vários textos do Araújo, do Guerreiro ou do Bobone - os mais "duros" - pediam uma defesa a que os autores se esquivam e que enriqueceria o debate cultural.

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  7. Desconheço o mundo dos críticos e, como leitora, não me guiam as suas escolhas e mais me influencia um amigo que admire um livro, que as cinco estrelas de um crítico.
    Imagino que se escrevesse e me desancassem, seria um bocado aborrecido e também não sei se daria resposta. Julgo que os críticos não a esperam e é trabalho de que os autores prescindem. Se a crítica é honesta e fundamentada, pode ser uma aprendizagem. Mas não julgo que os escritores aceitem de boamente de alguém que não escreve livros, que critique o seu trabalho. Constrange a vaidade pessoal.

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    1. Beatriz,

      Diz desconhecer o mundo dos críticos e eu posso adiantar-lhe que há muitos críticos são escritores. Mas bom é que sejam bons leitores (e honestos como refere).

      E também penso que todos os escritores preferem uma má crítica ao silêncio...

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    2. Pois...vendo de um certo ângulo, é preferível que olhem do que não olhem de todo. No entanto, julgo eu que em quem muito vende pese menos a crítica. Pondo-me do lado do escritor que é cilindrado, julgo difícil de digerir. Se verdadeira, acaba com ele; se não, o melhor é ir em frente sem olhar a juízo podre; focando o que há a melhorar, seja bem vinda. Há sempre muito por aprender.

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  8. Quanto a mim, sou a favor dos críticos.
    Só quem nunca viveu angustiantes momentos, daqueles em que nenhum mantra surte efeito, (antes da extração do siso por exemplo), se pode pronunciar contra!
    Parnaso dos GPS Culturais, timoneiros da simplicidade, alegria dos psicanalistas.


    E viva os manos Sobral !!!
    Que não tem nada a ver, mas que os Deuses lhes concedam a longeva idade das árvores.
    Porque uma boa música é o hoje e daqui a 50 anos também:).

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