O que ando a ler

Ando a saltitar entre dois livros, curiosamente da mesma editora e ambos com belíssimas capas. O primeiro foi-me oferecido pela sua tradutora, Maria do Carmo Figueira, no Natal passado, e escreveu-o uma nigeriana – Helen Oyeyemi – que tem uma frescura e uma imaginação difíceis de encontrar. Chama-se O Que não É Teu não É Teu e é uma colectânea de contos, alguns bastante longos, todos eles relacionados com chaves (ou fechaduras) que, como a contracapa anuncia, são um «convite à descoberta de um universo onde a beleza poderá existir». E existe – pelo menos no fraseado original e no delírio às vezes um pouco «latino-americano» da sua autora, que é seguramente um nome a reter e a acompanhar. Entre um conto e outro, espreito também A Avó e a Neve Russa, do português João Reis (também ele tradutor, e de gente bem respeitável como Knut Hamsun), um ainda jovem escritor que nos oferece – até onde li, umas cinquenta páginas – uma narrativa cheia de ternura e  humor sobre a relação entre um menino de dez anos (o narrador) e a sua querida Babushka, a avó russa que foi vítima do desastre nuclear de Chernobyl e alguns anos depois, a residir no Canadá, continua a sofrer as sequelas do acidente na forma de uma tosse persistente que não prenuncia nada de bom. Acho que vou continuar assim, a entremear ambos os livros, até chegar ao fim de um deles. Para já diria que os dois valem a pena!

Comentários

  1. Ando a ler «Erasmo» de Stefan Zweig. Tinha-o 'há mil anos', mas nunca o lera. Para além de soberbamente escrito, o que não deve ser despiciendo, apresenta uma visão da Europa em crise (Reforma vs. Contra-reforma) que pode ajudar o nosso olhar sobre a Europa (?) de hoje.

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  2. Ando a Ler _ 52
    Já tínhamos as bagagens no carro quando, momentos antes de partir para o aeroporto, me ocorreu que faltava um livro para ler durante as esperas e na viagem.
    Lá fui vasculhar rapidamente as estantes e, num impulso, trouxe “O Visconde Cortado ao Meio”, que é muito jeitoso para o efeito: formato de bolso, talvez o tenha lido em tempos, depois se verá, o que importa é que é de um autor que muito admiro e gosto de ler e reler – Italo Calvino.
    ... ...
    Pois estávamos à espera da nossa vez para o check-in quando, numa batalha, o Visconde é atingido por um tiro de canhão que o corta em dois, de alto a baixo.
    Uma das metades é recolhida pelos médicos do seu exército, que a tratam e fazem sobreviver.
    De volta aos seus domínios, este meio-Visconde revela-se um cruel tirano, que por tudo e por nada condena à morte os seus súbditos, e escacha de alto abaixo pessoas, animais, plantas, todos os seres vivos que lhe vêm à mão.
    Segundo o jovem narrador, que é sobrinho do Visconde, isto desperta nos súbditos a necessidade de se unirem contra ele – e descobrem até que a união poderá ser o instrumento para melhorar as suas vidas.
    Entretanto, porém, regressa a outra metade do Visconde, que havia sido recolhida e tratada por uns monges.
    Esta outra metade é prestável e bondosa. Contudo, acaba por revelar-se excessivamente bondosa para com as plantas, os animais, as pessoas daquela comunidade, em cujas vidas se vai intrometendo – a pontos de se tornar insuportável, e de ser também um obstáculo a que melhorem as vidas dos súbditos.
    Aterragem, interrupção...
    ... ...
    [Deixem-me meter aqui apenas três notas em letra miudinha:
    1 – O nosso netinho está encantador, muito criativo, comunicativo, fala as duas línguas, não faz birras – certamente porque os pais não lhe ralham, falam-lhe sempre com calma;
    2 – Fomos à Bastilha assistir a uma fabulosa encenação de ”A Flauta Mágica”, inovadora no seu minimalismo com tecnologias contemporâneas – outro encanto;
    3 – Por várias razões despertou-me a curiosidade ao folhear, e trouxe comigo para ler com atenção, a edição francesa do livro “ C’est de l’eau “, de David Foster Wallace. Uma das razões é que, curiosamente, me pareceu haver alguma confluência entre a metáfora das duas metades d’ ”O Visconde...” e a que julgo ser a ideia central deste texto, que nos desafia a sairmos do nosso egocentrismo arrogante e competitivo, para nos abrirmos aos outros, tornando desse modo a nossa vida mais descontraída e a dos outros menos penosa.]
    ... ...
    Foi na viagem de regresso que li o desfecho.
    Recapitulando: - A metade má do Visconde era cruel, incapaz de amar, sendo que a outra metade era excessivamente bondosa e, como tal, incapaz de lhe suster as atrocidades.
    A coisa resolveu-se através de um duelo à espada entre as duas metades, cada uma das quais atacava na outra a parte que não existia, como se atacasse a si própria. Deste modo, são provocados ferimentos em ambas as partes, justamente na linha que as dividia.
    Por fim são tratadas pelo médico, que volta a unir as duas partes, no pressuposto que nenhum homem é completo se não tiver dentro de si próprio uma parte de bem que possa controlar o mal e uma parte de mal que possa controlar o bem.
    Ainda assim, ao aterrar o jovem narrador remata: —“Talvez houvesse a esperança de que, uma vez inteiro o visconde, se abrisse uma nova época de maravilhosa felicidade; mas é claro que não basta um visconde completo para que o mundo inteiro fique completo também. (...) Por vezes uma pessoa sente-se incompleta e, afinal, é apenas a juventude.” (pág. 158)
    ... ...
    Alonguei-me. Desculpem.

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  3. Estou a ler "O Quarto Azul" de Georges Simenon.

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  4. Continuo a leitura de Proust.

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  5. Acabei de ler "Carnaval no Fogo-Rio de Janeiro" de Ruy Castro sobre o carnaval de antigamente; vem lá quase no final uma coisa que me espantou e que não resisto a citar: "A obra-prima da culinária carioca, uma sinfonia de sabores, é a feijoada, dita à brasileira. Em 1960, Jean Paul Sartre, na casa de um jornalista do Rio, ao lhe destaparem a panela onde fervia uma feijoada à maneira, Sartre teria examinado o conteúdo- um festim de feijão preto, toucinho, costela, orelheira, língua e rabo de porco, carne seca, linguiça e paio- e exclamado, sem a menor educação : "Mais, c'est de la merde!". O anfitrião, vexadíssimo, não esperava tal reacção do autor de "La Nausée". Para surpresa do dono da casa, no entanto, Sartre comeu e gostou. E, segundo consta, repetiu o prato e ordenou á patroa, Simone de Beauvoir, que copiasse a receita. "Ando a ler "Memórias do Cárcere" do Camilo e ao mesmo tempo a Camiliana do Círculo, de que só vou no 2º volume. Cada um tem entre 500 e 700 páginas.

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  6. Parabéns Maria Almira Soares por estar a ler Stefan Zweig. O Erasmo foi dos poucos que não li dos editados pela Civilização, do Porto, enquanto estudante nos anos 60. Reli recentemente o ensaio "O Combate com o Demónio- Holderlin, Kleist, Nietzche" numa nova edição da Antígona e também "Montaigne" um dos últimos antes do seu suicídio em Petrópolis. Veja o filme "Stefan Zweig- Adeus á Europa" de Maria Schrader, sobre os últimos dias no Brasil.

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    1. Por que razão ver o filme (geralmente distorcido) quando há o belíssimo livro O Mundo de ontem. Recordações de um europeu.

      Já agora, há muita gente que lê Zweig, caso não saiba.

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    2. Para sua informação li O Mundo de Ontem há muitos anos na edição da Civilização e qualquer dia volta a relê-lo. Não acho que o filme esteja muito distorcido. Leia a biografia do Alberto Dines "Morte no Paraíso- A Tragédia de Stefan Zweig". O que é para si muita gente a ler Zweig? Em França sim, é um autor actual, com biografias, ensaios, teatro e cinema, além de números temáticos da LIRE, MAGAZINE LITTERAIRE, LE POINT.

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    3. Por acaso (aqueles intervalos por onde, de vez em quando, se nos escapam livros) não tinha lido o «Erasmo de Roterdão», mas li o «Holderlin, Kleist, Nietzche» e o «Montaigne» de que fala. Muita coisa li de Stefan Zweig! «O Mundo de Ontem» foi, aliás, tema de conversa na comunidade de leitores que coordeno. O filme está agendado para breve. Também li «Morte no Paraíso» de Alberto Dines. Zweig é um dos meus autores.

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    4. Eu andei a reler Stefan Zweig no verão passado, precisamente aquando da saída dos números temáticos dessas revistas francesas. É um dos escritores da minha juventude. E também quero ver o filme, se não no cinema (não deve chegar cá) será em dvd.
      Antonieta

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    5. Então já somos dois. Zweig é dos meus preferidos desde sempre. Que me lembre li:TrêsMestres-Balzac, Dickens, Dostoievski; Carta de Uma desconhecida e vi o filme; Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma mulher e vi o filme; Amok; Confusão de Sentimentos; Um Coração Ardente; Três Poetas da Própria Existência-Casanova, Stendhal, Tolstoi; A Cura Pelo Espírito-Mesmer, Mary Baker Eddy e Freud; Maria Antonieta; O Candelabro Sagrado; Brasil, País do Futuro; O Mundo de Ontem; O Jogador de Xadrez; Mendel dos Livros; Momentos Estelares da Humanidade. Sobre Zweig li recentemente O Porvir da Nostalgia de Jean Jacques Laffaye e L'Impossible Exil- Stefan Zweig et la Fin du Monde de George Prochnik

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    6. A ideia foi sempre ganhar, daí escreveu o que escreveu. Do primeiro ao último comentário. E não sabe distinguir o acento agudo do grave... Para não variar.

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    7. Qual é o seu problema? Há grandes autores que escrevem sem pontuação e sem acentos; o para até ficou sem acento segundo o AO. Tem uma fixação pelos acentos? Isso trata-se meu caro amigo! E ficamos por aqui. Boa noite.

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    8. Estas discussões entre anónimos são mesmo engraçadas!
      Muito obrigada por me terem feito dar uma boa gargalhada.
      Anónima da Silva

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    9. O filme Stefan Zweig, Adeus Europa, foi exibido em Lisboa a partir de fevereiro de 2017, no Medeia Monumental e creio que também no Cinema Ideal. Flora

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  7. Um pouco por acaso li "A Porta", de Magda Szabó. Excelente, li-a quase de um fôlego. Mais uma vez fiquei espantado perante a qualidade da ficção húngara daquela época.

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