Ir ou não ir?
Há algum tempo, depois de a Hungria anunciar que iria construir um muro para conter a entrada de refugiados, uma escritora convidada para um festival literário em Budapeste pôs a hipótese de desistir da sua participação por se encontrar nos antípodas dessa decisão. Estava, obviamente, no seu direito, embora os organizadores do dito festival pensassem muito provavelmente como ela e não devessem ser os mais castigados com a sua ausência. Num interessante artigo publicado no Guardian, diz-se que os activistas políticos tentam frequentemente convencer os escritores e artistas a boicotar determinados certames, enquanto os organizadores alegam que, se eles lá forem, há uma maior probabilidade de se debaterem questões fundamentais e de se denunciarem situações inaceitáveis. Por outro lado, também há quem acuse certos países de realizarem eventos considerados plurais, com gente de todo o mundo, só para fingirem que são abertos e liberais quando, no fundo, tudo não passa de uma fachada; mas um estrangeiro recusar um convite para falar num país em que os locais não podem abrir a boca não será colocar mais um tijolo na barreira à liberdade de expressão? Um filósofo inglês que fez várias palestras sobre liberdade de expressão num país em que há censura ficou a perguntar-se se valeu a pena e se o que disse terá tido alguma influência; e acha que não. Como decidir então nos casos em que os direitos humanos não são cumpridos no país que convida? Ir? Não ir?
Vai aonde a tua consciência mandar... Logo... age sempre de acordo com a tua consciência - diria. E o autor, que em tudo quanto escreve, é sobretudo a manifestação da sua consciência emocional, deve sempre agir de acordo com o que a sua consciência dita... Tenho dito!
ResponderEliminarDepende dos países, dos organizadores dos eventos e dos escritores, Rosário.
ResponderEliminarPenso que a Turquia de hoje não se pode comparar com a Hungria, por exemplo. É um país onde até nos arriscamos a ser convidados, a dizer o que eles não gostam de ouvir e sermos detidos...
Claro que tudo isto também depende do peso do escritor. Prender um Prémio Nobel é mais complicado que um escritor menos conhecido...
Mas é sobretudo uma questão particular, que cada escritor é que pode e deve decidir, pela sua consciência e até pela sua formação ideológica.
Durante a ditadura salazarista houve vários vultos da literatura que nos visitaram. Todos sabiam ao que vinham, por isso é que nem todos puderam falar (houve sessões canceladas, adiadas, interrompidas, etc).
Penso assim:
ResponderEliminarSE o escritor é contra o regime que vigora naquele país que o convida, tem duas opções:
1 - Não vai. Priva os locais de o ouvirem, de receber a sua palavra e ideias, que lhes poderiam até dar força. Deve lembrar-se disso.
2 - Vai e aproveita o ensejo para dizer o que tenha a dizer.
Concordo com o facto de que isso é com a consciência de cada um, e não posso criticar nem os que vão nem os que não vão.
Mas há riscos! Uma coisa é ser-se escritor e outra ser-se militante de ideologias, sejam elas quais forem. O escritor deve saber fazer a separação!
Por exemplo, a triste figura que fez Saramago (e outros) quando visitaram Cuba e a consideravam uma democracia, esquecendo as dezenas de escritores e jornalistas, de intelectuais presos por delito de opinião!
É esse o risco que se corre.
Saudações livres cá da Cidade Morena, num país que nem por isso...
Teria este filósofo inglês 'the name' Rosário?! Sinceramente, por vezes pausa um filme na cabeça da gente em tratar-se liberdade. Por mais que ostente cavalheirismo, tratados tratam-se exemplares interesses; intermédios á descortinar o caminho alternativo. Embora a política divida-se entre poucos na álgebra institucional, politizar atende muitos na lógica platônica. Livros livres livram-nos e livrem-se, saibam levar sementes; se já trazem farinha feita desconfiem. O quartzo brota até em grota.
ResponderEliminarHá que confrontar-se com dois campos e não apenas um como parece.
ResponderEliminarSe for a um país onde manda o poder político onde não é possível publicar livros que afetem o regime instituído, pode (e deve, se for capaz) intervir, corre riscos mas tem impacto, por vezes pequeno. Se for a um país onde manda o poder económico onde não é possível publicar livros que não proporcionem lucros, pode (não é difícil) intervir, não corre riscos e não tem impacto algum.
That is the question...
ResponderEliminarwhy or because...
EliminarNão sei. Como não existem manuais exatos para tais situações, cada caso é um caso.
ResponderEliminar“-Vivemos entre os homens, ajudemos os homens.
-E que faz o senhor para isso?
-Conserto-lhes os sapatos, já que nada mais posso fazer agora.”
Saramago in “Claraboia”
Ora aí está uma tirada de sabedoria!!!!!
EliminarNota: podem pelo meu post anterior, deduzir que eu seja anti-Saramago, mas nada disso, hein! O que não me torna cego nem acrítico a algumas posturas políticas do citado, com as quais discordo!
Abraço para Londres, ainda em choque?
Caro Pacheco, não estou em Londres há muito tempo.
EliminarMas sim, ainda em choque porque o Mundo não é nada longe!
Saudações apressadas