Preconceitos

Um dia destes, o Manel leu-me o primeiro parágrafo de um livro que tinha entre mãos. Rezava assim: «Decididamente, o Romão alquilé, com o seu carão brunido do sol, achamboirado e alegre, a jaleca de astracan a enxalmar-lhe o arcaboiço, a espora tilintando no sapatão de bezerro, todo o seu ar de alentejano ricaço, testudo como os asnos de Alvalade e torto como as azinheiras da sua terra – decididamente, ia eu dizendo, o Romão alquilé era o mais patego dos troquilhas de Portugal. Conhecido como cão ruivo, tratava de igual para igual ciganos e marialvas, marchantes e rascoas de viela. Bom coração, é verdade; mas olho sobre o ombro, poucas falas, desconfiado como sete e parvo como vinte. Tinha aquele fraco: os alborques das cavalgaduras. Era uma tentação.» Não conhecia a passagem e avancei que tinha algo de Aquilino. Mas estava longe, porque, sobretudo em termos políticos, era um escritor acarinhado pelo Estado Novo, nada mais nada menos do que Júlio Dantas. A minha geração foi marcada pelo manifesto que Almada lhe dedicou e – talvez por isso – passou sem ler este homem do sistema, crendo parvamente que nada valia em termos literários. E, se é verdade que aprecio o fado conhecido por Rua do Capelão (o seu título verdadeiro é Novo Fado da Severa) na voz de Amália – com letra de Júlio Dantas –, confesso a minha ignorância em relação a outros escritos do autor, que não devo ter sequer espreitado, percebo agora, por puro preconceito. E, todavia, este parágrafo que transcrevi é uma descrição formidável de uma personagem (podia ser usado em cursos de Escrita Criativa!) e faz-me pensar que, mesmo que não me agrade a figura, há que ler depressa o romance A Severa, que foi donde tirei a passagem.

Comentários

  1. Júlio Dantas é um óptimo escritor, ao contrário de Almada de Negreiros, que, esse sim, se quis fazer e fez-se famoso com um texto muito mal escrito e muito, mas mesmo muito anterior ao Estado Novo: o Manifesto Anti-Dantas é de 1915!
    O sucesso de Júlio Dantas nada tem que ver com o Estado Novo e nunca ele procurou os seus favores. Quando este foi instaurado, já ia Dantas nos seus cinquenta e muitos era conhecido e reconhecido há muito pela sua obra, que Almada Negreiros pisou sem quaisquer escrúpulos. Quem viria a ser homem do Estado Novo e do sistema foi, esse sim, e mais uma vez, Almada Negreiros, que mostrou saber aproveitar bem os momentos certos para se mostrar.

    Ontem como hoje, é caso para dizer que mais vale cair em graça do que ser engraçado. Às vezes a justiça vem tarde. Outras vezes, como no caso de Júlio Dantas, nunca.

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    1. Para se dizer bem de um não é necessário dizer mal do outro...

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    2. Um mundo cheio de preconceitos...

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  2. Também fui vítima dessa propaganda e, assim, pratiquei o preconceito. Fui na onda do "morra o Dantas, morra. Pum". Tudo o que se fizer para emendar essa injustiça não será de mais porque talvez nunca seja suficiente. Almada foi muito moderno e tinha imenso talento mas a sua vaidade excedia tudo.

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    1. Pum? Então não era Pim?

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    2. A própria expressão «morra o Dantas» é insuportável.

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  3. Emílio Gouveia Miranda27 de fevereiro de 2017 às 02:52

    Fantástico! O parágrafo. Já quanto ao comentário relativo ao Estado Novo, faz-me sempre alguma confusão esta (espécie) de necessidade de distanciamento que alguns parecem (necessitar de) fazer quando se referem a certos períodos da nossa história! Lamento, mas é uma espécie de snobismo de esquerda que não compreendo... E não sou apologista do Estado Novo, nem do Estado Velho, nem do Estado Actual, mas apenas da boa literatura que nasce em todos os Estados. Contudo, parece existir a ideia de que a boa literatura é de esquerda... A boa literatura é, sobretudo, Humanista... E o Humanismo existe em todos os Estados...

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  4. Ainda há pouco tempo ouvi esse comentário acerca do escritor (ou um muito semelhante). Mas acontece que me lembro de textos de Júlio Dantas nas selectas literárias. E também me lembro, não sei precisar se já depois do 25 de Abril, que li o poema do Almada e fiquei escandalizadíssima, não encontrara em Júlio Dantas nada de mais; além disso, não me assentava bem que ele fosse desconsiderado publicamente por um poeta. Acontece que achei o poema engraçado e não me pareceram estocadas mortais.
    A partidarização da literatura só estraga. As obras deviam ser apreciadas e publicitadas pelo que valem. Mas às vezes as coseduras dos homens saem de atravesso.

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  5. Aquela passagem fez-me lembrar também Aquilino com realce para a novela "O Malhadinhas".
    Hein Semke (1899-1995), refugiado alemão, pintor e escultor, chegou a passar privações nos primeiros tempos antes de se afirmar, em Lisboa, e segundo os Diários agora publicados não é nada meigo para o Almada e para o João Abel Manta que exprimiriam arrogância e sobranceria pela situação calamitosa do alemão que teria passado fome, em vez de qualquer pingo de solidariedade. No aspecto humano estes dois para mim valem zero. Felizmente para nós o alemão teve êxito e o seu espólio de mais de 1000 obras foi doado pela viúva à Fundação Gulbenkian.

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  6. Júlio Dantas publicou em Marcha Triunfal (1954) o conto "O Moleiro de Sula", cuja ação decorre durante a Batalha do Buçaco. Sula é uma povoação na encosta do Buçaco e tem um moinho à vista, do lado esquerdo de quem viaja para Mortágua.
    Em 1922, um grupo de estudantes das escolas superiores de Lisboa, no qual se incluía Marcelo Caetano, erguendo o facho da moralidade, exigiu ao Governo Civil a apreensão e a destruição de Canções, de António Botto, e Decadência, de Judith Teixeira, ambos autores com características homoeróticas.
    Fernando Pessoa, vestindo o fato de Álvaro de Campos, arregaçou as mangas e defendeu o seu menino.
    Aquilino Ribeiro e Júlio Dantas defenderam a nossa única poetisa modernista. Depressa os estudantes enxovalharam, severa e desavergonhadamente, Júlio Dantas.
    Esse movimento estudantil era já uma ação protofascista.
    O autor de A Ceia dos Cardeais poderia ser o bobo literário para divertimento dos modernistas, mas, com a sua intervenção pública, mostrou que era um homem com coragem e com modernidade de valores.
    Viva o Dantas! PIM!

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  7. Formidável? Só significa que é uma editora provinciana.

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    1. Claro que é provinciana: é da província da Estremadura!
      Agora o sr. não sei, tão internacional, tão cosmopolita, só pode ser da Parvolândia!
      Enganei-me? Não sei...

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    2. Senhor, não. Senhora. E a criatura... veste calças?

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    3. Mil perdões! Tem toda a razão, esqueci completamente que "não sei" é do género feminino.
      Sou mesmo uma criatura ignorante!
      E sim, visto calças imensas vezes, quase sempre aliás, são muito mais práticas, não acha?

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    4. Cara "não sei", diga lá, o fel que lhe escorre tão profusamente terá a ver com algum original amachucado no caixote do lixo da editora provinciana? Tem, não tem? Claro que tem. ;-)

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    5. Confirma-se: é mesmo da Parvolândia.
      Beijinhos doces (daqueles dos pacotes, conhece?).
      E vou ficar por aqui, que a Maria do Rosário não precisa de advogada de defesa.
      E sim, eu também sou de Lisboa. ;-)

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