Uma gralha caríssima

Ninguém é perfeito – e todos os editores sabem que não há livros sem gralhas. Quando estamos a contraprovar (ver se as emendas marcadas na primeira prova foram todas feitas), acontece regularmente que, num grupo de páginas seguidas, não se fizeram quase correcções; isso corresponde a um momento em que o paginador estava já cansado e devia fazer um intervalo, tomar um café e regressar mais fresquinho. É horrível ler um livro cheio de gralhas, bem sei, mas umas são insignificantes, enquanto outras podem ser realmente muito chatas. Li num divertido artigo sobre o assunto que, numa versão da Bíblia em Inglaterra, um dos Dez Mandamentos saiu «adulterado», dizendo «Thou shalt commit adultery» (oh, meu Deus!, a Bíblia a mandar cometer adultério!). Mas muito pior foi o que aconteceu na Austrália com um livro que era, supostamente, outra Bíblia, a da Pasta, e em que o autor escreveu muito provavelmente o que não queria. Numa das receitas, de tagliatelle com sardinhas (eu cá não a experimentaria), em lugar de acrescentar «salt and black pepper» (sal e pimenta preta), o que ficou escrito foi «salt and black people»… Quando se deu pela calamidade, foi preciso tirar os livros do mercado (mais de 7000), o que custou à empresa cerca de 20 000 dólares australianos! Por isso, sempre que encontrarem gralhas nos livros que publico, por favor usem o endereço de e-mail associado a este blogue e comuniquem-mas: assim, numa segunda edição, corrigi-las-emos.

Comentários

  1. Boa sugestão a da Rosário.

    Normalmente encontro poucas gralhas nos livros. Isso deve acontecer por duas razões: por não ser um purista e por provavelmente me acontecer o mesmo que me acontece a escrever, consigo ler a palavra "gralhada", mesmo sem ela lá estar...

    Mas onde as coisas pioraram e muito é nos jornais (onde há menos tempo e menos dinheiro - e claro menos gente para rever... ).

    Há muito quem se socorra dos computadores, mas eles pouco podem fazer com as gralhas, pois muitos erros são os chamados "de simpatia", que acontecem por quando escrevermos estarmos a pensar noutra coisa, ou apenas porque sim.

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  2. Emílio Gouveia Miranda5 de janeiro de 2017 às 01:57

    Combinado.

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  3. António Luiz Pacheco5 de janeiro de 2017 às 02:08

    Ahahahah!

    Há de ser bem divertido um livro sobre "gralhas" .
    Já agora, alguém me sabe dizer de onde vem este nome aplicado às falhas livrescas? Tem algo a ver com o barulhento corvídeo?

    Pela minha parte, não sei porquê, fico todo contente quando encontro alguma, deve ser porque me acho esperto ou sinto culto ó coisa parcida.

    Saudações gralhosas cá do Bairro Ribatejano!

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  4. Bom dia Maria do Rosário e restantes extraordinários,

    Eu quando gosto muito de um livro, tendo a lê-lo devagar, para o "saborear" melhor. Talvez por isso, volta e meia apercebo-me de uma ou outra gralha no texto, geralmente nada de muito grave.
    Não sei explicar o porquê, mas desde há uns anos comecei a anotar na última página do livro, o número das páginas onde as gralhas se encontram, assinalando as ditas cujas nas páginas onde "moram".

    Por vezes dou conta das mesmas aos autores. Fiz isso numa apresentação de um livro do José Luis Peixoto (não sei se foi o "Galveias"), já em privado, com algum receio, mas ele ficou todo contente e tirou uma foto com o telemóvel a todas as páginas com gralhas (seriam umas 4 ou 5, julgo).

    Também já o fiz para um livro que a Rosário editou e de que gostei muito. Esse livro teve mais edições e fiquei contente por ter podido ajudar o autor (que já conheci pessoalmente) a limpar as mesmas. Nada de muito grave, também neste caso.

    Dito isto, um livro sem qualquer gralha, nem tem o mesmo encanto... :)

    Um bom dia a todos,

    Rui Miguel Almeida

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  5. Lembrando uma gralha célebre: na 1ª edição do "Memorial do Convento", o que deveria ser "estridor operático" ficou "escritor operário".

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  6. Provavelmente a gralha mais famosa dos últimos tempos, contada de uma forma sublime por Vítor Silva Tavares:

    https://www.youtube.com/watch?v=7wROj0scGxo

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    1. António Luiz Pacheco5 de janeiro de 2017 às 05:36

      Ahahahahah!
      Extraordinária...

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    2. E que pena os livros de Luiz Pacheco estarem fora de circulação há décadas...? Uma grande personagem. Muitos só se lembram da sua vida airada, e esquecem o seu papel importante de escritor e de editor.
      Fiquemo-nos pelo diário e pela biografia.

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    3. Obrigado por recordar esse extraordinário documento televisivo ! Esta do Pacheco é verdadeiramente de antologia e 0 modo como o Vítor Tavares a narra é mesmo sublime, como o caro Eremita afirma. Abraço.

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    4. Eu tenho alguns do Pacheco além dos Exercícios de Estilo e da biografia "Puta que os Pariu"; guardo da revista LER as entrevistas dele (mais antiga) e a mais recente do Vitor Silva Tavares pouco antes de falecer, onde ele conta a célebre gralha referida no comentário anterior.

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  7. Não sei a página, mas o "Stoner" tem uma horrível.
    Enxeu.
    Os livros têm sempre demasiadas gralhas. Demasiadas.

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    1. Obrigada. Essa já foi corrigida, tenho a certeza, mesmo que o Stoner não tenha sido publicado por mim. Eu normalmente digo quando o livro é da minha mão e é nesses casos que agradeço a indicação das gralhas.

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  8. Há uns meses largos li "A Raínha dos Malditos", edição do início dos anos 2000, de Anne Rice...
    As gralhas eram muitas, mas pior, para mim, enquanto leitora de uma saga foi sentir que entregaram o trabalho a um profissional que não procurou conhecer a obra e faltou ao respeito de várias traduções simples, como nomes ou locais...

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  9. Houve um livro que desisti de ler tal a calamidade entre gralhas e erros de tradução (penso eu!), que foi O Fantasma de Hitler, de Norman Mailer (D. Quixote).

    Não consegui. Ainda está ali na estante, e nem entendo muito bem porquê...

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  10. Tenho pela editora e pelos comentaristas deste blogue um enorme apreço. Gralhas "simpáticas", ou não, elas passam-me muitas vezes distantes como o voo dos pássaros, seja na escrita, seja na leitura. Tenho por elas, até, uma atitude que pode "enfurecer" muitos dos extraordinários leitores deste blogue. Demasiada complacência para com gralhas (e erros) que reflectem apenas a nossa condição de humanos, e, como sabemos, "errar humano é". Por vezes até nem questão de erro pressupõe, mas vontade de transgredir, de manipular, de libertar o absoluto pelo relativo deste universo prenhe de inflexibilidade.

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  11. Eu devo ter muito azar porque encontro sempre muitas gralhas nos livros, inclusivamente em edições de editoras com prestígio. Por vezes parece-me que os livros são feitos a correr e que ninguém se preocupa com as gralhas que por lá vêm. Não há livros sem gralhas, mas livros que as têm às dezenas são um tormento para os leitores.

    Tenho uma edição do romance “Pantaleão e as Visitadoras”, de Vargas Llosa, publicado pela Dom Quixote que está pejado de gralhas. Tem tantas, tantas, tantas que se não fosse o facto de a história amarrar o leitor ao texto, seria livro que facilmente pousaria.

    Costumo sempre pensar: "caramba, eu sem trabalho, parece que ninguém me quer para nada mesmo com a Licenciatura em Estudos Portugueses, o Mestrado em Ensino e a Pós-Graduação em Edição de Texto e depois vejo livros a sairem das editoras com tantas falhas." Custa um bocadinho, sou sincera.

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