O que ando a ler

Ora então sejam bem-vindos ao Horas Extraordinárias neste ano novo, depois de umas pequenas férias muito soalheiras e repousantes (pelo menos, para mim) e provavelmente uns quilitos a mais e uns quantos livros lidos. Como hoje é o primeiro dia útil do mês, cabe-me de resto falar do que ando a ler – e por acaso leio um romance bem bom, de Isabela Figueiredo, de quem já tinha lido o Caderno de Memórias Coloniais (acho que terei falado dele aqui no blogue). A obra que tenho em mãos – A Gorda – é realmente impactante, e basta a primeira página para nos agarrar. Contada na primeira pessoa, num tom que é bastante cru e não isento de um inteligente cinismo, a história começa por referir a perda de 40 quilos de Maria Luísa numa gastrectomia (essa operação que diminui o estômago) dois anos depois da morte da mãe, levando-nos então de volta à sua infância e adolescência, com e sem os pais, e aos dramas por que passam as gordas nessas idades, mas sem nada de patético ou lamecha, até porque Maria Luísa nunca se verga. Original é também a forma como a autora nos apresenta os vários episódios da vida da protagonista, dividindo os capítulos do seu romance em partes de uma casa – a Porta de Entrada, O Quarto de Solteira, a Sala de Estar… –, lugares que lhe servem para relatar momentos fundamentais da vida da «gorda» e que podem estar relacionados com os hábitos dos bairros suburbanos, com as memórias da vida colonial, com a iniciação amorosa, com a escrita de correspondência e não só. Numa prosa intensa, às vezes desarmante (aplaudo as descrições das cenas de sexo que, na literatura portuguesa, costumam resvalar frequentemente para o mau gosto), este é um livro mesmo muito bom que ninguém deve deixar de ler. Para magros, gordos e assim-assim.

Comentários

  1. Concordo! Um livro muito original e que nos prende da primeira à última página!

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  2. Andei uns dias a hesitar (compro, não compro) mas acabei por comprá-lo em meados de Dezembro, depois de ler uma entrevista com a Isabela.
    E ainda bem pois foi um dos melhores livros que li em 2016.
    Foi a minha estreia com esta escritora mas não vou, de certeza, perder o próximo livro.
    Antonieta

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  3. Ora vivam.
    Eu estou a ler dois autores italianos debruçando-se sobre literatura: Italo Calvino (Porquê Ler os Clássicos) e Umberto Eco (Sobre Literatura).

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  4. Emílio Gouveia Miranda2 de janeiro de 2017 às 02:46

    Bom dia. Um Bom Ano. Sem exageros!

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  5. Bom dia,

    Votos de um extraordinário 2017 a todos, que seja um ano cheio de grandes livros.

    Acabei há dias a autobiografia do Phil Collins, "Not dead yet". Não sou fã da carreira a solo do homem, mas adoro Genesis. Se andarem por aí outros fãs, recomendo este livro.

    Entretanto comecei ontem um romance de um autor que só conheço de nome: "Eu sou a árvore" de Possidónio Cachapa. Li umas 30/40 páginas, mas estou a gostar imenso, a coisa promete!

    Já ouvi/li coisas muito elogiosas sobre esse "A gorda", vou procurar por ela e talvez a convide para ir lá a casa, morar nas minhas estantes.

    Rui Miguel Almeida

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  6. Ando a Ler _ 50

    Aqui há tempos fui comprar cigarros ali abaixo à papelaria / livraria / quiosque, e lá andava a empregada a amontoar as sobras daqueles livros que se vendem junto com os jornais, que era para os devolver.
    A encimar uma das pilhas estava Oscar Wilde a acenar-me “O Fantasma de Canterville e outros contos”.
    Ora bem: lembro-me de ter lido, era eu rapaz novo, este “Fantasma” que, nesses tempos, se tornou popular entre a malta.
    Deixa-me cá desfolhar, até para ver que “outros contos” são estes... Hm... lembro-me vagamente deste “O Pescador e a Alma”... os outros acho que não li... Hm... o melhor é levar o livrito:
    -- Ó menina, fico com este, mas tem que me fazer um desconto, porque vou tirar-lhe um fantasma daqui da loja. Vai ver que o negócio melhora.

    Fiz bom negócio, pois que me deliciei a reler a história do fantasma, na qual o feitiço se vira contra o feiticeiro.
    E redescobri a história do pescador que se separou da sua alma, a qual depois o perseguiu e atormentou.
    E fui lendo os outros contos, que são, de um modo geral, espirituosos e bem-humorados, satirizando muitos dos lugares comuns relativos às convenções da sociedade e aos mitos do sobrenatural.
    O último, “O Foguete de Lágrimas”, é de um humor delicioso.

    Por outro lado, fiz mau negócio, pois que – e aqui vira-se também o feitiço contra o feiticeiro – esta edição é muito descuidada: erros no texto, virgulas fora do sítio, etc, e uma encadernação esquisita que obriga a fazer força com ambas as mãos para abrir o livro de modo a conseguir separar as manchas gráficas o suficiente para poder ler o que lá está escrito.
    É o tal problema da acessibilidade à leitura, que as editoras deviam cuidar com mais exigência...

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  7. De água na boca mas, ainda por cima "A GORDA" e onde é que arranjo espaço para ela?

    Há anos que ando a ganhar coragem para conhecer William Faulkner, e atiro-me a "LUZ EM AGOSTO" — mas que livro, mas que grande escritor!

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  8. Estou a ler e a gostar imenso. Aliás, a Caminho é sinal, normalmente de enorme qualidade. Surpreendeu-me imenso a minha última leitura do ano passado e percebi uma espécie de polémica que percorre a net acerca dos méritos do autor, que não se enquadra em nenhuma corrente e nem é actual nem é datado. Refiro-me ao falecido Luís Caminha. O emocionante "Um Pinguim na Garagem" é simplesmente desconcertante na sua originalidade quanto à estrutura e à linguagem.

    O meu próximo é outro da Caminho, "Os Velhos Também Querem Viver". Gonçalo M. Tavares nunca me desilude.

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  9. Por essas e por outras é que ofereço livros sobre dietas detox.
    É que depois da época das “gordices”, o perímetro abdominal assume proporções de faixa de Gaza.
    Nalguns casos;).
    Acabei de ler” Era uma vez em Goa” de Paulo Varela Gomes. Excelente livro, desarmante por tudo, pela linguagem, pelo humor, a história, os personagens, os lugares, as notas de rodapé.
    Apetecia-me nunca o acabar!!!
    Ainda dizem que os contemporâneos são chatos.
    Quanto à autora que refere, talvez me inicie com o Caderno das Memórias Coloniais, agora que esse assunto já entrou no campo das matérias exóticas (sobretudo para as novas gerações), pois tem sido tema meio tabu, meio sigiloso, meio nunca-existiu...
    Bom Ano:)

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    1. António Luiz Pacheco2 de janeiro de 2017 às 06:58

      Lembrei-me desta:
      - Sabe como se chama aquela parte do corpo feminino, que fica à vista entre o sutiã e o biquíni?
      É a "faixa de gaja" ...
      Ahahah!

      Um bom ano, com alegria e muitas alegrias!

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  10. António Luiz Pacheco2 de janeiro de 2017 às 06:55

    Ora vivam todos e vivam mais os(as) gordos(as)!
    Afinal, que raio, os portugueses são gorduchos, robustos se quiserem, é a nossa compleição tradicional e vejam-se as fotos antigas... agora é que é moda ser-se esquálido, ossudo... sei lá, até desconfortável!

    Quando cheguei, na minha primeira visita à Livraria Costa (Santarém) dei logo de caras com um título mesmo à minha medida: "Memórias do Trajar" - aldeias do Graínho e Fontainhas (Graínho é onde vivo). Um trabalho muito interessante de recolha por parte do Rancho Folclórico do Bairro, da autoria da Dina Bernardino e do Hélder Lourenço. Depois em casa e com grande agrado meu, deparei com excertos do meu "Largueza" a fazer a introdução!
    Gaba-te cesto ...

    Já na Bertrand, saltou-me logo à vista um outro tema de eleição, este da autoria de Umberto Eco - "História das terras e dos lugares mágicos". Extraordinário!!!!

    Trazido pelo meu filho, tenho andado a ler "Mein kampf" ... do sinistro Adolf Hitler. O livro maldito e proibido durante algum tempo se estou bem informado... se bem que ache que os livros não devem ser proibidos por razão alguma.
    Uma sensação estranha... está muito bem escrito, com clareza e uma aparente dose de sensatez e sabedoria. Nem por isso choca, e até parece que concordamos com muita coisa que contém... só que sabemos que é propaganda e ao que conduziu.
    Classificou-o como um livro perigoso, que deve ser não proibido mas de leitura restrita, parece-me que é preciso ter uma sólida estructura e formação moral e intelectual para o poder ler, analisar e até entender sem ser influenciado. Sabemos que os livros influenciam e espalham ideias, daí serem históricamente perigosos e sempre ter havido a tentação de os proibir ou banir em regimes totalitários ou religiosos.
    Hitler era um comunicador e um manipulador, um homem oriundo da teosofia que conhecia bem a mística e sabia como a usar, um iniciado na verdade e isso explica o seu sucesso em arrebanhar uma nação e um povo. Não tenho por ele admiração, note-se, pois usou para o mal os conhecimentos e as capacidades, embora não tendo sido o único ao longo da história e nem foi o último!
    Portanto esta leitura deve de facto ser feita com algumas precauções e tendo sempre presente a idéia daquilo que gerou! E, cuidado, pois me parece que as bestas andam novamente à solta... com a mesma teoria do "socialismo" e sob uma capa de "nacionalismos" clamando por independência e liberdades que os mais velhos sabemos bem como são entendidas e aplicadas depois...
    Há coisas que não podem ser esquecidas e os livros servem para isso mesmo!

    Saudações mais ou menos enregeladas cá do Bairro Ribatejano!

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    1. " A los demonios no hay que creerles ni cuando dicen la verdad."

      Gabriel García Márquez

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  11. Ainda ando a ler "O Túnel de Pombos" de Carré (não é tão entusiasmante como esperava...).

    Entretanto li a "História Universal da Infâmia" de Borges (um bom exercício literário).

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  12. Li-o em dois dias. Muito bom, acho que consegui gostar ainda mais do que do primeiro. E sim, apesar de tantos bons escritores, a Isabela consegue ser original e diferente dos outros. E foge completamente aos estereótipos de toda a literatura escrita por mulheres em Portugal!
    ~CC~

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  13. Eu também acho.
    A mim o final fez- me chorar de ternura.
    Raríssimo.

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