O poder das personagens

Quando alguém diz que uma situação é «kafkiana» ou «dantesca», não podemos senão concluir que Kafka e Dante passaram o teste do tempo e dificilmente desaparecerão da vida dos homens, mesmo que não leitores. O mesmo acontece com certas personagens de obras clássicas – e leio um interessante artigo sobre como o nome de tantos distúrbios psíquicos contemporâneos foi, afinal, roubado a figuras de romances e peças de teatro. Já para não falar do complexo de Édipo ou de Electra, que todos conhecem, descubro por exemplo que aqueles que padecem de um ciúme obsessivo, que tantas vezes os leva a matar o objecto do seu «amor», sofrem de uma doença chamada Síndrome de Otelo (o Otelo de Shakespeare, bem entendido, que matou a pobre Desdémona sem razão). Aos que se recusam a crescer diagnostica-se geralmente a Síndrome de Peter Pan e aos que se preocupam excessivamente com a aparência e não querem envelhecer, a Síndrome de Dorian Gray (do romance de Oscar Wilde, claro). As mulheres que têm fobia de ser autónomas sofrem do Complexo de Cinderela e, no outro extremo, as pessoas que se superam constantemente só pelo prazer de se sentirem heróicas têm Complexo de Super-Homem.  Bela Adormecida é o nome comum dado à Síndrome de Kleine-Levin, um distúrbio neurológico em que o paciente fica letárgico e apático a maioria do tempo; e, para não citar todos os casos do artigo, termino com a Síndrome de Ofélia (a namorada de Hamlet, bem entendido), nome com que um neuropsiquiatra baptizou a doença da filha – confusão mental, falta de memória, dificuldade em articular o discurso, alucinações e depressão – que muitas vezes está associada ao facto de os pacientes terem um linfoma. Que outras doenças encontraremos no futuro com nomes de personagens literárias?

Comentários

  1. António Luiz Pacheco3 de janeiro de 2017 às 02:58

    Também há o efeito Bambi ... enfim, menos literário, mas vai dar no mesmo!

    Isto só prova uma coisa: O Extraordinário impacto da literatura!
    Queira-se ou não, entenda-se ou não, ignore-se ou esconda-se até, mas é inegável o quanto os livros e por conseguinte a leitura, marcam indelévelmente o ser humano e as suas actividades, ideias ou acções|

    A força do livro e da leitura predomina ao longo dos tempos, e não foi por acaso que a escrita (e a leitura, óbviamente) foram uma das conquistas que mais marcaram a humanidade e determinaram o seu desenvolvimento!
    Creio que a seguir ao desenvolvimento da fala terá sido a par da capacidade de usar armas (ainda que primitivas) o que mais contribuiu para a nossa sobrevivência e evolução enquanto espécie, já como seres humanos e não animais!

    Saudações hominídeas e antropocentristas cá do Bairro Ribatejano!

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    1. «Chimpanzés, os primatas mais próximos do homem, foram vistos criando e utilizando lanças de madeira para caçar suas presas»

      https://pt.wikinews.org/wiki/Chimpanz%C3%A9s_vistos_criando_e_usando_lan%C3%A7as_para_ca%C3%A7ar

      Também é conhecido que os chimpanzés se servem-se de pauzinhos, que, por vezes, aguçam na ponta, para apanhar formigas nos seus buracos e que usam pedras ou pedaços de madeira parecidos com martelos para quebrar nozes. Nestes casos, não se trata propriamente de armas, mas prova que os humanos não são os únicos capazes de usar e mesmo fabricar utensílios.

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    2. Pois... e isso é quando? Hoje?
      Bem, tenho uma novidade: nós, os homens, deixámos de fazer isso vai para uns 10 milhões de anos... e originámos os gajos que hoje usam a net, sabia? Porque fomos capazes de usar paus e pedras e por aí fora...
      Já agora, e porque estamos num blog de leitura, leia "Os símios caçadores" de Craig B. Stanford. Sabe , como sou velho e já li muito, sou capaz de saber umas coisitas... vanitas vanitatum ....

      Saudações ancestrais e antropocentristas cá do Bairro Ribatejano!

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  2. Acho alguns autores masoquistamente (de Masosh) doentios, e sádica (de Sade) e maquiavelicamente (de Maquiavel) digo mal de certos autores.

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  3. acaciano
    quixotesco
    rocambolesco
    sósia
    tartufo
    donjuanesco

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    1. Bom e os autores... Camiliano, Queirozeano, Shakespeareano, Verneano ... (com i ou com e? Alguém me elucide...).
      Também se usa dizer que é um "Tarzan", ou à Lagardére, Gargantua, Quixotesco, etc. Ainda personagens de romances ou obras e creio que nunca mais acabam...

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  4. Enfim, toda uma odisseia.

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    1. Eheheheh! Para empresas gigantescas e orientais, como a 3 Gorges????

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