Penumbra

Desde que comecei a trabalhar na edição que vejo muitos jornalistas de qualidade desaparecerem de cena em levas sucessivas de despedimentos colectivos. E reparo que, frequentemente, os que saem são justamente aqueles que eu achava desempenharem melhor a sua função, substituídos por moleques e miúdas que têm quantas vezes ordenados de miséria mas dizem a tudo que sim. Desta feita, a injustiça tocou a alguém que está perto de mim – uma autora que, além de galardoada desde muito cedo como jornalista com quase todos os prémios de jeito que havia para ganhar, ainda arrecadou com o seu romance de estreia o prémio mais cobiçado atribuído anualmente a uma obra de ficção. Falo, evidentemente, de Ana Margarida de Carvalho (e de Que Importa a Fúria do Mar), que acaba de ser dispensada da revista Visão, para a qual trabalhava havia muitos anos, e que tinha seguramente mais bagagem, experiência e talento do que muitos dos seus confrades que lemos ou ouvimos actualmente nos meios de comunicação portugueses. Segundo um post que ela própria publicou no seu mural do Facebook, a terrível notícia foi-lhe dada por um membro dos Recursos Humanos da empresa, nem sequer por aqueles que chefiam a redacção ou dirigem a revista, como se as pessoas já nem fossem pessoas, mas meros números, e não merecessem respeito nem gratidão pelo trabalho que fizeram durante anos. Fico muito triste – não só por ela, mas pelo estado a que as coisas chegaram num país que teve de lutar pela liberdade de expressão durante tanto tempo e que, afinal, mais de 40 anos decorridos do estabelecimento da democracia, volta a comportar-se como se estivesse numa ditadura (a ditadura do dinheiro e das vendas): Pensas, logo não podes existir.

Comentários

  1. Vou-me embora pra Pasárgada
    Lá sou amigo do rei
    Lá tenho a mulher que eu quero
    Na cama que escolherei
    Vou-me embora pra Pasárgada

    Vou-me embora pra Pasárgada
    Aqui eu não sou feliz
    Lá a existência é uma aventura
    De tal modo inconsequente
    Que Joana a Louca de Espanha
    Rainha e falsa demente
    Vem a ser contraparente
    Da nora que nunca tive

    E como farei ginástica
    Andarei de bicicleta
    Montarei em burro brabo
    Subirei no pau-de-sebo
    Tomarei banhos de mar!
    E quando estiver cansado
    Deito na beira do rio
    Mando chamar a mãe-d’água
    Pra me contar as histórias
    Que no tempo de eu menino
    Rosa vinha me contar
    Vou-me embora pra Pasárgada

    Em Pasárgada tem tudo
    É outra civilização
    Tem um processo seguro
    De impedir a concepção
    Tem telefone automático
    Tem alcalóide à vontade
    Tem prostitutas bonitas
    Para a gente namorar

    E quando eu estiver mais triste
    Mas triste de não ter jeito
    Quando de noite me der
    Vontade de me matar
    — Lá sou amigo do rei —
    Terei a mulher que eu quero
    Na cama que escolherei
    Vou-me embora pra Pasárgada.

    Manuel Bandeira

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  2. Será que consegue escapar à ditadura e refugiar-se nos olhos dos gatos?

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  3. É um facto: pensar está em desuso e cai mal em alguns meios. Mas, no caso do jornalismo, como a Rosário bem diz, alienam-se bens seguros por pessoas em início de carreira a quem se ensina a dizer sim a tudo, ou perdem o emprego. Saem mais baratos que qualquer bem de raíz, não dão problemas com as publicações e abafam a opinião própria caso a tenham (há os que nunca chegam a criá-la) e seja contrária ou colateral. E quando os melhores vão sendo encostados às boxes, as revistas e jornais vão empobrecendo. E a gente começa a pensar em cancelar assinaturas. Não as renovar. No caso da Visão, dada a perda notável de qualidade, é capaz de vir a ser verdade.
    Lamento a injustiça cometida contra Ana Margarida de Carvalho que, à parte ser boa escritora, escrevia, na mesma revista, artigos interessantes e honestos. Mas há-de haver quem seja dispensado e não tenha mais por onde sobreviver. Quem sabe lhe sobra a ela mais tempo para escrever livros que a Rosário publica e ganham prémios e assim..."quando Deus fecha uma porta abre sempre uma janela" que, para uns tantos, é o janelico da casa de banho de um t-zero.

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  4. Compreendo perfeitamente o que sentiu a Ana Margarida de Carvalho, pois fez agora precisamente um ano que passei pelo mesmo. Num dia somos os melhores trabalhadores, os mais eficazes, os mais apreciados; no outro, e porque temos o direito de pensar e fazer valer esse direito, passamos a ser lixo, cães vadios que se enxotam ao pontapé quase. E depois cresce uma revolta, uma gana, um injustiça imensa que se apodera de nós. O choque de sermos humilhados, maltratados, insultados, desprezados como uns miseráveis. Mas nós não somos miseráveis, nem cães, nem lixo, por isso o choque passa. Aos poucos voltamos a consertar o corpo sobre as pernas, as ideias na cabeça e de novo de pé! Já tive o cuidado de dizer isto à Ana Margarida de Carvalho, escritora que muito estimo e admiro, disse-lhe inclusive que hoje, ao olhar para trás, estou certa de que foi a melhor coisa que me aconteceu, porque para além de ter encontrado um trabalho melhor, se assim não tivesse sido teria enlouquecido.
    E à Ana Margarida de Carvalho vai acontecer o mesmo, tenho a certeza, até porque a Literatura precisará muito mais dela do que aqueles que um dia lhe quiseram apagar o nome. Talvez a vida esteja apenas a colocá-la onde ela sempre pertenceu: aos livros.

    Um grande abraço à AMdC e a todos os extraordinários desta sala que partilham alegrias, livros, opiniões mas também dores.

    Carla Pais

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  5. Bolas! Até senti um arrepio e não foi do solestício..
    Bhwjdbjcbj( palavrão encriptado).
    Hoje é inverno, mas não um inverno qualquer.
    Não é o inverno das folhas a cair, nem o inverno de árvores descarnadas.
    NÃO.
    É o tempo das sementes caírem à terra e ( espero) para lá do hoje, germinarem.
    Margarida, se estiver a ler isto, só me ocorre a frase “ Não há machado que corte a raiz ao pensamento “...

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  6. Estamos num tempo em que quem tem opinião e ideias próprias, é sempre um alvo a abater.

    É o triunfo da mediocridade a toda a linha... graças aos vários aparentados com os relvas, os socrates, os coelhos e os silvas, muitos deles escolhidos para directores de jornais e televisões.

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  7. "a ditadura do dinheiro e das vendas", esse negócio também é o seu/da sua editora.
    O que é bom é descartado porque não vende o suficiente, portanto os livros menos bons é que são editados.
    Felizmente ainda há editoras que se interessam com a qualidade. Isto não é um ataque, é uma mera constação. Hipocrisia não.

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    1. Ora, mas eu também não disse que este procedimento era exclusivo dos jornais. Sim, acontece também nas editoras, evidentemente, e em montes de outras empresas de todos os ramos. Infelizmente.

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  8. O Inverno do nosso descontentamento?...
    ou
    Deus escreve direito por linhas tortas?...
    ou
    O que é bom tem sempre valor?...
    ou
    Ora estamos na crista da onda,
    Ora estamos na base da mesma,
    Sendo que importa não se deixar afundar?...
    Aliás,
    Há mais marés que marinheiros!...
    A inteligência acaba sempre por dar a volta ao texto.
    Felicidades para a competente Jornalista.
    E Feliz Natal.

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  9. Emílio Gouveia Miranda21 de dezembro de 2016 às 10:16

    Haveria tanto a dizer a propósito disto, mas vou dizer apenas o seguinte: somos todos co-responsáveis por situações como estas...
    Bom, vou acrescentar algo mais: preferimos artigos leves e sensacionalistas, contra artigos bem estruturados e profundos (simplesmente não estamos para grandes mergulhos intelectuais) e preferimos um lindo palmo de cara a um cérebro que desafie a nossa intelectualidade, expondo a sua falta ou ausência... Tudo anda, infelizmente, à volta disto. Lamentavelmente.

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  10. Não me posso basear em todos os artigos da pessoa em questão, mas os últimos que li na Visão sobre a pílula masculina foram sofríveis e sem informações credíveis. Pareciam escritos do ponto de visto de uma feminista amarga. Não gostei e sou mulher.

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    Respostas
    1. Nunca foi jornalista que me fizesse achar que estavamos "salvos".
      Muitos prémios sobre cinema recebidos por AMC passaram-me ao lado, muitos artigos achei que eram vazios, meras opiniões.
      Mas é sempre penoso quando retiram seres pensantes de jornais. O pão nosso de cada dia.
      Também achei despropositado isto:
      http://sol.sapo.pt/artigo/539071/ana-margarida-de-carvalho-afastada-da-revista-visao-de-forma-humilhante
      Não sou contra a senhora, mas de forma muito fria resume-se a ser filha de quem é e de ter muitos amigos jornalistas. Daí as palmadinhas.
      Apesar de se inserir no mesmo contexto, é um aparte. A autora-jornalista Alexandra Lucas Coelho também tem sempre críticas grandiosas aos seus livros. Porque são os colegas que lhas escrevem. Os seus livros, para mim, são estéreis. Até um de tema muito interessante ela conseguiu tornar insípido.
      Há muitos grandes jornalistas a serem mandados borda fora, não me parece que AMC seja o caso. Certamente é de lamentar. Mas pensemos um pouco...

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    2. Quantos jornalistas de cal foram despedidos e nunca aqui foram falados?
      Não eram "seus", aí cai a diferença.
      Não falemos muito, caso contrário será novamente a sua discussão imensa com o crítico Direitinho e acredito que a Maria do Rosário não pretende reviver essa história. Foi-lhe vergonhoso.
      Apesar de muita gente se lembrar e ter onde procurar.

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  11. Como se disse por aí... um dia descobrimos que somos velhos e caros, logo dispensáveis, pois a juventude inexperiente está aí à porta, pronta para entrar, cometer erros que custam dinheiro, a precisar da formação que nos deram a nós agora velhos, etc. Mas é assim... em toda a parte!
    Aqui há dias vi escrito algures: os mesmos que dizem que tens de trabalhar até aos 67, são os mesmos aos 5o, determinam que estás velho!

    É a modernidade...

    Saudações provectas cá do Bairro Ribatejano!

    PS - E tenho de dizer que tenho o ego cheio, pois comprei um livro que muito me interessa (Memórias do trajar - Aldeias do Graínho e Fontainhas) de Dina Bernardino e Helder Lourenço, editado pelo Rancho Folclórico do Graínho e Fontainhas) e não é que, ao abri-lo em casa deparo como nota introdutória com um excerto do meu Largueza?

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