Baobá

No tempo em que andei na escola, os cadernos eram todos feios e as borrachas não cheiravam a nada. Os lápis ou eram vermelhos ou brancos com a tabuada. Mochilas? Estavam a uma enorme distância temporal: usávamos pastas de couro com umas alças (mas também não andávamos carregados como os miúdos de agora). Até os livros infantis eram desengraçados ao pé do que hoje vemos nas nossas livrarias. E, embora as coisas tenham mudado muito e as obrigações estejam agora mais ligadas ao consumismo e ao prazer, a verdade é que não tínhamos ainda uma boa livraria dedicada especialmente aos livros ilustrados. Vai daí a editora da Orfeu Negro, que tem excelente catálogo de literatura infantil, saiu da sua zona de conforto e abriu recentemente a Baobá - numa referência a uma árvore originária de África, "sólida, ligada à memória e a lendas africanas e brasileiras. Inspira a muitas coisas fantásticas, tem um tronco enorme onde podia existir uma porta. No fundo, os livros são como a raiz", disse a fundadora do projecto. Este é um lugar aonde apetece entrar no bairro de Campo d’Ourique, em Lisboa, nem que seja para folhear formosuras e ouvir histórias bonitas. Mas não só: vem aí um serviço educativo que vai servir as escolas e as crianças do bairro. Só é pena eu ter crescido entretanto...

Comentários

  1. António Luiz Pacheco5 de dezembro de 2016 às 01:22

    No fundo mais uma tentativa de implementar merchandising que venda... se calhar o objectivo é duplo mas resume-se a vender mais porque apelativo.
    Aliás discordo, pois continuo a não comprar livros porque a capa é bonita... e nem acho que os livros da minha infância fossem assim tão fraquinhos, temos de nos situar nos anos 50 ou 60 e não na actualidade em que de facto as pessoas compram por imagem e sem imagem não se vende...
    O preço, o preço é que importa - a meu ver.
    Livros muito bonitos, com capas apelativas etc. são caros! Claro que há toda uma fileira para sustentar, que cria empregos, mas que encarece muitíssimo os livros.
    Também gosto de ver uma boa capa, um livro bem-apresentado, como é evidente, mas, o seu preço depois vai ser entrave ao consumo. Os génios do marketing sabem-no como é evidente, mas continua-se a cultivar o consumismo e a apostar em vender mais flores do que hortaliças, sendo que as flores alegram, porém as hortaliças é que alimentam, tal como um livro feio alimenta na mesma o leitor e o espírito.

    Saudações hortícolas cá da Cidade Morena.

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    1. Mas ó Pacheco —mas não vivemos actualmente nós numa (abjecta mas eficiente) sociedade de consumo?

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    2. António Luiz Pacheco5 de dezembro de 2016 às 03:36

      Sem dúvida... enfim, abjecta-abjecta talvez nem tanto pois é a evolução e repara que apesar de tudo alimenta muita gente, cria empregos e melhora o nível de vida e de bem-estar. Muitos do que clamam contra isso usufruem na mesma, ou farão então como "O último homem americano", de Elisabeth Gilber, cuja leitura te sugiro - não esquecer que estamos num blog de livros e de leitores!

      Limitei-me a constatar e não a adjectivar.

      Abraço daqui, aí para a nossa terra!

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    3. Todas essas realidades que apontas não invalidam que a ache abjecta; do mesmo modo que tal facto não me impede de sonhar com outra.

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    4. António Luiz Pacheco5 de dezembro de 2016 às 04:45

      Mas com certeza!!!!
      Também não impede de leres o tal "O último homem americano", olha que vale a pena e até nos ajuda a perceber muita coisa sobre os Norte-americanos! Também dá que pensar sobre o consumismo e a vida sem ele.

      Abraço!

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    5. Obrigado pela sugestão ó Pacheco, já está na "bicha".

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  2. Rosário Duarte da Costa5 de dezembro de 2016 às 07:29

    É verdade, Maria do Rosário
    Pedreira, os nossos tempos eram mais tristes...
    Eu, ainda tive a pedra, com lápis de carvão e giz. As canetas eram longas, com aparos que se torcia. Quando apareceu a esferográfica, foi
    um fenómeno mas, não a utilizava na escola.
    Os cadernos com as suas tabuada, os livros tendenciosos. Mas, direi que tive muita sorte...Por um lado as professoras extraordinárias,
    por outro lado os meus pais que me compravam muitos livros.
    Hoje os meus netos (já nem falo dos meus filhos),,vão para as suas escola carregados silos. Utilizam o tempo fora da escola no desporto, na aprendizagem musical e, o tempo é carregado demais.
    Em casa com montanhas de livros e brinquedos mas, acabam por não ter tempo para se ouvirem e, pensarem
    neles próprios.
    A evolução tem muita coisa boa, mas também nos desencastra de nós próprios.
    Será que a escolaridade deveria adaptar o caminho à própria humanidade?!

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  3. Permitam-me o silogismo, mas do tempo em que andei na escola, só os morangos cheiravam a morangos. E não as borrachas, nem os geles de banho.
    Os lápis tinham um maravilhoso sabor a lápis e os livros. Ah, os livros e os livros das estórias.
    Esses, eram outro dos meus encantos.
    E não eram feios, alguns ainda os conservo. Aqui há tempos descobri um fininho, dentro do Pantagruel.
    Eram de uma coleção, que presumo hoje, barata, que tinha infinitas histórias maravilhosas e ilustrações a condizer.
    Aliás, havia muitos de vários tipos e todos eles feitos por feiticeiros que tinham a importante missão de nos deixar, há pequenada, maravilhados.
    E matéria prima para muitas aventuras.
    Por isso é de louvar que pensem nos mais pequenos.
    Quem não se lembra de se extasiar completamente, perante um livro.? Primeiro pelas suas gravuras maravilhosas, que faziam querer aprender a destrinçar rapidamente aquele código de letras e palavras.
    Se alguém estiver interessado em fazer um pequeno leitor, tente oferecer o “Dinotopia” do James Gurney, possivelmente vai ter de ser em inglês, porque já não se publica em Portugal( a Bertrand não reeditou, pelo menos eu que saiba).
    Mas não se importem, talvez os miúdos queiram aprender inglês por causa disso.
    São três volumes de pura magia, que inspiraram o George Lucas, James Cameron e pasmem, na pág.147 do primeiro volume, entre tantas maravilhas, está lá o nosso Terreiro do Passo. Isto antes, muito antes, de Lisboa estar na moda.
    Livros vai havendo, mas tempo para os ler aos miúdos, isso é que faz falta!
    E já agora Parabéns à Baobá, como também à Gatafunho e à Aqui há Gato, se no entanto estas duas últimas, persistirem.

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  4. Emílio Gouveia Miranda5 de dezembro de 2016 às 12:28

    Boas notícias, todas aquelas que possam indiciar que o livro vai passar a ser tratado como mais do que simples mercadoria, num mundo cada vez mais preocupado com vendas do que com o verdadeiro consumo da etérea matéria que é a do conhecimento.

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  5. Lembrei-me, à conta do post, de que quando aterrei em Portugal estranhei não haver nem livros coloridos, nem TV a cores e muito menos desenhos animados a cores e lembro-me de guardar, como tesouros, os meus livros infantis na língua que não se falava aqui por terem ilustrações cheias de cor que me levavam para longe. Isto para dizer que nem só de palavras vivem os livros...

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