Maus hábitos

Na história da literatura, houve muitos escritores que bebiam demais – e basta ler o livro de Hemigway Paris É Uma Festa para perceber que a festa incluía mesmo muito álcool (sobretudo vinho, que era o que Hemingway nesses primeiros tempos podia pagar). Os poetas simbolistas eram valentes bebedores de absinto (a «fada verde») – Rimbaud, ao que parece combinava-o com haxixe – e bebiam-no às cinco em ponto como se fosse chá. Scott Fitzgerald era alcoólico, o que afectou a sua produção literária. Faulkner tinha a febre das apostas em corridas de cavalos – e muitos outros autores gostavam do jogo (Dostoievski, evidentemente!). O cigarrinho também esteve muitas vezes na mesma mão que segurava a caneta; num livro muito giro de Javier Marías chamado Vidas Escritas que li há anos – e, se não me engano, colige crónicas que o espanhol escreveu num jornal – descobri que Joseph Conrad deixava constantemente cigarros acesos nos cinzeiros e teve várias ameaças de incêndio em casa. Fumava também Cortázar (fotografado de cigarro na mão tantas vezes) e o peruano Julio Ramón Ribeyro, que até escreveu um conto chamado «Só para Fumadores». E fumavam Duras, Beckett, Camus, Orwell, Henry Miller, Octavio Paz e muitos, muitos outros. Se os ajudaram a escrever o que escreveram – e acredito que sim – vivam os maus hábitos…

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda18 de novembro de 2016 às 02:43

    Para os autores que nunca renegaram os seus vícios, a escrita era, com certeza, o único vício redentor. A bóia de salvação de seres que naufragavam reincidentemente nos demais, fossem quais fossem. Os que não consomem álcool, nem drogas, nem se deixam encantar pelo fumo, consomem livros, afogam-se neles. Falo - obviamente - do meu vício! Bom dia. E vivam os bons vícios!

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  2. Os vícios podiam não ajudar a escrever, mas que criavam a ilusão de que ajudavam a pensar (as coisas mirabolantes que os escritores gostam), criavam...

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  3. Não penso que os vícios ajudem. Penso que esses escritores de que fala eram bons apesar dos seus vícios.

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  4. E há os que têm bons hábitos, como creio que li algures o nosso Gonçalo M. Tavares, que precisa de caminhar todos os dias pela cidade para poder escrever.

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  5. "VIDAS ESCRITAS" bom (e bonito) livro!
    Tal como o grande Matateu (grande jogador futebol anos 50/60, do grande Belém) que, no intervalo de qualquer jogo, não dispensava uma cervejola...eu, alimento o vício da leitura (mesmo vício a sério) sendo incapaz de sair à rua sem levar comigo um livro...

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  6. Não acredito que alguém seja bom a escrever devido a um vício que contraia ou a que seja propenso. Antes penso que a vida da escrita se pode tornar demasiado parada e monótona, afinal é um observar constante, um observar do lado de dentro do que se observou por fora. Ou é mesmo a criação do acto de observar que em tanta situação não chegou a existir. Por outro lado, alguns desses vícios são usados pela maioria das pessoas cujo trabalho exige pouca movimentação. Há quem recorra à nicotina, quem use a cafeína, alcoól e outras drogas. Não estando lá a arte não são as drogas que a criam.

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  7. Álcool, drogas, fumo - vícios
    Não ler - mau hábito

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  8. Ora... e escrever não será só por si um mau hábito? Isto para a maioria das pessoas, que acham que ser escritor é algo de estranho, próprio de gente esquisita e nem sequer entendem o esforço e o trabalho que a escrita exige, achando que é só sentar e escrever, sendo o escritor meramente um inútil, um maduro qualquer, um excêntrico?

    Na verdade o escritor, suponho eu, e falo do verdadeiro escritor como aqueles que foram citados, ou o verdadeiro músico, ou o verdadeiro pintor, são pessoas diferentes, muitas vezes excêntricas e com hábitos diversos daqueles das pessoas comuns, aliás também por isso são artistas, criadores, imersos no seu Mundo e no seu sonho, na imaginação que os inspira e alimenta.

    Suponho que seja por isso que lhes é tão fácil e comum caírem nesses ditos maus-hábitos... escreverem de noite e dormirem de dia, fecharem-se em casa ou nas suas ilhas, consumirem álcool, drogas, tabaco, até a boémia!

    Muitos outros, que se presumem sê-lo, aspirantes ou imitadores, também depois assumem esses maus-hábitos achando que é por isso que serão "artistas", intelectuais... como se o génio daí viesse e não, que se fosse assim pelo génio!

    Imagina-se um escritor metrossexual? Uma escritora cinéfilamente glamourosa, com horas de ginásio, salões de beleza, solário, spa, sauna, alimentados a iogurte, saladas e batidos saudáveis?

    Credo... não! De todo...

    Saudações intoxicadas cá da Cidade Morena!

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    1. ...não conheço assim mais de perto nenhum escritor (as sessões da autógrafos não contam). Porém, com o peso que a imagem tem hoje, suponho que haverá alguns que enquadram dentro desses parâmetros. Até por me parecer um tanto preconceituoso que a imagem de marca deles sejam os vícios que contraem como se sejam necessários ao metier. Há tanta diferença no mundo, por que não hei-de acreditar que há escritores preocupados com a imagem e com hábitos saudáveis?! São gente como os outros.
      BFS

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  9. Truman Capote era viciado em drogas, álcool e sexo (e morreu novo por causa disso) mas não deixou de escrever bons romances: A Sangue Frio, Súplicas Atendidas, contos: Música para Camaleões, Boneca de Luxo, etc.; Jean Lorrain (pseudónimo de Paul Duval 18555-1906) era viciado em drogas, sobretudo éter, o que não o impediu de narrar os bastidores dos vícios da Belle Époque na sua vasta e numerosa obra escandalosa. Apesar de homossexual era viciado em mulheres que não lhe ligavam muito; mas por pouco não casou com uma prostituta de luxo, Liane de Poudgy; quando ela lhe disse que o seu corpo era um altar que merecia ser adorado, ele retorquiu:" Para quê o casamento num altar em que já tantas missas foram ditas...brancas, negras, cor-de-rosa?"A mãe, a Srª Duval encarregou-se de afastar a intrusa.

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  10. Seria interessante saber quantos vencedores e finalistas do Prémio LeYa fumam, são alcoólicos ou viciados em droga. Haverá quem fume, claro, mas, quanto ao resto...

    Os tempos mudaram. A sociedade era muito castradora, antigamente, e quem se quisesse libertar (e libertar os seus fantasmas), conseguia-o melhor entrando em excessos. Hoje em dia, não há tanta necessidade disso.

    Por isso, e para desgosto do Extraordinário Pacheco, os escritores hoje têm mais cuidado com a imagem, sim. Evitam excessos e são cuidadosos na sua alimentação. Metrossexuais e escritoras preocupadas com a linha, bem arranjadas e pintadas, já não são excepção. E ainda bem!

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