Leitores cegos

Tenho um grupo de amigos desde há muito, e uma dessas amigas, que tem um terrível humor negro, um dia decidiu inventar que todos nós iríamos envelhecer mal – excepto ela, evidentemente, que ficaria generosamente a tomar conta dos outros... A mim vaticinou-me uma espécie de cegueira progressiva (ela lá sabia que eu, sem ler, não conseguiria ser feliz); e, não contente com isso, ameaçou que, mesmo que eu aprendesse a ler livros em braille, mos passaria a ferro se eu me portasse mal… Com amigos assim, quem precisa de inimigos? Mas não se escandalizem, fazia tudo parte de uma brincadeira de velhos amigos (e garanto-vos que rimos até já não podermos com dores de barriga). Lembrei-me dela, aliás, por ler que a Secretária de Estado da Inclusão de Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, ela própria cega, prometeu que tudo fará para que no Plano Nacional de Leitura, mais cedo ou mais tarde, sejam incluídos livros em braille, uma vez que o PNL ainda não abrange «crianças invisuais» e estas têm tanto direito a ler como quaisquer outras. Uma boa decisão, digo eu (de que até poderei beneficiar se os vaticínios da minha amiga se concretizarem).

Comentários

  1. Excelente decisão.
    Tenho a certeza de que o "oráculo" não se vai concretizar porque para além de ler, tem de continuar a escrever belos poemas!

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  2. Excelente iniciativa, pois de facto ser cego é uma carga tremenda e a leitura pode ser outra bengala... se bem que me ponha muitas vezes a pensar, como é que se descreve e um cego consegue apreender conceitos como o da côr? Por exemplo...

    Saudações bem-vistas cá da Cidade Morena.

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  3. Seguidor atento e regular deste blog é com muita satisfação que a vejo Maria do Rosário referir-se à comunidade cega e aproveito para divulgar a Biblioteca Sonora da Biblioteca Pública Municipal do Porto existente desde 1972, serviço pioneiro no País, que tem por missão proporcionar gratuitamente aos cidadãos portadores de deficiência visual (cegos e amblíopes) livros gravados integralmente por 22 voluntários. Actualmente estão inscritos 305 utilizadores cegos que têm ao seu dispor um catálogo com 7.675 títulos, correspondendo a mais de 75.000 horas de gravação. A totalidade da colecção de fonogramas, analógicos e digitais, disponibilizada pela Biblioteca Sonora é pesquisável no Catálogo Publico de Acesso em Linha das Bibliotecas Municipais do Porto no separador ‘Áudio e Braille’ .
    Para os curiosos e interesssados aqui vão os contactos:
    http://bibliotecas.cm-porto.pt/

    Biblioteca Pública Municipal do Porto
    Biblioteca Sonora
    Rua D. João IV (ao Jardim de São Lázaro)
    4049-017 PORTO
    Tel. 225193480
    E-mail: bpmp@cm-porto.pt

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    1. Sinceros parabéns, Jorge. Bem como a todos os voluntários que dedicam o seu tempo e, tenho a certeza, o seu amor pelos livros a essa tarefa grandiosa.

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    2. Que coisa bonita uma biblioteca sonora. E eu nem me importava nada de gravar alguns poemas meus para os leitores da sua biblioteca...

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    3. Teria muito gosto que conhecesse a nossa Biblioteca Sonora e, pois claro, que gravasse alguns dos seus poemas. É só dizer quando!
      Será um grande prazer!

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    4. Que bom! Ficamos a aguardar a sua visita.

      Um abraço.

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  4. Creio que a Biblioteca Nacional de Lisboa disponibiliza um serviço semelhante a este do Porto.

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  5. Tanta coisa realmente importante ainda por fazer e nós nem nos lembramos, preocupados com ninharias...
    Espero que a Ana Sofia Antunes consiga levar o barco a bom porto e, já agora, que a Maria do Rosário também consiga gravar os seus poemas - crianças e adultos vão certamente gostar de ouvi-los.
    É sempre bom vir aqui, mas hoje foi especial.
    :-) Antonieta

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  6. Emílio Gouveia Miranda24 de novembro de 2016 às 08:51

    Eis um daqueles casos em que pode juntar dois dizeres populares: vale mais prevenir do que remediar e junte o útil ao agradável...
    Brincando um pouco com assunto tão sério, julgo que neste tipo de iniciativas é que deveria ser utilizado o «nosso» dinheiro - ou parte dele - destinado à cultura. A permitir que a cultura, neste caso em forma de livro, chegue às chamadas franjas mais desfavorecidas da sociedade...

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  7. Fico contente de ver esta notícia. Como pessoa cega, ao ler tudo isto, principalmente os comentários fiquei com uma termenda vontade de criar um blog para esclarecer a deficiência! É bom seguir o seu trabalho.

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    1. Crie por favor o seu blogue. Vai ser também muito bom para todos nós acompanhar o seu trabalho e ser esclarecido sobre as questões que conhecemos tão mal.

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    2. Posso saber como é que, sendo cega, lê os posts e os comentários?

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    3. Respondendo à pergunta: É bem simples, existe um programa, geralmente conhecido como leitor de ecrã, que efectua a leitura de todo o conteúdo que aparece no monitor. Isto funciona quer para computador quer para qualquer outro dispositivo.

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  8. A cegueira é um mal que me aflige deveras; por várias vezes tentei ser cega dentro de minha casa e é uma falta indescritível. Também já li para invisuais. É meritório todo o trabalho que se faça em prol de lhes facilitar a vida e a tornar mais semelhante à de toda a gente.

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