Invasores

Leio um interessante artigo de José Carlos Fernandes no Observador sobre a rapidez com que muitos vocábulos de língua inglesa estão a invadir o português, alterando o sentido que dávamos a palavras da nossa língua. Diz o autor que, por exemplo, «antecipar» sempre significou o contrário de «adiar», mas que, por causa do «antecipate», o verbo é agora usado por muita gente com a acepção de «prever», «esperar» ou «adivinhar», e não raro os nossos economistas «antecipam» a descida das taxas de juros e os promotores de espectáculos «antecipam» o sucesso de um concerto… Outa expressão que já entrou no nosso uso é «por defeito», uma tradução atabalhoadíssima de «by default» (que o Oxford English Dicitionary define como «por falta de oposição»); a expressão «por defeito» em português é muito antiga e significa «um valor aproximado e inferior àquele que é tomado como referência», portanto, nada que ver com defeitos de qualquer espécie. Há mais casos, claro, e o que me mais me põe os cabelos em pé é o «realizar» no sentido de «aperceber-se»… Vamos por isso fazer um esforço para não importar mais vocábulos invasores e usar os nossos, que ainda se extinguem. Combinado?

Comentários

  1. Acho que "realizei". Ou lá o que é. Não foi à Web Summit, pois não? Já agora, gosto muito de passar por aqui.

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  2. Emílio Gouveia Miranda22 de novembro de 2016 às 02:31

    Normalmente fala-se muito de escrever bem e de falar bem e esquece-se aqueles que corrigem e revêm. Raríssimas são as Editoras que revelam os méritos dos seus revisores e até muitas que prescindem deles... Neste Mundo supersónico tornou-se mais importante depressa do que bem.
    Julgo que, pelo menos no que à arte de escrever bem diz respeito, deveria apostar-se mais na qualidade das revisões.
    Bom, talvez isto tenha muito pouco que ver com o texto de hoje, ou, quanto muito, que lhe seja transversal, paralelo ou, quiçá, lateral, mas foi do que me lembrei de dizer.
    Bom dia e obrigado pelas suas partilhas diárias.

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    1. Concordo.
      A revisão parece ser uma profissão obsoleta. E já há vários anos.
      Impossível ler um livro sem uma gralha, um erro ortográfico.
      No "Stoner" (Dom Quixote), por exemplo há um verbo novo. EnXer.
      E fico-me por aqui.

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    2. Emílio Gouveia Miranda22 de novembro de 2016 às 06:42

      É pena, não é? Todos os dias nos deparamos com exemplos destes, vindos muitas vezes das mais inesperadas entidades... Mas nunca é tarde para melhorar, para mudar para melhor. Quiçá não aparece um dia uma Editora que possa apresentar-se como aquela que melhor trata a nossa língua. Seria interessante, não? Uma espécie de Editora gourmet, agora que o gourmet está tão em voga para designar «o raro», «a excelência», «o melhor dos melhores»...

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  3. Mais do que outro qualquer ouço o termo "atrás" usado em frases do género "há uns tempos atrás ", "há três meses atrás". Presumo que o foram importar ao "ago" do inglês. Só veio atafulhar, visto que basta usar "há" ou "atrás", um apenas, e está tudo dito.

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  4. Basta atentar na quase totalidade dos títulos dos programas de Televisão. É o lodo e a total falta de imaginação em toda a sua plenitude. Autênticos bonecos de imitação, carneiros de alto a baixo, é a carneirada no seu melhor, só sabem dizer LOL LOL e colocar os dedos em V para a selfie.São os não sei quantos Ralf, os não sei quantos carreiras, enfim, é uma absoluta tristeza!
    À hora nobre na RTP1, aí está o BIG PICTURE, onde de vez em quando se fala português com um bimbo da Cruz de Pau armado em engraçadinho sem a mínima piada.
    Mas é isto que o povo quer (como eles dizem-assim lhes convém).

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    1. Ó Senhor Seve,

      Seve de severo? O seu comando de Tv não tem um botãozinho para desligar?
      Só vê quem quer não é?
      Não se desgaste e antes de criticar olhe primeiro para quem tem em casa ou até para quem já saiu.

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  5. O caso trágico de "realizar" é uma luta que já perdemos. Até nos novos dicionários surge com o sentido de "aperceber-se".

    (real + -izar)
    verbo transitivo
    1. Tornar real, efectivo.
    2. Efectuar, executar.
    3. Conceber de uma maneira nítida, como real; dar-se conta.
    4. Converter em dinheiro ou em valor monetário.
    5. Cumprir com as obrigações.
    6. Proceder à realização de um filme, de uma emissão de televisão ou de rádio.
    7. [Música] Completar, numa partitura antiga, os acordes impostos pela sua nota de baixo cifrado. (Este trabalho era antigamente confiado ao copista.)
    verbo pronominal
    8. Tornar-se real.
    9. Efectuar-se.
    10. Acontecer.

    "realizar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/realizar [consultado em 22-11-2016].

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  6. Estamos a ser invadidos, e não é por espanhóis nem extra-terrestres!
    Se puderem leiam a excelente crónica do Paulo Varela Gomes, publicada no Publico em 2010, sobre este assunto:

    https://www.publico.pt/opiniao/jornal/e-falar-portugues--vai-desejar-19887093

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  7. Têm todos muita razão!
    MAS:

    Primeiro - a globalização, sim ela, a modernidade e a facilidade nas comunicações feitas em tempo real (em logística diz-se "jit" - de just in time). Por causa de ambas e a reboque do facto de hoje se falar inglês correntemente em todo o Mundo, as gírias ou linguagem técnica cão quase sempre em inglês pelo seu pragmatismo, facilidade e transversalidade. Por exemplo "feed back" é mais simples de dizer do que retroalimentação negativa!
    Portanto é o preço da globalização e da modernidade.
    Muitos me criticam porque sou aficionado e caçador, coisas retrógadas e inaceitáveis nos dias de hoje... pois é capaz de ser, mas os dias de hoje se servem para justificar o fim daquilo também servem para justificar a inclusão dos vocábulos em inglês, é um pau de dois bicos, do qual só se usa ou quer aceitar um...

    Segundo: Não se preocupem!
    É isto que faz do português uma língua viva e sobretudo tão rica!
    Haja sim o perfeito domínio e conhecimento do nosso vocabulário, agora mais rico com os novos termos incluídos!
    E, compete de facto aos tradutores e revisores fazer esse serviço de extensão ou divulgação. O que nos leva a dizer que ler é o melhor remédio!
    Leia-se, leia-se muito!!!!

    Sem maka! Saudações sudorosas cá da Cidade Morena!

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  8. É verdade que estas importações acontecem e não gosto delas. Há muitas outras. Agora já não oiço dizer 'exprimir' mas o foleiríssimo 'expressar'...
    Gosto ainda menos do uso de palavras inglesas entre palavras portuguesas, em que são useiros e vezeiros adolescentes e académicos. Alguém sabe que input pode traduzir-se por induto? E output por eduto?

    Mas o que me irrita mais são os erros sintácticos. Tenho quase a certeza de que alguns 'grandes' escritores contemporâneos da língua portuguesa não sabem que o correcto é "Apercebi-me de que ficaste incomodada" e não "Apercebi-me que ficaste incomodada", por exemplo... Basta abrir um dos seus livros (com nobres excepções, como, por exemplo, Mário de Carvalho) para ler uma caterva de erros deste tipo. O que demonstra que não aceitam as correcções dos revisores ou que os revisores também não são grandes revisores... Ou, talvez melhor, que o português mudou e eu não sabia...

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  9. Bom. parece que a minha opinião é um pouco contrária. Julgo que a existência de mais significados para um vocábulo só o enriquece e à língua que os adopta; não é necessário esquecer os sentidos já existentes. Mais, julgo que a riqueza vocabular ganha novos cambiantes e parece-me ser esta uma das formas que toma a natural evolução linguística. E também penso que começar uma história com "há muitos anos atrás" é diferente de começá-la com, "há muitos anos". Quero com isto dizer que algumas repetições são propositadas e caem como sopa no mel (dizem vocês que caem mal e talvez caiam, mas nem me parece).
    Concordo no entanto com a existência de revisores de texto (e já agora de tele texto) que saibam da poda. Ou, usando aquilo que aqui é criticado, do métier (ainda que eu não seja estudante nem académica). A qualidade de um revisor é fundamental. As nossas revistas semanais andam crivadas de erros e incorrecções linguísticas.

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    1. Soa-me tão mal "Há muitos anos atrás" como "Subir para cima", "entrar para dentro" ou "sair para fora". Para mim, ou "Há muitos anos" ou "Muitos anos atrás" (quando quero ser mais enfático); não consigo, intencionalmente, cometer o erro que agora toda a gente comete.
      Mas por haver pessoas que pensam como a Beatriz é que hoje falamos português e não latim.

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    2. ...quer dizer que temos crescido de erro em erro, atirando ao ar os purismos. Pois não foi mau o percurso que deu origem à quarta língua mais falada no planeta e com que tanto artista criou mundo.

      Se conto histórias digo mesmo "há muitos anos atrás..." Ou "Há muitos, muitos anos...". E o tempo alonga, nasce um ambiente de conto. Não o sinto um pleonasmo idêntico a "subir para cima" ou afins. Coisas.

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  10. Pior do que usar certas palavras é usá-las mal.
    Estou a lembrar-me, por exemplo, do eventually habitualmente traduzido por eventualmente.
    Mas não me parece assim tão mal que, de forma coloquial, usemos algumas expressões estrangeiras de quando em vez - até acho
    engraçado.
    Agora na escrita literária o caso muda de figura...
    :-) Antonieta

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  11. E a secção de classificados dos jornais? É uma razia, com o "search de potenciais candidatos", o "assessment de competências", a "criação de pipe lines de talento", os "programas de trainees", o "positive e high value" , o "branding", ou o "encontrar High Potentials" e o "promover o seu engagement"... não está fácil navegar nestas páginas agora depois dos 40.

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  12. O mais possível! Co o "realizar" também tenho arrepios!

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  13. Introduzir erros na linguagem pode fazer evoluir a língua e foi esse um dos fatores que transformou o Latim no Português, como penso que disse o Extraordinário das 1706 h. Bem gostaria que houvesse um pouco mais de liberdade nesse campo, bem gostaria de escrever tamém em lugar de também, por exemplo.

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  14. Há uns tempos li que Eusébio era "uma verdadeira legenda do futebol". Assim mesmo. "Legenda"? É verdade que Eusébio manteve sempre a pronúncia moçambicana mas nunca precisou de legendas para que o entendêssemos na perfeição. A parvoíce é provocada pelo aportuguesamento acéfalo do inglês "legend".

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  15. Mas a língua não é uma coisa viva? Dizemos "chá" e "pijama" e tantas e tantas outras palavras que não são portuguesas e que só vieram enriquecer a língua.
    Aflige-me e preocupa-me o atropelo feito ao Português por um Acordo artificial de gabinete. Não me aflige e menos me preocupa a evolução natural da língua pelos seus falantes. Preocupa-me e aflige-me a pouca diversidade de vocabulário que noto nos falantes mais novos como me preocupa e aflige o desconhecimento dos mecanismos formais básicos da língua. As importações, os neologismos, os estrangeirismos não me afligem nem preocupam porque é assim que todas as línguas evoluem no tempo.
    E sim, eu tenho muitas vezes dificuldade em fazer traduções mentais para Português quando tenho de falar depressa e "realizo" segundos depois de dizer a palavra que me enganei. Nem sempre, porém, consigo corrigir o erro porque nem sempre me lembro de como se diz em Português...

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