O que ando a ler

Confesso: às vezes, sou uma maria-vai-com-as outras… Antes de ir para férias, a minha amiga Aldina Duarte, fadista, pediu aos seus amigos facebookianos que lhe aconselhassem livros. Na altura, o escritor Mário de Carvalho recomendou-lhe a leitura de O Homem Que Via Passar os Comboios, de Georges Simenon, e eu, que estava a acompanhar as sugestões, fiquei logo com a pulga atrás da orelha porque nunca tinha lido o romance, quiçá porque raramente me vire para autores de policiais. O livro, ao que parece, está esgotado, mas tive sorte: o Manel tinha a velhinha edição da Dom Quixote nas suas estantes (embora eu creia que o tenha na colecção MilFolhas, do Público, mas já não tenho a certeza nem sei onde está). E não é um policial, embora inclua mortes e perseguições; é um romance psicológico surpreendente publicado no final dos anos 1930 (com a guerra à porta) que acompanha Kees Popinga, o protagonista, num périplo curioso, de Groninga (onde era apenas um bem-comportado e um contido funcionário de uma empresa naval) até Paris (onde, depois de assassinar a amante do patrão, deambula por bares e cabarés, mata mulheres a sangue-frio e desafia permanentemente a polícia e os jornalistas, oferecendo-lhes pistas sobre o seu próprio paradeiro e comentando com ironia as notícias que vão saindo sobre os seus crimes). Inesperadamente, achei o estilo algo reminiscente de autores da Europa Central, como Walser ou Marai (Simenon é belga), o que muito me agradou, e apreciei muitíssimo esta metamorfose que mostra como os homens são cheios de mistérios e recalcamentos e, não raro, por detrás de um choninhas está um tipo agressivo e violento. Se o encontrarem por aí, não fiquem a ver passar os comboios.


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Comentários

  1. É de facto um livro extraordinário. Reli-o não há muito tempo e nessa releitura encontrei algumas semelhanças com O Estrangeiro do Camus, na frieza e indiferença com que matava as vítimas.
    Setembro foi um bom mês de leituras. Destaco aqui 2 livros que gostei imenso de ler:
    - A Vegetariana, Han Kang
    - Numa Casca de Noz, Ian McEwan.
    Neste momento estou as ler Viagens com o Charlie, do Steinbeck, que vou alternando com contos e crónicas do Nelson Rodrigues.
    :-) Antonieta

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    1. ... estou a ler Viagens com o Charley.
      Antonieta

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    2. Steinbeck é um grande, grande escritor, não é?

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    3. Sem dúvida, Severino. Gostei de todos os livros que li dele até agora.
      E alguns deram magníficos filmes como, por exemplo, "A Leste do Paraíso" e "Ratos e homens", para só citar dois.
      :-) Antonieta

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    4. Do Steinbeck li quase tudo (o que estava traduzido em Portugal) aqui há uns vinte e tal anos.
      Estou a pensar em relê-lo, mas estou com "medo" de apanhar alguma decepção.

      A propósito de John Steinbeck apetece-me aqui relembrar um facto muito curioso, que até parece anedota. Naquela minha altura da paixão pelo escritor de Salinas andava eu (às escondidas) a amealhar e a contar os tostões com a intenção de comprar uma obra magnífica sobre escritores - "O DICIONÁRIO BIOGRÁFICO UNIVERSAL DE AUTORES" da Bompiani, Valentino (dir.), em 5 volumes, representada em Lisboa (na altura) pela Artis, ali para a Rua das Trinas, aonde me desloquei (lembro-me de ter falado com duas irmãs vestidas de preto, já idosas), e sabem porque é que o não comprei: é que, acreditem que é verdade, neste dicionário de autores não constava o John Steinbeck. Se quiserem confirmar este facto, quase inacreditável, basta ir a um alfarrabista (quase todos o têm à venda); parece mentira mas é verdade!

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  2. Por arrasto de O fim do homem soviético de Svetlana Aleksievitch que será o próximo livro da comunidade de leitores que coordeno, estou a reler Os filhos da rua Arbat de Anatoli Ribakov.

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  3. Obrigado pela recomendação do "Uma Parte Errada de Mim" do Paulo M. Morais ! Li-o quase todo durante o fim de semana e é de facto um prazer imenso estar com este criador, que eu desconhecia, e que tem uma voz muito pessoal e muito tocante, para além de uma deliciosa qualidade estilística. Que bom ler um escritor que, ao meditar sobre a sua vida e a sua doença grave, fala de literatura, de outros escritores, do prazer da descoberta da ficção, de música e de cinema. Um escritor que é também um homem culto não é tão frequente como às vezes damos por adquirido. As suas memórias/reflexões sobre a infância, a família, os amigos e o prazer da vida são talvez mais marcantes do que a narrativa das suas vivências como doente com linfoma. Irei comprar o seu "Revolução Paraíso" e espero que a Leya publique o romance do Paulo M. Morais que foi finalista do prémio. Como digo, não é fácil ter o dois em um: um grande escritor que é também um homem culto que gosta de falar, sem solipsismos, do prazer da fruição cultural. Paulo M. Morais é um novo autor (para mim) que irei procurar e seguir atentamente. Ontem, numa Casa da Música cheia, dei comigo a pensar: porque será que o Paulo M. Morais ainda não teve uma divulgação mediática como aquela que estou agora mesmo a presenciar ?

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    1. Convenceu-me, Artur!
      Vou mesmo comprar o livro do Paulo M. Morais.
      :-) Antonieta

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    2. Caro Antonieta, espero que venha a ter tanto prazer como eu tive ao ler o livro do Paulo M. Morais. Já encomendei o primeiro romance dele "Revolução Paraíso". Leio sempre com muita atenção as suas sugestões. Boas leituras !
      Abraço,
      Artur

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    3. Obrigada, Artur!
      Eu também estou sempre atenta às suas sugestões, bem como às de todos os Extraordinários.
      Abraço,
      Antonieta

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  4. Como sou péssimo em títulos fiquei na dúvida se já o teria lido, mas o pequeno resumo tirou-me todas as dúvidas.
    É um daqueles livros estranhos, que nos agarra pela manga do casaco e só nos liberta no fim.

    Estou a ler e a gostar da "Tenda dos Milagres" de Jorge Amado (livro que tinha como destino o lixo, mas que eu resolvi "salvar" em boa hora, armado em "encadernador"...).

    Antes li e também gostei (apesar da simplicidade) de "A Liberdade do Drilble" do Dinis Machado.

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    1. Não acredito que o Luís deite livros pró lixo, não acredito!

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    2. Claro que não, Severino! O que o Luís fez foi salvar o livro do lixo, através do seu meritório trabalho de bibliotecário voluntário na Incrível Almadense.
      Pode ser lido no Largo da Memória, o blog do Luís Milheiro.
      E eu só posso aplaudir!
      :-) Antonieta

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    3. Eu tinha quase a certeza que não, por isso isso mesmo eu disse: Não acredito que o Luís deite livros pró lixo.

      De qualquer modo, obrigado Antonieta pelo esclarecimento —conheço e frequento, quase diariamente, o belo "LARGO DA MEMÓRIA", mas desconhecia que o Luís Eme fosse bibliotecário na Incrível Almadense.

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    4. Não é bibliotecário (penso eu), faz voluntariado como bibliotecário e, neste caso, até como encadernador quando é necessário.
      :-) Antonieta

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    5. Agradeço as vossas palavras, Antonieta e Severino.

      Eu falei em "lixo" porque aparentemente o livro com as paginas soltas, página a página, dificilmente teria salvação. Acho que o levei para casa por teimosia (e claro por gostar de livros...). Armei-me em encadernador e já vou a mais de meio e só há uma folha solta (fontespício), porque não deve ter ficada ao mesmo nível das outras... E estou a gostar deste regresso a Jorge Amado e ao realismo mágico da latina-américa.

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    6. Faz-me sentir melhor saber que ainda há pessoas assim; obrigado!

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  5. À falta de exemplares à venda, nas várias Bibliotecas de Lisboa há 11 exemplares do livro. Não há desculpa para não ler!

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  6. Ando a Ler_48

    Andava eu às voltas no google a procurar já não sei o quê, e eis que se me depara uma interessantíssima entrevista de Anabela Mota Ribeiro a António Alçada Baptista, feita em 1999, a propósito do então recente lançamento de «O Tecido do Outono».

    E lá vou eu vasculhar a ver se descubro onde diacho é que deixei esquecido este livro, que me lembro de ter desejado lê-lo, mas que, pelo que vejo na entrevista, parece-me que acabei por não ler...

    Vamos por partes. Na entrevista ele diz coisas como as seguintes:

    «Há uma coisa em que sou um mau romancista: é na impossibilidade de escrever coisas que não tenha conseguido viver. Por outro lado também descrevo coisas da minha experiência imaginada. Se conheço alguém e imagino ter um romance com esse alguém, descrevo-o e não quer dizer que se tenha passado. »
    (...)
    «Tenho relações óptimas com mulheres feias. A grande vantagem da mulher sobre o homem é que ela já é capaz de amar um homem feio. Porque o vê por dentro. Tenho a impressão que as mulheres com uma certa maturidade interior, embora achem piada a um tipo bonito, não sei se são capazes de viver ou casar com um tipo só por ele ser bonito.»
    (...)
    «Temos que encontrar uma fórmula de as pessoas se amarem em que o corpo não possa ser posto de parte. »
    (...)
    «Uma coisa é o amor, outra é o casamento. O Denis de Rougemont diz, e com razão, que a crise do casamento começou quando os casamentos começaram a ser feitos por amor.»
    (...)
    «O que tento dizer neste livro é que há necessidade de uma nova formulação da relação homem-mulher.»
    (...)
    «Não quero que ninguém tenha de mim uma má recordação. Não é para isso que fomos feitos. O projecto humano é qualquer coisa de que temos só ainda uma intuição. Ainda não descobrimos como se amam as pessoas. A grande questão é pensar nas subtilezas do amor; como se ama uma mulher, por exemplo. Quando a gente tem menos desejo é um bom exercício. O desejo é muito bom mas baralha muito as relações. A paixão é uma psicose e ela vem dos interditos ao desejo.»
    (...)
    «Vivemos numa cultura em que o homem de uma certa idade é posto de fora dos jogos do corpo e do prazer. Realmente o que é importante é que sejamos capazes de olhar para o nosso Outono e de saber que é uma nova etapa.»

    + + +

    Pois bem: tudo isto é claramente a matéria-prima, o “tecido” da ficção narrada no livro.

    Só um exemplo, colhido na penúltima página:
    Após diversos afastamentos e reaproximações nos anos de transição para o Outono [ver em especial a (digo eu…) extraordinária relação de Filipe com Bárbara, desenvolvida várias vezes ao longo do livro], Filipe, o personagem/narrador, diz à sua mulher Matilde, a rematar um êxtase erótico finalmente vivido por ambos, já entradotes:

    «As relações de sexo podem ser vividas enquanto somos novos, mas os encontros de amor exigem essa maturidade, quase a ausência do desejo. Gosto de estar aqui contigo, fazer festas no teu corpo já cheio de tempo, apetecer-me beijar-te porque estou a beijar a tua história pessoal, aquilo que viveste, as tuas alegrias e as tuas dores. É nestas coisas que sinto que envelhecer é uma arte e que o amor só se vive plenamente quando o desejo já não comanda o nosso encontro mas sim aquilo que somos e a qualidade da nossa relação»
    ... ... ...
    Em suma, Alçada Baptista bem nos diz, lá na entrevista, que «O projecto humano é qualquer coisa de que temos só ainda uma intuição.»
    Dá que pensar...

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    1. Um grande escritor injustamente esquecido.
      Na página 149 ele escreve assim:
      «Em teoria, ter anos é bom. Mas o pior é o corpo que começa a revelar o seu cansaço, a recusar acompanhar-me nos meus sonhos que persistem.»
      O meu livro tem inúmeras frases sublinhadas. E adoro a capa com uma belíssima outonal folha de plátano.
      :-) Antonieta

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    2. Li há muitos anos (talvez cedo demais) o Tecido de Outono e adorei o livro. É o meu preferido de Alçada Baptista.

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    3. É talvez chegada a altura de a Francisca reler o livro.
      Diz-me a experiência que reler – no sentido de “ler com outros olhos” – é, regra geral, melhor do que apenas ler.
      A primeira leitura é, por natureza, superficial.
      Reler é que é a descoberta.
      E este livro tem muito essa potencialidade, é muito rico.
      Hei-de relê-lo, lá mais para diante no meu Outono...

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  7. "OBLOMOV" - Ivan Goncharov - A história do bom e preguiçoso Oblomov, um tipo apático e adormecido, um preguiçoso e desinteressado que não se preocupa com o mundo à sua volta que encolhe os ombros a tudo, não se perturba, não se aborrece, não faz ondas de espécie nenhuma numa Rússia esclavagista onde imperam a injustiça e as leis duma sociedade que só poderia ser radicalmente alterada, como o viria a ser mais tarde. São quase seiscentas páginas e letra miudinha, é um livro para ir lendo e digerindo uma das obras primas da literatura russa de meados do século XIX. Uma edição miserável do Círculo de Leitores (Jun 1973), com erros página sim página sim, letras e frases trocadas - uma revisão de Jorge Alvarez, tradução de Daniel Gonçalves, Composto em Garamond 10.

    Nota: - Simenon - grande escritor, "O homem que via passar os comboios" grande livro, imperdível, Kees Popinga, o protagonista - colossal.

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    1. Sendo assim, não difere muito da nova edição da Tinta-da-China. Gralhas constantes, erros ortográficos, erros de paginação. O livro é magistral mas parece que as edições portuguesas não lhe dão o devido valor. A capa é muito gira, claro, mas não compro livros pela capa. É de realçar que estou a falar de um livro de 32 Euros. Acho absolutamente vergonhoso. Mais vergonhoso ainda são os críticos literários não ousarem falar quanto a esta falta de exigência das editoras.

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    2. Concordo inteiramente com o comentário sobre "Oblomov".
      Uma pena que tanto as editoras quanto os leitores sejam tão pouco exigentes.

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  8. Confirmo, o livro do Simenon é o número 8 da Mil Folhas e vou aceitar a sugestão. Entretanto leio Os Poetas Mortos Não Escrevem Policiais, de Björn Larsson. Em francês, pois não existe ainda tradução para português.

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  9. Emílio Gouveia Miranda3 de outubro de 2016 às 10:57

    Tenho; nunca li. Também fico com a pulga atrás da orelha.

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  10. Ando a ler "Humilhados e Ofendidos" de Dostoievski: descreve a dura realidade e miséria entre classes sociais, bem como a profunda psicologia das personagens, na São Petersburgo do séc. XIX. Simultaneamente comecei a ler a "Adoração" da Cristina Drios, edição da Teorema. Revela a vida trágica do génio Caravaggio (um dos meus pintores favoritos) com base na temporada que passou na Sicília e onde pintou o quadro "A Adoração" e que foi roubado do Oratório de S. Lourenço, em Palermo, em 1969 e desaparecido até hoje. Mistura o desaparecimento do quadro com a actualidade envolvendo um atentado perpetrado pela Máfia e posterior investigação.

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