Croquetes para um editor

O meu primeiro editor (sem contar com uma ninharia que assinei com pseudónimo e que, na altura, me permitiu comprar um frigorífico novo) foi Fernando Guedes, o senhor que mandava na Verbo e que, infelizmente, morreu há menos de um mês. Era um homem sábio, culto e divertido que, não tendo nunca abdicado das suas posições, tinha uma inteligência e uma abertura admiradas até pelos seus adversários. Foi na Verbo que publiquei os meus livros juvenis, o primeiro dos quais, escrito a meias com Maria Teresa Maia Gonzalez, ganhou o Prémio Verbo/Semanário. Quando fomos assinar o contrato, eu achei as condições bastante mazinhas (tendo em conta que era um contrato para uma colecção e que o primeiro livro dessa colecção recebera um prémio) e disse, quiçá um pouco desabridamente, que, para receber aquilo, talvez fosse melhor vender croquetes…  Fernando Guedes – que, mesmo não me conhecendo bem, deve ter intuído logo ali a minha falta de jeito para a cozinha – perguntou imediatamente se eu por acaso sabia fazer croquetes… Na reunião seguinte, levámos-lhe então uma caixa de croquetes magníficos (feitos, claro, pela empregada da minha mãe) para ele provar. E ele provou mesmo, dizendo que a nossa atitude demonstrava que tínhamos sentido de humor e que isso só podia ser bom para a colecção que nos encomendava. Resultado, acabou por concordar com a nossa proposta de contrato. Esse foi só o primeiro contacto com um verdadeiro senhor, com quem iria publicar duas colecções de livros ao longo de muitos anos. Fernando Guedes foi poeta, ensaísta, editor e muito mais. Vai fazer falta, tenho a certeza, a quantos tiveram a sorte de o conhecer.


 


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Comentários

  1. Não conheci o Senhor, e nem sabia quem fosse!
    Porém, a Verbo é para mim uma referência, dado ter-me proporcionado tanta leitura e ajudado na minha formação de leitor variegado. Sobretudo as enciclopédias, e claro muitas outras edições tanto juvenis quanto adultas que compõem a minha biblioteca.

    Creio que um Editor deste estatuto será sempre uma pessoa com perfil mais alto que os outros humanos. E digo creio, pois não privo com nenhum desses grandes editores de nomeada e nem dos outros... conheci superficialmente o Sr. Francisco Lyon de Castro que era mesmo alguém, mas imagino que o devem ser práticamente todos, pelo trabalho que tenham feito e chega até nós leitores que sendo atentos conseguimos perceber as diferenças na obra.

    Saudações editadas cá da Cidade Morena

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  2. Emílio Gouveia Miranda26 de setembro de 2016 às 05:29

    Paz à sua alma e longa vida à sua obra...

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  3. Talvez tenha só ido dar uma volta ao outro lado.
    Prefiro pensar assim, quando partem seres que nos fazem falta de alguma forma.
    Não conhecia o senhor, não mais que o Oscar Niemeyer, Gabo ou mesmo o Malangatana.
    Para onde irão todos os inúmeros conhecimentos que aprenderam ao longo da vida, uns ficaram escritos, é certo, e os outros?
    Os outros, talvez sejam um caminho para de novo se inventar, para se refazer.
    Uma forma como qualquer outra de contrariar o absoluto.
    Conheci o Malangatana pouco tempo antes dele morrer. Tivemos uma longa conversa. Era majestoso e frágil ao mesmo tempo, imanava dele uma bondade imensa, que me escuso a descrever, para quem não acredita em anjos.
    O Mestre na altura bordava um desenho seu, ponto a ponto, num intricado de cores que só ele sabia conjugar.
    Era uma fénix.
    Quem sabe, " ...what tomorrow will bring."

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  4. Cláudia da Silva Tomazi26 de setembro de 2016 às 10:03

    As vezes é tão simples quanto delicado o gesto querer bem embora a história se lhe seja resultado de esforço e sapiência.

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  5. Vivo com a sensação talvez palerma de que há gente demais a fazer falta. Ou talvez haja gente de menos para ocupar os lugares sem lhe roubar qualidade.

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  6. Que notícia tão triste. Não sabia do falecimento de Fernando Guedes, um cavalheiro e um homem tão verdadeiramente culto. Eu tive o privilégio e a honra de ter traduzido alguns textos para a Verbo, e de me ter cruzado uma vez com Fernando Guedes, que comigo trocou algumas palavras amáveis. Tenho saudades desses tempos. A Verbo, para além de editora de grande (enorme) prestígio, era ( Fernando Guedes fazia questão disso) honradíssima no trato com os seus tradutores. Que pena ter acabado como acabou. Alguém prometeu regenerá-la mas fez um fraco trabalho. Espero que os meus antigos colegas e funcionários da Verbo se encontrem bem. Fernando Guedes assim o desejaria.

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