Aconselhar
Existe uma panóplia de autores consagrados (Hemingway é um dos exemplos mais gritantes) que generosamente partilharam os seus conselhos e experiências com os que então começavam ou queriam começar a escrever. Recentemente, apanhei já não sei bem onde – creio que no site de uma escola que ministra cursos de Escrita Criativa – uma série de conselhos bastante úteis do escritor mexicano Carlos Fuentes que, entre muitos outros galardões, recebeu o Prémio Cervantes e o Prémio Príncipe das Astúrias pela sua obra. Pois além de afirmar que é preciso ter lido, e lido muito, antes de qualquer um se abalançar a escrever o seu próprio livro, Fuentes refere coisas curiosas, como a de que «não há inovação que não se sustenha na tradição» e que só assim um autor de antanho se converte em autor actual e o autor actual em autor de amanhã; e diz ainda que ninguém se deve deixar seduzir pela ideia do êxito e da imortalidade, até porque a maioria dos best sellers morre em pouco tempo e os seus autores logo caem no esquecimento. Refere que há que prestar muita atenção à categoria do tempo, pois é ele que transforma a história em poesia ou ficção, e que um escritor nunca se deve limitar a reflectir a realidade objectiva, devendo acrescentar-lhe sempre algo de forma a enriquecê-la e transformá-la em realidade literária. Outra das suas máximas – mas essa sabe toda a gente que escreve – é que, uma vez publicado, o livro deixa de pertencer ao autor. Boas dicas para futuros e presentes escritores.
Apesar de todas as dicas de autores consagrados penso que depois de Dickens, Dostoievski, Tolstoi, Hugo, Proust, Céline, Stendhal, Joyce, Musil, Mann, etc. será hoje difícil para qualquer um ser original...Vejo mais possibilidades de aparecer inovação na poesia do que na ficção; quanto á imortalidade disse o filósofo norte-americano George Santayana : "O facto de ter nascido, é, para o Homem, um mau augúrio quanto à imortalidade".
ResponderEliminar" O facto de ter nascido, é, para o Homem, um mau augúrio quanto à imortalidade".
EliminarConcordo consigo e atrevo-me até a pensar que o João Ubaldo Ribeiro também, lá do panteão dos imortais, onde se encontra:).
Saravá
Ler, ler muito e, já agora, viver qualquer coisinha, fora do ambiente depressivo da sua própria mortalidade progressiva.
ResponderEliminar«...um escritor nunca se deve limitar a reflectir a realidade objectiva, devendo acrescentar-lhe sempre algo de forma a enriquecê-la e transformá-la em realidade literária.»
ResponderEliminarEsta afirmação suscita duas leituras, e pretendo refletir sobre uma delas apenas.
Quando um romance se inspira em acontecimentos reais que, depois de tratados literariamente, implicam a reação de familiares descendentes relacionados com esses acontecimentos, quase sempre surgem conflitos entre o escritor e esses familiares, porque estes, mesmo com formação literária, não toleram que o romance seja uma transfiguração da realidade objetiva. Por vezes, o conflito estende-se até ao tribunal.
ABC
Caro Antes Bravo que Calado(ABC),
EliminarPus-me aqui a magicar, sobre o imbróglio de um escritor escrever sobre a vida real e sinceramente não me parece nada trágico.
Embora saiba por aí que alguns tiveram problemas, como a Júlia Alvarez ou a Isabel Allende.
O parágrafo que transcreveu é bastante elucidativo. Mas vamos aos exemplos, e aqui ressalvo que é mesmo um exemplo e tal como nos filmes " The persons and events...blá, blá, blá...is unintencional."
Se um autor tem mesmo de contar uma história verdadeira e que se passou com ele, mas há o perigo de ferir susceptibilidades, pode sempre alterar os nomes, as geografias.
Penso que a história não fica menos verídica por isso.
Por exemplo o autor pretende relatar" tout court " -a Ermelinda que era muito parecida com o pai, e a primeira impressão, aquela que saltava mais há vista era um impressionante buço, que há gerações fazia história na Guarda Nacional.
Bom, por mais verdade que seja, ninguém gosta de se ver assim relatado, como tal à que substituir o nome. De Ermelinda passa a Maria Luísa ou se tiver jeito para estrangeirismos um nome exótico que não lembre a ninguém, tipo a Bromelisse Maria. Altere também o nome das terras, se se passou em Ovar, rebatize a cidade com um nome impossível de descobrir no mapa.
E se a história for mesmo muito fidedigna e tiver sido editado, não ofereça o livro no Natal á família. Opte por um pseudónimo, que assim a história é contada, com a devida distância, o autor desassombra-se e ninguém lhe pode levar a mal.
Puck
Parece-me que o nosso amigo Puck tem um probleminha com os "aa".
Eliminar- Saltava mais há vista???
- à que substituir???
- á família???
Vamos lá rever isso, ok?
João
:) Obrigado João,
EliminarTenho mesmo, acho que já nem preciso de assinar, se tem problemas no A, é meu.
Também a mim tocou esta afirmação em particular:
ResponderEliminar- ... "e que um escritor nunca se deve limitar a reflectir a realidade objectiva, devendo acrescentar-lhe sempre algo de forma a enriquecê-la e transformá-la em realidade literária. " (sic)
Se bem percebo o que significa e o que o seu autor quis dizer, parece-me que é isso exactamente que confere imortalidade à obra, ou, faz dela uma obra prima, um clássico portanto.
Quem o consiga, faz parte daquela categoria dos grandes escritores que são lidos para sempre. Um "best-seller" pode marcar mais não seja pela sua oportunidade (o romance certo na altura certa) e contexto, mas se não tiver aquilo que se refere, de intemporalidade e universalidade, será esquecido e não entra no panteão da imortalidade.
Estarei a interpretar bem as palavras do autor?
Saudações mortais cá da Cidade Morena!
O Tempo apura a qualidade e aprimora-a, bem como acentua e expõe o defeito.
ResponderEliminarE, se não houver assunto, talvez ler As Seis Propostas para o Próximo Milénio, de Italo Calvino, possa ajudar.
ResponderEliminarJá agora, parabéns à autora deste blogue! Espero que tenha um dia muito feliz.
Diz a Anabela: «E, se não houver assunto, talvez ler As Seis Propostas para o Próximo Milénio, de Italo Calvino, possa ajudar. »
EliminarTambém acho, Anabela!
Do pouco que julgo conhecer da actual Literatura, parece-me que Italo Calvino é um dos (“talvez”) raros escritores que – não apenas na obra por si referida, mas em várias outras – explora e propõe novas perspectivas e possíveis soluções para a sobrevivência (renascimento?...) da Literatura no futuro.
O facto é que, “não havendo assunto” – ou “talvez” havendo cada vez menos – ele é pioneiro a explorar o assunto da própria Literatura em si.
O qual “assunto”, embora (por enquanto) “talvez” ainda não pareça, tem muito mais que se lhe diga – e “talvez” isso “possa ajudar”…
Não sei se alguém faz caso delas (as dicas). A mim me parece que sejam outros os seus problemas. Mas são bons conselhos.
ResponderEliminarTambém não julgo que um escritor seja fiel à realidade, pela simples razão de não conseguir. O real é um tronco sem graça que o escritor pega e faz dele uma árvore garrida e farfalhuda, um chapéu de sol irisado, a esquina de uma casa com varanda, o varal de uma corda onde a roupa se pavoneia a enrugar e desenrugar em estalidos de limpeza. E muitíssimo mais.
No site da "The Paris Review" podem ser lidas longas e muito interessantes entrevistas a muitos dos ditos grandes escritores. Transcrevo uma pergunta feita por Jean Stein a William Faulkner:
ResponderEliminarQuestion: «You mentioned experience, observation and imagination as being important for the writer. Would you include inspiration?»
Answer: «I don't know anything about inspiration because I don't
know what inspiration is - I've
heard about it but I never saw it.».
Achei interessante e lembrei-me logo daquela máxima que diz que para escrever um livro é
necessário 1% de inspiração e 99%
de transpiração.
:-) Antonieta
Um magnífico receituário. Aquele acréscimo, que é fundamental, não se conseguirá produzir se não houver talento. Este ingrediente bem merecia constar de forma explícita.
ResponderEliminarA leitura do magnífico "Quem Disser o Contrário É Porque Tem Razão" do Mário de Carvalho também vale a pena. É excelente e um gesto de muita generosidade por parte de um grande autor.
ResponderEliminarJá li o livro do Mário de Carvalho e concordo consigo. Aprende-se muito acerca dos pequenos meios literários cá parvónia...
EliminarÉ da parvónia obviamente...
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