O que ando a ler

Como leio sobretudo livros inéditos – muitas vezes sou, de resto, a primeira a lê-los antes de os publicar – gosto de regressar regularmente aos clássicos para não dizer que me fui desta vida sem ler os autores que, afinal, já provaram tudo, resistindo as suas obras ao fim de anos e anos de terem sido escritas. Voltei agora, por isso, a Knut Hamsun, o norueguês que nasceu em 1859, foi aprendiz de sapateiro e ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1920, tendo morrido já depois dos noventa anos. Em Fome, um dos seus mais conhecidos livros (a par de Pan), o autor descreve os delírios de um escritor vagabundo e faminto pelas ruas da cidade que hoje se chama Oslo, falando consigo mesmo e com Deus, passando frio, dormindo às vezes ao relento, desejando roubar para comer mas sendo generoso quando tem meia coroa, aspirando por elogios dos directores dos jornais aos seus artigos mas aceitando cabisbaixo as suas recusas, desejando acima de tudo comer, mas quantas vezes desprezando a comida e achando-a repugnante. O tom é menos nórdico do que noutros livros mais recentes de autores destas paragens e fez-me lembrar Robert Walser e outros autores da Europa Central. É um tour de force absolutamente magnífico, pois aguenta-se do princípio ao fim com muito poucos recursos, sem uma história, a prosa vagabundeando como o protagonista sem nunca cair no monólogo chato, antes num diálogo do eu com o eu que é verdadeiramente sublime e tocante. A edição da Cavalo de Ferro é a primeira traduzida directamente do norueguês e tem, além disso, um prefácio do norte-americano Paul Auster. Leiam, leiam.


 

Comentários

  1. Do Knut Hamsun, além destes dois livros que refere, também li o Mistérios.
    Curiosamente, estreei-me em Junho com um outro escritor nórdico, o dinamarquês Erling Jepsen: o livro chama-se "A Arte de Chorar em Coro" e é de leitura imparável.
    :-) Antonieta

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    1. O livro de Jepsen que refere é o primeiro de três.

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    2. Quer dizer que é uma trilogia?
      Desconhecia.
      Será que me pode dizer o nome dos outros dois?
      Eu sei que este foi adaptado para cinema em 2006, gostava imenso de ver o filme, mas deve ser difícil encontrá-lo.
      :-) Antonieta

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    3. Antonieta,
      Os 2 últimos livros estão por publicar em Portugal. A Cavalo de Ferro anunciou que irá publicar o segundo livro. E penso que o terceiro também se seguirá.
      Também gostei bastante do primeiro livro, é esperar pelos outros :)
      Quanto ao filme não sei dizer, mas quiçá haja na internet.

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    4. Obrigada, Ana.
      Vou estar atenta.
      Bom fds!
      :-) Antonieta

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  2. Acabei de ler "O Livro das Ilusões" de Paul Auster (muito bom).

    E antes de começar a escolher os livros para as férias comecei a ler "A Liberdade do Drible" de Dinis Machado.

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  3. Cláudia da Silva Tomazi1 de julho de 2016 às 04:22

    Ler e ler, que bom! Em mãos Sociedade dos meninos Gênios, ficção de Lev Ac Rosen e tradução de Henrique Monteiro ed. Novo Conceito.

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  4. Emílio Gouveia Miranda1 de julho de 2016 às 04:30

    A aguardar vez.

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  5. Também eu volto sempre aos clássicos!
    Com esta mania de ler, sempre dois livros ao mesmo tempo.
    Imaginem que há tempos descobri esta frase:
    " Esta ilha foi abençoada com a exclusão absoluta dos outros países..."
    Foi escrito no séc.XIX, por Dickens.
    Enfim de Cícero, passando por Dickens até hoje, muita coisa mudou, mas a essência, essa parece que permanece.
    Puck

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  6. Ando a ler, mas pouco.
    Pouco, mas bom:
    Aleksandar Hemon, “A Questão de Bruno” (Ed. ASA, 2002).

    Hemon nasceu em 1964 em Sarajevo, e escapou à trapalhada na Bósnia porque em 1992 tinha ido estudar para Chicago, nos Estados Unidos.
    Assim, acompanhou o conflito à distância, e numa perspectiva tal que lhe permitiu ir escrevendo as oito histórias deste livro, nas quais os factos trágicos e os desacertos do seu país estão presentes, quer por relatos históricos, quer por metáforas, bastas vezes temperadas com humor, outras tantas com crueldade – de um modo geral, tudo num registo perturbador e, ao mesmo tempo, sedutor.

    A parte do livro que mais me seduziu é: “A Rede de Espionagem de Sorge”.
    Seduziu-me porque puxou muito por mim.
    Puxou por mim porque é, porventura, a mais complicada.
    Complicada porque as 36 páginas do texto são em grande parte constituídas por longas notas de rodapé. Em alguns casos, Hemon utiliza-as para mudar de assunto no texto principal, continuando no rodapé o que estava a dizer... (*)
    Certamente que muitos leitores terão achado isto uma chatice, mas eu convivi bem com este exercício de andar para trás e para a frente, a ter de prestar atenção às várias narrativas simultâneas.
    Não vou aqui transcrever nada, mas recomendo, por exemplo, as deliciosas notas de rodapé das páginas 65 e 74.
    Ainda me falta ler um bocadito (*) (**), mas recomendo o livro todo.

    (*) A leitura deste livro foi também complicada porque a edição não está bem feita, do ponto de vista tipográfico. O corpo das letras do texto é muito miudinho para os meus óculos, e o das notas de rodapé, então… Além disso, a mancha gráfica das páginas é de tal forma que dificulta a decifração das letras mais à direita nas páginas par e à esquerda nas ímpar (**). Tudo isto, está-se mesmo a ver, é para poupar papel. Em vez das 205 páginas, devia ter aí umas 250, ou assim.

    (**) Acontece neste e em tantos outros livros. As editoras deviam ter mais cuidado com isto. Trata-se da acessibilidade à leitura. Pois se há regras arquitectónicas para facilitar às pessoas com incapacidade a acessibilidade aos edifícios, também devia haver regras para os caixas-de-óculos terem fácil acessibilidade à leitura, ora essa!

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  7. Já li... e vale a pena, sim, mas deixa-nos um bocado em baixo. Não é aconselhável para gente deprimida. Escrita genial, sem dúvida, mas sofre-se q.b. com toda aquela miséria. Digna, é certo.

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    1. Agora ando a ler Helena Ferrante (Histórias de Mau Amor). Percebo a razão de tanta fama. Aquela mulher escreve mesmo muito bem.

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  8. "FOME" grande livro! contudo, do mesmo autor, "mastiguei", logo a seguir, "MISTÉRIOS" mas não consegui tragá-lo para além da página 80, pelo que o Knut Hamsun ficou em semi banho-maria... -mistérios-!

    Actualmente estou a ler um livro interessante "A CANETA QUE ESCREVE E A QUE PRESCREVE" (a doença e medicina na literatura portuguesa). Uma antologia que inclui uma selecção de textos literários sobre doença e Medicina reunindo excertos das obras mais relevantes de autores portugueses dedicadas a temas médicos que vai do século XIII (Pedro Hispano 1210-1277), passando por José Saramago, Aquilino Ribeiro, Bocage, Gonçalo M.Tavares até ao mais jovem, José Luís Peixoto (n.1974).

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    1. /... passando, ENTRE OUTROS, por José Saramago, ...

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  9. Eu ando a ler UMA CAUSA IMPROCEDENTE do Claudio Magris, livro que cria um campo narrativo para onde tudo que é humano conflui sob um olhar de profunda sabedoria.

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  10. Li, com imensa ternura, o último livro de João Rebocho Pais, Olhando por Mr. Bergman. Entretanto, li Ana Margarida de Carvalho com aquela obra literária que é uma riqueza quase indescritível, não só em termos de narrativa, história em si mesma, mas com uma escrita avassaladora e tão bonita e tão inteligente e tão rica e tão tudo. Falo do seu último romance: Não se pode morar nos olhos de um gato.
    Agora ando metida com o Meças de José Rentes de Carvalho. E depois tenho sempre junto ao candeeiro do quarto um livro de Rui Nunes, que leio muito devagar para que dure sempre, escritores assim têm de estar sempre à mão, tal não é a necessidade de os lermos... Tal não é a vertigem que provocam. Os livros de Rui Nunes são tão preciosos para mim como será a Bíblia a um padre. Que mestria tão grande!

    Bom fim de semana e boas leituras.
    Carla Pais

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    1. Rui Nunes é sublime. E muito pouco conhecido.
      Adoro Hamsun, e tenho em espera "Os frutos da terra", mas para já leio uma distopia da sueca Boyen. "Kallocaína", muito bom.

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  11. Boa tarde,

    Li "Cinco esquinas", o último de Vargas Llosa. Gostei imenso, mas sou suspeito, dada ser grande admirador do autor. No entanto, na minha opinião, está longe das suas melhores obras. A estrutura narrativa é simples de seguir, nada que se pareça com aquelas teias dos livros que escreveu já há muitos anos.

    Também li "A amiga genial" e fiquei cliente da Ferrante, a ponto de ter já conseguido quem me empreste os outros 3 livros desta tetralogia.

    Hoje vou cheirar as estantes para eleger o próximo a levar para a cama.

    Bom fim-de-semana,

    Rui Miguel Almeida

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  12. É um livro a ser maduramente considerado por mim que desconheço quase em absoluto a literatura nórdica. Penso que li apenas dois ou três exemplares de que até gostei. Mas parece-me o meu género, prosas vagabundas, monólogos que não são chatos, reflexões sem muito acontecer e mirabolâncias de romance.
    Muito obrigada pela sugestão. Resta ver o preço. E bisbilhotar a biblioteca municipal.

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  13. O facto de ser pró nazi e anti semita não é incompatível com ser um grande escritor mas convém separar as águas. Tal como o Louis Ferdinand Céline em França, também Hamsun apoiou a Alemanha nazi durante a ocupação da Noruega. Embora não fosse filiado no Partido Nazi norueguês escreveu vários artigos pró nazis e quando encontrou Hitler e Goebbels em 1943, ofereceu ao ministro de Hitler a medalha que recebeu por ocasião do prémio Nobel como prova de estima, tendo sido preso e julgado juntamente com a sua mulher depois da guerra. Ando a ler "Chega de Saudade" do jornalista brasileiro Ruy Castro, uma história da Bossa Nova. Estão na calha os clássicos do Camilo "A Freira no Subterrâneo" e "A Sereia".

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