Recompensas
Os editores ingleses, como já aqui referi, compram pouca literatura estrangeira – mas, quando a compram, gostam do exótico. Em muitas reuniões com editores britânicos que tive no passado, no que toca aos romances de língua portuguesa, sempre estiveram mais atentos aos africanos e brasileiros do que aos portugueses. Isso explica, aliás, que a última edição do Man Booker International Prize tenha tido entre os seus candidatos ou finalistas Agualusa, Clarice Lispector ou Raduan Nassar, mas nenhum português, até porque são muito poucos os que estão traduzidos. Mas a verdade é que quem acabou por ganhar foi A Vegetariana, da sul-coreana Han Kang, outro livro bastante exótico. Eu, que raramente publico traduções, comprei esta pérola muito antes de saber que estaria entre os nomeados para o prémio e, mais tarde, entre os finalistas; mas correu-me bem, porque assim tenho a certeza de que o livro partirá com vantagem e chegará a um número maior de leitores. Uma recompensa, portanto, pela minha curiosidade (não sendo eu vegetariana nem nada que se parecesse, cheirou-me a coisa interessante quando li a sinopse e mandei vir o livro, e não me enganei, porque afinal um júri conceituado concordou comigo em que este livro é mesmo muito bom). Alegrias no trabalho que eu gostaria muito de replicar daqui a um ano ou dois com algum romancista português, que também já merecia uma tradução em língua inglesa e, porque não?, um prémio internacional. A Vegetariana sairá na rentrée com o selo das Publicações Dom Quixote e tradução de Maria do Carmo Figueira.
Isso é que foi pontaria!
ResponderEliminarEstou com imensa curiosidade em ler esse livro (já fui googlar, claro) e ainda pensei que o facto de ganhar o Man Booker agilizasse a publicação, mas afinal é só para a rentrée :-(
Esperemos, pois.
:-) Antonieta
Parece interessante. Aguardemos, então.
ResponderEliminarAguardemos pl'a Vegetariana então... uma coisa de que gosto na cozinha oriental é que usam muitas hortaliças e eu sou louco por hortaliças!
ResponderEliminarQuanto à presumível pontaria ou "olho pr'à coisa", aqui da Nossa Extraordinária Anfitriã, não é coisa que espante, ou não estaria onde está!
De qualquer modo felicito-a por mais um tiro no porta-aviões!
Saudações pistoleiras e hortaliceiras cá da Cidade Morena
(PS- por aqui não é fácil encontrar hortaliça, só comem saladas e algumas folhas de rama de batata-doce, abóbora... no resto só aparecem umas couves raquíticas e repolho miserável).
Esta pontaria, deve-se, creio eu, à bagagem da nossa anfitriã. São muitos anos de Literatura! E isso, claro está, afina o olho e refina a intuição. Ora pois, parabéns à Rosário!
ResponderEliminarQuanto aos autores portugueses: um dia destes vai acontecer... Tem de acontecer, até porque na minha opinião de leitora (que devora tudo o que é literatura made in Portugal) os nossos escritores reúnem mais do que condições para dar cartas e marcar pontos no mercado inglês. Vamos confiar no "feeling" de um desses editores com olho de gigante.
Um abraço
Carla Pais
A vegetariana, então esperemos!
ResponderEliminarJá goglei e apercebi-me que não é um livro óbvio. Mas pegando no tema.
Defendo que existe uma ligação forte entre a comida, o alimento e os livros.
Pelo menos para mim.
Eu ainda gosto de histórias (e não só).
Há histórias que são como o bom pão. Simples.
Não percebo nada do ofício de escritor nem de padeiro, mas sei saborear.
Ponho-me aqui a imaginar e penso se não será tudo a mesma receita.
Para fazer um bom pão, é preciso uma boa farinha, sem muitos aditivos, água um pouco de sal e fermento( tudo q.b.) certo?
Depois de amassar, que implica um certo esforço e deve ser como o acto de criar num escritor.
Talvez nos livros se aplique aquela fórmula do Camões”...mais do que prometia a força humana...”
Depois deixa-se levedar, o tempo certo em ambiente ameno.
Coloca-se no forno.
E toda aquela alquimia se transmuta. E começa a seduzir-nos pelo cheiro, pelo olfacto das coisas inevitáveis.
O cheiro do bom pão a cozer, um cheiro que reconforta a alma ou lá o que é, isto que me habita. E espalha-se e inebria.
Como um bom livro, em suma. É uma das receitas possíveis.
Bem, este texto deu-me fome, vou mas é comer!
Saudações a todos
Puck
Concordo inteiramente consigo... e tenho a presunção de ser um excelente cozinheiro!
EliminarO Paulo Moreiras mais que certamente estará ainda mais de acordo... como escritor, gastrónomo e investigador das coisas da comedoria!
Saudações padeiras cá da Cidade Morena - onde há tantas noites de Verão para sonhar, Caro Puck!
Não há dúvida, a Rosário tem feeling para as obras de qualidade. Acerca do resto não faço previsões, desconheço a mente dos editores ingleses. Pode ser que um dia, quem sabe, Portugal parta à descoberta do mundo, ou o mundo descubra Portugal através da literatura.
ResponderEliminarÉ claro que vou ler a "Vegetariana" mas não acha estranho que a Ferrante e um Nobel tenham sido ultrapassados por uma novata? Os prémios valem o que valem mesmo o Nobel. Eu tenho um livro que adquiri na Suécia de um antigo Secretário da Academia Sueca onde ele conta os bastidores de algumas atribuições polémicas, onde revela também a candidatura de um poeta português do regime da altura, António Correia de Oliveira que não ganhou tendo sido preterido pelo americano Sinclair Lewis! Em relação ao Prémio Camões não acha estranha a atribuição a um escritor que não tem obra e que o próprio Raduan Nassar a um jornalista da Folha de S. Paulo disse. "Eu não entendi esse prémio, minha obra é um livro e meio"! Não o recusou mas acho que o júri que o atribuiu fica numa posição incómoda.
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