Para que serve o inútil

À minha caixa de correio electrónico vêm parar milhentas mensagens todos os dias – mais ainda desde que alimento este blogue, já lá vão seis anos. Não tenho tempo para ler todas (embora as cheire sempre), mas nos últimos tempos recebi uma muito especial, vinda de um comerciante de livros antigos (Livraria Manuel Ferreira), de que gostei particularmente. Talvez este livreiro esteja cansado de pessoas que lhe perguntam porque se interessa tanta gente por livros antigos se pode ter exemplares novinhos em folha, ou porque muitos fazem questão de adquirir livros raros, fora de mercado, que custam provavelmente uma pipa de massa, só para os terem numa estante lá de casa, e talvez ele queira responder a todos de uma só vez para não ter realmente de explicar mais nenhuma vez a evidência. Mas a verdade é que a história que enviou por e-mail é deliciosa e esclarecedora. Reproduzo-a aqui, para que mais e mais gente a possa ler e partilhar:


 


«Para que servem livros antigos? Por que, para que colecionar livros raros? Essas perguntas lembram-me uma história que se conta.


Dizem que um poeta francês foi uma vez apresentado a um riquíssimo banqueiro. O apatacado personagem perguntou ao poeta: 


– Para que serve a poesia?


E o poeta respondeu-lhe:


– Para o senhor, não serve para nada.


Tinha razão o poeta. Para muita gente, tudo na vida deve ter uma utilidade. Para essa gente pretensiosa não adianta explicar certas coisas, elas não chegaram ainda a um desenvolvimento cultural suficiente para apreciar as coisas sem utilidade aparente.


Se nós examinarmos a evolução, o progresso do mundo, notaremos que só nos países mais adiantados se dá valor às coisas sem utilidade apreciável. É com o progresso material, com a riqueza, que surge a cultura, o amor e o respeito pelas coisas tidas como inúteis. É nos países adiantados que se encontram as mais belas bibliotecas, os museus, as coleções particulares de arte. Não quero dizer com isso que só nesses países há gente capaz de apreciar devidamente essas coisas, mas quero notar que esse fato é um índice de progresso. Não é somente a produção per capita que indica o adiantamento de uma região.


Quando se estuda a história das grandes bibliotecas do mundo, das grandes bibliotecas nacionais que fazem o orgulho de muito povo, vê-se logo que elas se formaram, tendo como base uma coleção particular e foram se enriquecendo com a aquisição ou doação de outras coleções particulares. Foram os Mazarin, os Grenville, os Barbosa Machado que, legando ou vendendo seus livros à nação, enriqueceram o patrimônio nacional. 


Se não fossem os amadores americanos que reuniram coleções, alguns à custa de paciência, conhecimento e gosto, outros a poder de milhões, o que seria das famosas bibliotecas e museus dos Estados Unidos? Ninguém pode hoje estudar seriamente Shakespeare e seu tempo, sem frequentar a Folger Library, em Washington e não em Londres, na biblioteca formada por H. C. Folger, no prédio que ele mandou construir.


Seria um não acabar mais o querer mostrar que, graças a colecionadores particulares, muito tesouro é salvo. (...)


A bibliofilia não é somente um passatempo de homens cultos, um hobby inocente, um emprego de capital para alguns espertos, um negócio para milhares de pessoas no mundo. É uma obra de benemerência. 


Se depois de todos esses argumentos ainda houver quem lhe pergunte: "Para que serve colecionar livros raros?” – então voltaremos à velha história que acima contei. Para aqueles que lhe fizeram pergunta, responda: "Para você, não serve para nada".»



Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda16 de junho de 2016 às 01:35

    Quando o que - aparentemente - para nada serve passa a servir, então a utilidade encontrou o seu verdadeiro lugar, o seu verdadeiro significado. Porque apenas quando o valor de uma «coisa» ultrapassa o seu aspecto monetário, ou deixa de poder ser mensurável pelo que custou, ela ganha real importância.

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  2. Esta carta devia ser lida num programa televisivo, de preferência antes da telenovela.

    Sei que mesmo assim alguns pessoas continuavam a não perceber... para que serve o inútil.

    Paciência...

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    1. Luís, também podia ser lida antes dos jogos de futebol, naquelas intermináveis horas de "antevisão", ou depois nas não menos intermináveis horas de "análise".
      Fico é preocupada com o estado em que ficariam os plasmas depois de levarem com algumas furiosas garrafas de cerveja, eheheh.
      E não estou a defender as novelas nem a atacar os jogos: o facto de haver tantos só me permite ter muito mais tempo para ler.
      :-) Antonieta

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  3. Este texto, talvez acrescido da última obra de Afonso Cruz, "vamos comprar um poeta", permite reflectir sobre a importância universal da cultura e especialmente da ficção. E mesmo que para uns de nada sirva, talvez o mundo seja generoso pois continua rodando para todos, muito graças aos que conheceram / reconheceram o poder da ficção. E há sempre quem mude. Só os outros animais vivem exclusivamente com a realidade.
    Miguel

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    1. António Luiz Pacheco16 de junho de 2016 às 02:14

      Aplaudo o seu Extraordinário comentar e partilho desse desejo de ver um Mundo mais generoso, e tolerante por conseguinte!

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  4. António Luiz Pacheco16 de junho de 2016 às 02:12

    É assim: - Para esses, os que não entendem a essência do inútil, há aquelas falsas lombadas de livros, com que podem decorar a metro uma estante.
    E prontos!

    Além de traça literária, assumo-me muitas vezes como um conquistador do inútil... coisa que aprendi há mais de 40 anos num livro de culto. Do meu grupo de amigos e até a minha ex-mulher (montanhista) fazem parte uma enorme plêiade deles. Muita gente não entende a poesia, como não entende tanta outra coisa e perdoem-me a ferroada, mas criticam os Extraordinários aos que não entendem a poesia, a literatura... porém depois também negam entendimento a outras actividades para com as quais têm a mesma postura.
    Para mim, é sobretudo de intolerância que se trata, muitas vezes e seria bom que todos meditássemos um pouco nisso.

    Saudações tolerantes cá da Cidade Morena

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    1. E podemos saber o nome do livro de culto ou é segredo?
      Eu também adoro coisas consideradas inúteis, mas que são bem importantes para mim.
      :-) Antonieta

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    2. António Luiz Pacheco16 de junho de 2016 às 04:28

      Chama-se justamente "Os Conquistadores do Inútil" - de Daniel Terray.

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    3. Obrigada por ter respondido.
      Já fui googlar e parece-me um livro muito interessante, especialmente para quem, como eu, gosta de livros de viagens e de montanhas.
      Ele teve uma vida muito preenchida, cheia de feitos extraordinários, mas muito curta, mesmo muito curta.
      :-) Antonieta

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  5. Cláudia da Silva Tomazi16 de junho de 2016 às 04:42

    a inutilidade vaga sol
    vaga o calor imensidão
    se está estrela, tua tristeza
    será deserto meu coração

    a inutilidade vagara meu ser
    vagara outro ser, amplidão
    se perder-se for tua beleza
    será completo meu coração

    está paixão subtil aragem
    querer-te-ía último, miragem
    vagara querer-te até em visão

    ser útil perdera utilidade
    está mestra o fora saudade
    saber-te oásis tal solidão

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  6. Para muita gente, tudo na vida deve ter uma utilidade. Para essa gente pretensiosa não adianta explicar certas coisas, talvez por isso é que na casa dos VIP's não se consiga vislumbrar um livro.
    Outra das situações que me faz confusão é ver que naqueles programas de televisão em que o entrevistador adora fazer chorar o entrevistado nunca lhe faça, a par da pergunta sobre o prato favorito, uma pergunta sobre livros...

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  7. Conheço imensa gente que pensa como o banqueiro da história. São as mesmas pessoas que me perguntam para que escrevo tanto.

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  8. Em entrevista a Anabela Mota Ribeiro em 2003 inserida no ciclo que teve lugar em Serralves subordinado ao tema "Nós, a Cultura e Eu", o Prof. Eduardo Lourenço respondia: P:Para que serve a Cultura? R: Em última análise não serve para nada. P: Tradicionalmente é considerada inútil. R: A cultura serve para nos despir de toda arrogância, particularmente essa que consiste em imaginarmos que, sendo cultivados, encontramos Deus. A cultura é um exercício de desestruturação, não de acumulação de coisas. É uma constante relativização do nosso desejo, legítimo, de estar em contacto com aquilo que é verdadeiro, belo, bom.

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    1. António Luiz Pacheco16 de junho de 2016 às 12:46

      Vou fazer figura daquilo que sou: um tosco... mas pelo menos não visto uma roupa que não assenta:
      Não percebi nada do que disse o emérito prof. - defeito meu!
      É tão profundo, mas tão profundo que certamente encontrou petróleo... e se é isto a cultura, obrigado mas não me serve de nada, é totalmente inútil!

      Por falar em conquistadores do inútil, querem encontrar Deus? Ter um vislumbre da sua obra? Pois como já disse, subam a um lugar alto de onde se aviste uma infinidade - largueza - e terão um cheirinho... ao quê? Pois isso compete a cada qual decidir.

      Saudações aromáticas cá da Cidade Morena!

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    2. Não acredito que não tenha entendido. Não mesmo.É tão bonito e verdadeiro o que ele disse...

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    3. Bonito é, Beatriz, agora verdadeiro... tem dias.

      A cultura só despe da arrogância aqueles que se mantêm com os pés na Terra...

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    4. Não, não. A cultura é isso mesmo, um despir da arrogância, o saber do que não se sabe. O resto é estultícia de enciclopedismo parvo ou vaidade parola. Não confundir.

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    5. António Luiz Pacheco19 de junho de 2016 às 09:42

      Em Portugal, ser culto consiste exactamente em dizer coisas que ninguém entende... ninguém, falo do homem comum: eu, por exemplo. Erudição presume sempre um expressar idéias de forma difícil e enrolada, género Dr. Sampaio que era um verdadeiro especialista no discurso perifrástico e vazio de conteúdo porque afinal dizia banalidades como qualquer político ou pior, advogado... porém fazia-o com tantos artifícios e sofisticação que parecia falar bem... agora o sentido, é o que bem sabemos e muitas vezes é práticamente nulo, mesmo que se ache que é bonito.

      Lamento imenso, mas é a minha imensa ignorância, a rudeza e certamente que a falta de sensibilidade, tosca, de barrão. Todavia já vivi, vi e viajei, li e estudei o bastante para saber que de facto nada sei e afinal pouco vi, mas já não vou em cantigas como se diz popularmente.
      Palavras bonitas? Para isso há a poesia e mesmo prosa, mas é literatura, declarações cultas, são normalmente mera conversa e fingimento - treta para falar ainda como o homem comum.

      Saudações cá da Cidade Morena, de onde me lembrei de José Régio:

      Não precisamos de ler, estudar ou conhecer ninguém, quando produzimos nós próprios. Pois não basta que produzamos nós próprios? E gostemos de nós próprios? Que nos pode dar o espírito alheio, quando sobre o próprio nosso desceu em línguas de fogo a sabedoria de tudo? Melhor: A verdade é que nem precisamos nós próprios de produzir (toda a produção é uma limitação), ou mal precisamos de produzir, para usufruirmos as vantagens do criador e produtor.

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    6. Em Portugal? Ou, grosso modo, para a maioria? Pois eu diria que sim, que há quem associe cultura a esse discurso enrolado do qual retiro Jorge Sampaio senhor que muito prezo e a quem gosto de ouvir falar. Não lhe achei nada do que afirma mas reconheço que não sou afeita a discursos e apenas pensava, "ora aqui está um presidente que não me envergonha, que sabe falar e estar, fala inglês como um autótone, é educado...".
      Algumas pessoas julgam sinceramente que os ditos "cultos" se distinguem por esse vocabulário hermético. São pessoas simples, que lêem pouco e de bom coração. Depois há aqueles como eu que já lêem alguma coisa mas não se excedem e que pegam nas críticas do Jornal de Letras, lêem e dizem, é pá não percebi quase nada do que este fulano escreveu, eu até li o livro de que fala, mas já nem me parece o mesmo, será que há dois com o mesmo título? E conclui, não, eu é que sou ignorante (mas lá bem no fundinho de si prefere a sua ignorância a escrever daquela maneira atafulhada de não me toques). Depois devem existir aqueles que lêem, não entendem mas fingem que sim e ainda discursam à volta do tema em conversa, como diz, da treta. E deve haver mais, somos como os patos, temos n camadas e cada uma com seu tom. O Ary é que sabia como dizê-las. Mas também há gente boa. E até culta.

      Não vou comentar o seu último parágrafo que acho todo ele muito palerma. Só pode estar a brincar.

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    7. António Luiz Pacheco23 de junho de 2016 às 01:12

      Minha Cara Beatriz, a quem tenho o particular condão de provocar, sem querer... note-se. Mas é assim... há empatia ou não há.
      São opiniões, até vivências e portanto são como as cerejas e não como os patos. Veja como eu detesto ouvir Jorge Sampaio que você idolatra... nunca ouvi ninguém ser tão perifrástico (repito) e nem tão vazio... a educação é outro assunto que não é para aqui chamado, há gente educada inculta e vice-versa.
      Limitei-me a expressar a minha opinião, mais nada e cá tenho as minhas razões, não adianta comparar-me nem a si nem a ninguém.

      Quanto ao meu último parágrafo... note que não é da minha autoria a "palermice" , esta é da autoria de José Régio, aliás um notório palerma como se sabe, talvez porque recusasse ir na corrente, no política e culturalmente correcto, e com quem eu me identifico porque também me recuso a ler ou a ouvir os tais "cultos" e aplaudi-los quando nada do que dizem para mim faz sentido e nem os entendo.
      Também ele (José Régio) dizia: "Não sei por onde vou. Não sei para onde vou - Sei que não vou por aí! (José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo')

      Isto para mim, sim é bonito e faz sentido... é até muito claro, ao contrário daquilo que a encantou no discurso do professor. Mas eu já me assumi como tosco, um barrão inculto e iletrado portanto.

      Desculpe a minha pretensão ignara de ter opiniões e expressá-las neste local de elevação literária, mas olhe que gosto de a ler e destas "discussões" consigo, acredite.

      Saudações discordantes e Regianas cá da Cidade Morena.

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    8. Ok. Foi José Régio que disse. E depois? Eis aquilo de que não gosto e não acredito que ele gostasse (concordasse):

      "Não precisamos de ler, estudar ou conhecer ninguém, quando produzimos nós próprios. Pois não basta que produzamos nós próprios? E gostemos de nós próprios? Que nos pode dar o espírito alheio, quando sobre o próprio nosso desceu em línguas de fogo a sabedoria de tudo? Melhor: A verdade é que nem precisamos nós próprios de produzir (toda a produção é uma limitação), ou mal precisamos de produzir, para usufruirmos as vantagens do criador e produtor."

      Primeiro: a que produção se refere Régio? À escrita? Vamos entender que sim. Não precisamos ler, estudar...e que raio poderemos produzir, tendo alguma qualidade, se o não fizermos? Onde vamos buscar a matéria? Não lemos, não estudamos e nem precisamos dos outros...ó espíritos objectivos e contundentes que a si mesmos se alimentam, "Que nos pode dar o espírito alheio, quando sobre o próprio nosso desceu em línguas de fogo a sabedoria de tudo? " Se isto não é uma brincadeira do senhor Régio (de quem gosto, note-se), uma provocação a uns tantos...

      Sim. Gosto bastante do Cântico Negro. Julgo que não há quem não goste. Todos sonhamos ser esse homem íntegro e convicto que segue no sentido inverso à multidão e pisa sozinho na areia inexplorada. É o sonho humano. Mas tem muito pouco de realidade. Em primeiro lugar porque a diferença sai-nos da pele, paga-se. E ainda que dê um prazer incomparável, não se aguenta sozinho. Somos homens e gregários e também isso se paga.Há momentos de tudo na vida, se ela for longa. Sendo breve, pode que algumas coisas não aconteçam. Não sei se aprendemos, mas gastamo-nos a viver. E, como estamos destinados à morte, não vejo assim tanta utilidade em saber viver. É mais útil viver e ganhar com isso maior compreensão para o que nos rodeia.
      Não me parece que estejamos em desacordo:))

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    9. António Luiz Pacheco23 de junho de 2016 às 10:25

      O que me diz tem todo o sentido claro... mas há alguns de nós que conseguem ter a coragem de seguir o seu caminho e não aquele que lhes é indicado, isso tem um custo que nem todos aceitam pagar, mas não podemos esquecer que esses existem e tomá-los por palermas, aberrações, anti-sociais, excêntricos, etc. pode ser um erro nosso, dos que preferem a segurança do rebanho e seguir o caminho que o pastor e os seus cães de guarda traçam. Mas já se vê, isto sou eu a discorrer e a disparatar.

      No entanto a leitura (sempre a leitura!) de biografias e pensamentos dos que assim fazem o seu caminho e a sua vida, pode ajudar-nos a compreender e até a ousar ser um pouco assim, como eles. Ou pelo menos sonhar que sim.

      Eis aqui o texto completo, do qual apenas me recordava uma parte e que foi a que reproduzi... o contexto é óbviamente o literário.
      Repito que gosto de ler o pensamento de algumas pessoas, sejam comuns ou nem por isso como é o caso de Régio.

      Aprende a Ser como os Outros
      Não precisamos de ler, estudar ou conhecer ninguém, quando produzimos nós próprios. Pois não basta que produzamos nós próprios? E gostemos de nós próprios? Que nos pode dar o espírito alheio, quando sobre o próprio nosso desceu em línguas de fogo a sabedoria de tudo? Melhor: A verdade é que nem precisamos nós próprios de produzir (toda a produção é uma limitação), ou mal precisamos de produzir, para usufruirmos as vantagens do criador e produtor. (...) Aprende a contar uma anedota; duas anedotas; três anedotas; quatro anedotas... uma anedota diverte muita gente; quatro anedotas divertem muito mais... aprende a polvilhar de blague todas essas ideias sérias, pesadas, profundas, obscuras, - ao cabo simplesmente maçadoras - com que pretendes sufocar (...); aprende a cultivar aquele subtil espírito de futilidade que ligeiramente embriaga como um champanhe, e a toda a gente agrada, lisonjeia todos, por a todos nos dar a reconfortante impressão de pertencermos ao mesmo meio... estarmos ao mesmo nível; não queiras ser nem sobretudo sejas mais inteligente ou mais sensível, mais honesto ou mais sincero, mais trabalhador ou mais culto, mais profundo ou mais agudo... numa palavra: superior. Sim, homem! aprende a ser como os outros, dizendo bem ou mal de tudo e todos - conforme - sem os excederes nem te comprometeres demasiado; e deixa-me lá esses Proustes e esses Gides e esses Dostoievskis e esses Tolstois (vem aí o tempo em que todos esses jarrões serão levados para o sótão!), deixa-me essa estética e essa mística e essa metafísica e essa ética (já o tempo chegou de se ver a inutilidade e o ridículo dessa pretensiosa decoração), deixa-me lá esses estrangeiros, e essas estrangeirices.

      José Régio, in 'Presença, Folha de Arte e Crítica, 1927-1940'

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