Eufemismos

Sempre detestei a palavra «falecer» e os seus derivados («desfalecer» ainda vá que não vá, mas é a única) e, nos livros que avalio regularmente, de potenciais autores, cada vez mais dou de caras com ela. Acho que muita gente tem medo da morte (ou da palavra «morte», ou de ambas), mas não entendo como pode alguém pensar que «falecer» é um verbo mais literário do que «morrer», ou que «falecimento» e «óbito», por exemplo, são mais bonitos do que «morte». Enfim, há palavras que metem medo, eu sei («cancro», por exemplo; os jornais usam geralmente «doença prolongada» – e às vezes, infelizmente, é uma doença fulminante); mas, de tanto as evitarem e substituírem por eufemismos, às vezes acabam por viciar-nos enquanto leitores. Há tempos, recebi uma newsletter de uma agência de autores em cujo cabeçalho se anunciava a «partida» de mais um escritor. Ora, como este ano já foram vários os que morreram (outros diriam «os que nos deixaram»), fiquei aflita e quis logo saber de quem se tratava. Apanhei um valentíssimo susto, porque não só se tratava de um velho amigo como, tendo-o visto na véspera e estando ele bem, deduzi que só podia ter acontecido algo inesperado e quiçá trágico. Li então com mais atenção as linhas seguintes e respirei fundo. Afinal, «partida» não era eufemismo, o escritor ia mesmo de viagem… O que a newsletter apregoava era o programa de uma agência de viagens que, pelos vistos, financia a vários autores uma ida a determinado país, da qual supostamente nascerá mais tarde um relato escrito. Ufa… Se chamassem sempre os bois pelos nomes, não era mau.

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda15 de junho de 2016 às 01:14

    Este exemplo fez-me lembrar de outro que sempre me deixa confuso, perplexo, triste e furioso, no final. Trata-se do termo tão em voga, hoje, tão polido, como um olhar complacente e carregado de falsa caridade - onde, até, ás vezes, a caridade simplesmente não deveria existir: refiro-me ao tão usado e glosado IDOSO, em vez de VELHO. E as demais ideias, a esta associada, como sejam TERCEIRA IDADE, em vez de VELHICE. Enfim. O sorriso amarelo que pretende ser simpático. Há sociedades em que dizer VELHO significa dizer VENERANDO, em que dizer VELHICE significa dizer VIDA. Tão somente. Então, enfurece-me esta polidez hipócrita, ela, sim, construtora de «maus significados».

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    1. Emílio Gouveia Miranda15 de junho de 2016 às 01:39

      Somos a sociedade dos falsos pudores!

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    2. António Luiz Pacheco15 de junho de 2016 às 05:44

      Tal e qual
      Somos uma sociedade de hipócritas e como tal vivemos... o que nos latinos nem era assim tanto, creio eu... acho que a hipocrisia é (era) mais uma característica dos anglo-saxónicos passada aos americanos. Mas com a globalização hoje somos todos hipócritas, porque toda a gente quer ser considerada politicamente correcta....

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  2. Os chamados "Séniores" que não são da selecção.
    Temos medo das palavras, que mais tarde se vão tornar ainda mais fortes e chocantes.
    A dificuldade de escrever sobre sexo e alguns eufemismos utilizados, mas sobre a morte é sempre com muita vergonha. Acho que o mesmo sucede com o nascimento. Quem diz que uma mãe "pariu"? Dá sempre à luz!

    Se a literatura deve mexer connosco, deveria ser o principal veículo para o uso das palavras correctas. Leiam o texto que o Paulo Varela Gomes escreveu para a Granta portuguesa e percebemos que devemos entrar directamente no assunto.

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    1. Grande escritor o Paulo Varela Gomes. Descobri-o em Julho/2014 com o "Ouro e Cinza" e li tudo o que a Tinta da China publicou até agora.
      Grande ser humano também.
      :-) Antonieta

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  3. Vivemos numa sociedade que não gosta de chamar o verdadeiro nome às coisas, adora colocar uns "dourados" e uns "brilhantes" em tudo, mesmo que seja tudo pechisbeque...

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    1. E os "invisuais", e os "deficientes auditivos"...
      Temos medo das palavras.
      :-) Antonieta

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  5. Cláudia da Silva Tomazi15 de junho de 2016 às 04:21

    O título rei do Eufemismo vai o candidato republicano multimilionário Donald Trump (desta vez) se lhe cai bem o chapéu.

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  6. Ahahahaha! Tens toda a razão! Eu também detesto esse tipo de eufemismos. E ficam, a bem dizer, ridículos.

    A esposa do invisual faleceu ontem. É mais uma estrelinha a brilhar no firmamento.

    ahahahahahah!

    Cristina Carvalho

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  7. Eheh, gostei do post!
    Fez-me lembrar do meu amigo Gustavo Salvador, que nome queque. Mas ele era mesmo um queque das Avenidas, que por môr do destino não foi parar a um banco, nem a um stand de automóveis mas sim, a assistente funerário, vulgo cangalheiro, que também é assim uma denominação para o "velho Oeste".
    Também ele se fartou do falecer, das condolências e do descanse em paz.
    Mas na verdade nunca viveu tão bem, pois até fechavam livrarias em barda mas o seu negócio ia de vento em popa.
    Como ia dizendo, fartou-se num dia em que ia trabalhar( ele era uma pessoa sensível, que não chamava cadáveres á matéria prima, como lá para as bandas de medicina), porque descobriu no bolso de um cliente, um livro de poemas.
    E ora, os poemas tinham sido sempre a sua redenção . Ele que levou a vida a colecionar poemas resolveu soltá-los de encontro á vida e aos olhos de todos.
    Se por acaso encontrarem por aí uma parede espichada com um poema a vermelho ou outra côr qualquer, podem ter a certeza que foi o meu amigo Salvador.
    Farto de palavras polidas.
    Saudações

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  8. Não tem nada que ver com eufemismos, mas uma palavra que me irrita é o galicismo "detalhes", se temos o tão português e belíssimo "pormenores". Sei que estou quase só nesta preferência , no entanto, estou a ralar-me. Já agora, espero que me perdoem, mas não se deve dizer nem escrever "séniores". Isso nem poderia ser: acentuação na ante-antepenúltima sílaba. Diz-se e escreve-se "seniores", com tónica no 'o'. Era essa a forma do nominativo e do acusativo latinos e é dela que vem "senhores". Tudo de bom!

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  9. Para que não digam que eu só comento para apontar erros e denunciar situações... faço questão de aplaudir este texto de MRP, um dos melhores que ela já aqui nos deixou. E, claro, concordo inteiramente com ele.

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  10. António Luiz Pacheco15 de junho de 2016 às 05:52

    Aqui usa-se muito o termo "a falicida" ou "o falicido" quando se refere um parente que morreu... e enterro é "óbito", aliás coisa obrigatória e uma praga que deve ser o maior causador de absentismo laboral: "tem óbito" ou "fui no óbito" ... é constante, e ainda por cima aqui morre-se muito!

    E o termo "fenecer"? Ahahah! Deste gosto muito:
    ... Pára e escuta, flor do meu martírio, perdoa não olhar directamente o teu rosto, mas fenece-me a coragem!
    Ahahah! Conhecem a fala?

    A nossa sociedade fez-se medrosa, e tem medo das palavras que tratam dos seus medo, é o que é ...

    Saudações vivas e vigorosas cá da Cidade Morena!

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  11. Esta novilíngua , agora muito em voga e cada vez mais enriquecida (se assim posso dizer...), foi muito bem dissecada por Eduardo Galeano.
    Guardei dele uma lista, da qual me permito aqui transcrever apenas meia-dúzia de exemplos:
    - el capitalismo luce el nombre artístico de "economía de mercado”;
    - el imperialismo se llama "globalización ”;
    - las víctimas del imperialismo se llaman “países en vías de desarrollo ”, que es como llamar niños a los enanos;
    - el oportunismo se llama “pragmatismo”; la traición se llama “realismo”;
    - el derecho del patrón a despedir al obrero sin indemnización ni explicación se llama "flexibilización del mercado laboral”;
    - tampoco son muertos los seres humanos aniquilados en las operaciones militares: los muertos en batalla son "bajas ”, y los civiles que se la ligan sin comerla ni beberla , son "daños colaterales ”.
    - en 1995, cuando las explosiones nucleares de Francia en el Pacífico Sur , el embajador francés en Nueva Zelanda declaró «No me gusta esa palabra bomba. No son bombas. Son “artefactos que explotan ”».

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    1. É realmente e absolutamente, o mais verdadeiro exemplo dum "Traje de Luces" linguístico:)

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    2. Esta é a verdade dos factos!

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    3. Pois é. Os actuais eufemismos - os que Eduardo Galeano nos mostra, e muitos outros - são as lantejoulas que, brilhando no "trajo de luces" que enverga a novilíngua global, nos perturbam a percepção da verdade dos factos.

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    4. Tenho de ler Eduardo Galeano.

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  12. Em primeiro lugar: parabéns aos autores que viajam e pagam contando como foi. Temos de reconhecer: é um preço aliciante - eles fazem o que gostam e sabem, pagando dessa forma outra coisa que não desdenham, viajar. Sorte deles.

    Em segundo: não posso concordar mais. O verbo falecer sabe e soa a mofo, não sei como alguém pode gostar dele sem ser Ricardo Araújo Pereira, pessoa que o usa com inteira propriedade e lhe dá até algum espírito "eu não faleci" "ai faleceste, faleceste que aquela senhora ali na televisão disse que faleceste". Uma pessoa morre e já é um azar e depois ainda lhe pespegam com um verbo destes que até ofende, salvo seja, qualquer morto que se preze. É que parece mesmo que o morto cometeu notável delito e não que morreu.
    Ora, convenhamos, há diferenças. Morrer é coisa que quase nunca vem a propósito ou se deseja mas acontece muito aos humanos ainda que só uma vez a cada um. Mas cometer um crime é agir quase sempre por vontade, ou, pelo menos, de forma consciente.
    Além do mais, falecer é assim uma coisa que não é carne nem é peixe, a gente fica pensando se quem falece não se dá apenas ao trabalho de desfalecer (muito mais poético, lembramos logo meninas pálidas como círios de igreja, apertadas em espartilhos impossíveis a quem fogem as cores do rosto e escorregam lânguidas por bancos e assentos, sem estardalhaço nem nada). Não concordo que se faleça, pronto. Morrer é que é. Se é morte, fica sem pernas para andar. Acaba.

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  13. Tocante, e hilariante ao mesmo tempo. Este texto deixou-me a pensar sobre a utilização desesperada de eufemismos... É bem verdade!
    E ao mesmo tempo, no final, deu-me uma vontade de rir... Oh eufemismo que "matas" pessoas quando elas estão "de partida"...

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  14. Abomino eufemismos, este, então, encabeça a lista.

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