Os estrangeiros
O jornal The Guardian tem sempre artigos interessantes sobre literatura, e o último que li é surpreendente. Não sei se têm ideia, mas é geralmente muito difícil a um autor de outra língua (especialmente a um autor não consagrado) conseguir uma tradução em inglês – e isto acontece porque os escritores anglófonos nos cinco continentes são mesmo muitos e, portanto, o espaço nas editoras do Reino Unido para as traduções acaba por ser realmente diminuto (as traduções de literatura são apenas 3,5% de todos os livros de ficção publicados). Mas as notícias deste artigo vão contra a regra: diz Alison Flood que, afinal, a ficção estrangeira traduzida em inglês parece atrair muitos leitores britânicos, segundo um estudo encomendado recentemente pelo Man Booker International Prize; e que autores como Elena Ferrante, Knausgaard ou Murakami conseguiram de facto um autêntico boom nas vendas de livros de ficção literária no Reino Unido, depois de serem finalistas daquele prémio prestigiante. Claro que a percentagem nas vendas totais de ficção é ainda escassa (a ficção comercial é a que atinge números mais elevados), mas a verdade é que o valor duplicou em dez anos e que, ao contrário do que aconteceu com os romances escritos originalmente em inglês, cujas vendas caíram, os romances traduzidos têm estado em franca ascensão, até porque o público para eles tem crescido muito desde 2001, estimulando os editores ingleses para que publiquem mais ficção traduzida. Veremos se assim os portugueses conseguem penetrar finalmente neste mercado…
Julgo que a necessidade de olhar o Mundo com outros olhos, ou através dos olhos de outros é, hoje, cada vez mais evidente. Aliás, julgo que o Mundo seria mais bem percebido, se mais gente o olhasse através dos olhos de outros. Falta-nos distanciamento, multiplicidade na visão, o que, aliás, a literatura sempre soube conceder... àqueles que procuram - também - isso no que lêem. Actualmente com a chamada globalização, nem sempre boa em tudo, pelas desigualdades que cria e pela disputa desigual que promove, assiste-se - por outro lado - à disponibilização cada vez maior do «acesso» a outras visões. Só poderemos compreender o outro, olhando-o através dos seus próprios olhos. É no acesso ao contraditório que podemos fazer um juízo mais abrangente da realidade e, por isso, mais tolerante, também.
ResponderEliminarNo que diz respeito a um assunto que muito me interessa - as cruzadas cristãs - lembro-me sempre da obra de Amin Malouf - As Cruzadas vistas pelos Árabes. Há outros olhares e convém ter acesso a eles. Aliás, é necessário, para se perceber cada vez mais a ou as razões do outro.
Extraordinária opinião, se me permite - e, imodestamente dizer que é igualmente a minha!
EliminarProcuro "ver pelos olhos dos outros", pois isso me alarga e ajuda à compreensão das gentes e dos assuntos, daquilo que nos rodeia e de que irremediávelmente fazemos parte.
Embora suspeito, pois sou um amante da leitura, acredito que esta é a melhor, mais completa e ampla forma não só de comunicação (biunívoca) mas de chegar a essa largueza de entendimento, porque podemos através dela com mais facilidade obter essa diversidade de visão que refere.
Um abraço, largo, cá da Cidade Morena!
Abraço, Amigo, desta terra à beira Tejo plantada. Bom fim de semana.
EliminarQue interessante tema nos trás hoje! Mais um... e que me parece ser também dos que dão "pano para mangas".
ResponderEliminarApenas uma dúvida me assalta: Como é que fazem para atribuir o M.B.I.P. a livros não-anglófonos se estes não estiverem traduzidos?
Agualusa foi candidato, com um excelente livro que até é capaz de ter passado desapercebido à maioria dos Extraordinários - Teoria geral do esquecimento - do qual aliás eu falei em devida altura. Então foi traduzido... e não terá sido fácil, imagino, tal como outras excelentes obras, por exemplo Os transparentes, de Ondjaki serão um sério problema para serem traduzidos pela linguagem que usam, mas de grande valia naquilo que se falou enquanto veículo para dar outras visões.
Mas esperemos então que as editoras anglo-saxónicas se abram ao resto do Mundo e não apenas aos politícamente correctos, como suspeito seja o caso de O vegetariano...
Saudações omnívoras desde a Cidade Morena
Meu caro, A Vegetariana (no feminino) é tudo menos politicamente correcto! Espere para ver e tire as suas próprias conclusões.
EliminarMeu caro, julgar um livro apenas pelo título, colocando-o logo numa gaveta específica, não me parece resultado de uma "visão alargada", desculpe...
EliminarAcredito, e portanto espero poder ler em breve o referido livro!
EliminarFosse como fosse, volto a dizer que me interessam muitíssimo os pontos de vista e as situações diferentes do que são as minhas
.
Se disse que "suspeito", é porque infelizmente parece existir a nível Mundial uma espécie de Nova Inquisição, que se dedica a analisar os outros e sobretudo a coagi-los, caso se afastem daquilo que é a linha considerada como sendo correcta no momento.
Saudações, ainda omnívoras, cá da Cidade Morena e dos seus calúlús, uma simbiose perfeita de peixe e vegetais! Eheheh!
Está desculpada, minha Cara desconhecida... que nem por isso me lembro de ver comentar por aqui. No entanto correu a apontar-me o dedo... fará parte dessa legião de inquisidores fiscalizantes de que falo acima? Uma
Eliminarvegan militante?
Não se preocupe, pois não avalio os livros pelo título... e se parece que o fiz, desengane-se, apenas pretendi ser irónico e provocador, o que parece que consegui, pela sua reacção.
Saudações omnívoras para si também.
Concordo com as opiniões de quem julga que talvez exista um certo cansaço sobre visões do mundo anglófonas. E seja refrescante ler a escrita italiana, ou turca, ou. E, quem sabe, um dia os portugueses são descobertos. Faria bem a todos.
ResponderEliminarInteressante... escrita turca? Confesso que ... onde é que poderei obter informação sobre literatura turca (enfim... mais moderna que as mil e uma noites... eheheh!).
EliminarMuito simples, caro e extraordinário ALP: pode começar pelo Orhan Pamuk, Nobel de 2006.
EliminarO primeiro livro que li dele foi "O Meu Nome é Vermelho" (e não, não tem nada a ver com o que está a pensar) e garanto que é um livro fabuloso, diria mesmo extraordinário.
Mas ele tem muitos e bons, na minha opinião, claro.
Curiosamente o Pamuk também
estava na shortlist do último Man Booker International, juntamente com o nosso Agualusa (eu sei que ele é de Angola, mas também é um pouco nosso).
Saudações Beirãs!
:-) Antonieta
Não brinque comigo:). Claro que não sei de escritores turcos, mas as editoras têm essa obrigação. Mas toda a gente conhece o Pamuk que foi até nobel. O livro dele sobre Istambul é muito bonito e bom de ler. Deixa-nos com vontade de ir até lá. Se pesquisar no google, encontra uma data de outros escribas turcos. Os escritores serão como as cerejas:)
EliminarTem toda a razão sobre Pamuk! Havia-me escapado...
EliminarTerei de me dedicar a investigar um pouco desta nova porta que se me abre!
Como se vê, vale a pena vir aqui a este blog!
O Agualusa tem dupla nacionalidade, esclareço... e não é nada bem quisto pelo regime actual! Sou grande apreciador da sua escrita.
De resto acredito que alma africana todos temos um pouco, os nascidos nesta língua de terra (finisterra) metida ao mar e a SW... creio mesmo que fomos empurrados para África... ou escorregámos, sei lá!
Saudações da Cidade Morena, à beira do Atlântico e do rio Cavaco!
Tem razão, quanto ao Google, e obrigado por me levantar esta lebre a que atirarei com prazer!
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