O que ando a ler

Disse há uns dias que ainda não tinha apanhado a febre Ferrante, e acho que não tenho sintomas dela (ou seja, não me estou dependente e leio outras coisas pelo caminho). Mas, antes que a minha parca memória me fizesse esquecer o que lera em A Amiga Genial, o primeiro volume da tetralogia com o mesmo nome escrita por Elena Ferrante, passei para História do Novo Nome, o segundo volume, que parte da vida de casada de Lila (o novo nome é o do marido, Carracci) e dos últimos anos de liceu de Lenù e se estende ao longo de um período não muito longo, mas decisivo para a vida de ambas, sobretudo em termos sentimentais, em termos da sua amizade (que sofre muitos solavancos) e em termos da coragem para mudar o que se calhar não pode mesmo ser mudado. Casada Lila, solteira Lenù, ambas passarão junto ao mar umas férias que são uma espécie de jogo de xadrez, com jogadas nem sempre ganhas por quem as pensa até à exaustão mas que constituem uma partida com momentos muito altos nesta história (sendo um deles, sem dúvida, a perda da virgindade de Lenù e outro o reencontro de ambas numa sapataria com a persiana corrida à hora de almoço). O livro, para quem não sabe, é finalista do prémio Man Booker, concorrente, por isso, de Teoria Geral do Esquecimento, de José Eduardo Agualusa, e de Vegetariana, de Han Kang, que publicarei em Outubro.

Comentários

  1. O mês de Abril foi riquíssimo em leituras. Livros atrás de livros e todos tão, mas tão bons! A começar por um Postal de Detroit de JRP, A teoria geral do esquecimento de JEA, A noite não é eterna de ACS, A balada da praia dos cães e Delfim de JCP, O País Invisível (antologia de contos promovido pelo Centro de Estudos Mário Cláudio), Myra de MVC e A Crisálida de Rui Nunes que é uma pérola, mas uma pérola daquelas muito valiosas. Isto tudo intervalando a leitura de um livro muito duro que são as Vozes de Chernobyl de SA, último Nobel da Literatura. Agora peguei no novo livro de contos de João Melo, Os Navios da Noite. Talvez me tenha esquecido de algum, não sei, mas chegar ao mês de Maio de 2016 e ficar positivamente surpreendida com esta onde de boa literatura portuguesa faz-me ter esperança, pois parece-me que há jovens escritores que começam a ganhar terreno nas letras portuguesas e ocuparão certamente um lugar de mérito no futuro. Deles é esperar cada vez mais e bons livros.

    Um abraço e boas leituras.
    Carla Pais

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  2. Maio começa e apanha-me a ler OS CÃES LADRAM de Truman Capote. Citação: «Quando os canhões se calam, ouvem-se as musas.»

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  3. Estou a meio de "Um Postal de Detroit", de João Ricardo Pedro.

    Estou a gostar, é um romance cheio de acção, embora por vezes o autor misture os papeis das personagens e crie alguma confusão ao leitor.

    (continuo a pensar que a evolução do romancista não é a que tem feito Lobo Antunes, mas claro que posso estar errado...)

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  4. Ando a Ler_44

    Por ocasião das grandes manifs de Março 2013, cujo lema era “Que se lixe a troika”, creio que dei aqui nota de ter andado a ler “Um Tratado Sobre os Nossos Actuais Descontentamentos”, Tony Judt (Edições 70, 2011).

    Pois os descontentamentos persistem. Se é que não aumentaram as inquietações…
    Como tal, ando agora a reler esse livro, a ver se melhor esclareço a maneira de transformar(mos) as inquietações em mudança.

    Tenho para mim que é cada vez mais claro aquilo que Tony Judt ali nos explicou: - os nossos actuais descontentamentos e inquietações são resultado da redução dos mecanismos de intervenção do Estado e consequente desregulamentação da economia e das finanças internacionais, no pressuposto de que o individualismo geraria concorrência saudável e aumentaria a eficiência dos serviços prestados ao público.

    Esta opção ideológica originou a grande vaga de privatizações que deram enorme poder a um sistema financeiro global, o qual, vemos agora claramente, é dominado por especuladores sem escrúpulos, e que tem minado a Europa e desqualificado e enfraquecido a Civilização Ocidental – que, no entanto, foi a que deu novos mundos ao mundo.

    A globalização e a desregulamentação facilitaram, através dos paraísos fiscais, a fuga de imensos capitais aos mecanismos de tributação, o que fez diminuir os serviços públicos de apoio aos cidadãos, assim contribuindo designadamente para a crise demográfica resultante do envelhecimento da população da enfraquecida Europa.

    Mas o melhor é dar a palavra a Tony Judt:

    «A desigualdade é corrosiva. Ela apodrece as sociedades a partir de dentro. A repercussão das diferenças materiais leva algum tempo a mostrar-se: mas a seu tempo aumenta a concorrência pelo estatuto social e bens; as pessoas experimentam uma sensação crescente de superioridade (ou de inferioridade) segundo as suas posses; cristaliza-se o preconceito para com as posições inferiores da escala social; o crime aumenta e as patologias do desfavorecimento social vão-se acentuando cada vez mais. O legado da criação de riqueza não regulada é realmente amargo.» (p. 34)

    «Hoje somos encorajados a acreditar na ideia de que a política reflecte as nossas opiniões e nos ajuda a dar forma a um espaço político comum. Os políticos falam e nós reagimos – [“apenas”, digo eu] com os nossos votos. Mas a verdade é muito diferente. A maioria das pessoas não se sente parte de nenhuma conversa importante. Dizem-lhes o que pensar e como pensá-lo. Fazem-nas sentir-se incapazes assim que se abordam questões de pormenor; e quanto a objectivos gerais, encorajam-nas a acreditar que eles foram há muito determinados.» (p. 164)

    Mas há mais… (Cont.)

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  5. Cont .)

    «Temos de reabrir um género diferente de diálogo. Precisamos de ter novamente confiança nos nossos próprios instintos: se uma política ou uma acção ou uma decisão parece de alguma forma errada, temos de encontrar palavras para dizê-lo. Segundo as sondagens, a maioria dos Ingleses está apreensiva com a privatização apressada dos serviços públicos familiares: empresas de água, gás e electricidade, o Metro de Londres, o serviço de autocarros local e o hospital regional, para não falar das casas de repouso, serviços de enfermagem e afins. Mas quando lhes dizem que o objectivo dessas privatizações foi poupar dinheiro público e aumentar a eficiência, calam-se: quem poderia discordar?» (p. 166)

    E, digo eu, isto que se passa na Inglaterra generalizou-se aos outros países da União Europeia.
    Porém, digo eu, não foi isto que designadamente a União Europeia se comprometeu a fazer aquando da sua fundação. Não é esta a sociedade que a maioria dos cidadãos europeus deseja, não são estas regras economicistas as de que a maioria das pessoas carece para terem uma vida digna como, na maioria dos países, tiveram os seus antepassados durante grande parte do século XX, antes da degeneração ética da União.

    Ora bem: Tony Judt tem aqui o Capítulo V – “Que Fazer?”, onde nos explica que, e por que, «precisamos de novas leis, regimes eleitorais diferentes, restrições aos grupos de pressão e ao financiamento político; temos de dar mais (ou menos) autoridade ao poder executivo e temos de descobrir maneiras de tornar os funcionários eleitos e não eleitos sensíveis e responsáveis perante os seus eleitores e patrões: nós.» (p. 161)

    Genericamente, propõe Tony , trata-se de procurar um novo modelo que combine os princípios da social-democracia com os do socialismo democrático.
    Mas, sublinha ele, é preciso levar isto a peito, a sério.

    O melhor é ler o livro e, com desprendimento, discutirmos seriamente o que é preciso que façamos – e fazê-lo, enquanto é tempo.

    (Desculpem-me por me ter alongado tanto. Tudo isto é por mor de ver se, finalmente, arranjamos sossego para nos dedicarmos aos livros como deve ser, sem inquietações a perturbar-nos a leitura.)

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    1. António Luiz Pacheco3 de maio de 2016 às 02:28

      Fez muito bem... pela amostra que nos trouxe fiquei interessado na leitura, e já anotei! Aliás é essa uma das vantagens em frequentar este espaço!

      Um abraço da Cidade Morena para a Cidade do Verde... ahahah!

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  6. Acabei ontem "Um postal de Detroit" de João Ricardo Pedro e recomendo-o sem reservas (aliás, fi-lo no facebook). É um grande livro! Li o primeiro romance do autor quando saiu, e estou cliente. Lerei o terceiro.

    Hoje irei rondar as estantes, a ver quem é que me pisca o olho de forma mais convincente.

    Uma boa semana a todos,

    Rui Miguel Almeida

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  7. O 9º. e último volume dos diários do Vergílio Ferreira (conta-corrente) confirma que vale a pena ler e reler (estou a reler) esta conta-corrente. Uma delícia e este "conta corrente - nova série IV" é, tal como os outros oito, uma delícia.

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  8. Este mês ainda não consegui ler nada, descoroçoado pela descida de divisão iminente do meu clube único, de coração e devoção, praticamente carimbada ontem, sentimento plebeu que não consegui reprimir aqui e deve horrorizar os presentes, mas talvez não o autor de Postais de Detroit, por aquilo que lá li e reli. Grande livro, sem dúvida, propício a várias leituras. Para afogar a referida mágoa, trago agora no regaço O Manuscrito de James Joyce, de Amanda Cross pseudónimo de uma académica (ai!) americana quando se aventura policialmente. Só que já vou no segundo terço e há divagações sobre diversas gentes, incluindo as de Dublin, mas de crime nada. No entanto, como atrás confessei, desde ontem que nada leio, primeiro pela espetativa, depois pela desilusão... talvez o desabafo me ajude.

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    1. António Luiz Pacheco3 de maio de 2016 às 02:30

      Talvez seja esse o móbil... levar o leitor a descobrir o crime!!!!!
      Eheheh!

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    2. Paulo tu descoroçoado eu ansioso, mas tem calma porque a subida acontecerá rapidamente ou a esperança não fosse verde, agora mais do que nunca!

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    3. Obrigado, Severino, já estou a recuperar. Além disso, a segunda traz-nos humildade e dá-nos outra perspetiva: os "grandes" deviam experimentar. Entretanto, descobri que o Manuscrito de James Joyce - já morreu a vítima - está intimamente ligado ao Gente de Dublin, com quem cruza personagens e títulos de capítulos. Interesting.

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  9. Ainda não descobri Ferrante, mas tenho ouvido muito sobre essa amiga genial, só não sabia que era uma tetralogia, começo a ficar curioso sobre ela.

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  10. albertino ferreira2 de maio de 2016 às 09:45

    Acabei de ler "A Descolonização da Guiné-Bissau e o Movimento dos Capitães" de Jorge de Sales Golias dado que fui contemporâneo dos acontecimentos ali narrados nos anos de 1972-74.Iniciei o "Montaigne" do Stefan Zweig, ao mesmo tempo que prossigo a leitura já interrompida do "Estrangeiro" do Camus e do "Romance de Um Homem Rico" do Camilo. Estão na calha "O Judeu" do mesmo Camilo e "Príncipes de Portugal-Suas Grandezas e Misérias" do Aquilino Ribeiro."O Processo" do Kafka e o "Ulisses" (releitura) do Joyce ficaram no limbo.

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  11. Na vez anterior "ameacei" e estou a cumprir: "Lusitânia" de Almeida Faria, onde agora irrompeu o 25 de Abril.

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  12. Estou a reler "O Rio Triste" de Fernando Namora, e continuo a não entender o silêncio que se continua a fazer sobre alguns autores maiores da nossa língua como: Namora, Rodrigues Miguéis etc.
    Boas leituras

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    1. António Luiz Pacheco3 de maio de 2016 às 02:31

      Modas, talvez... mas sem dúvida grandes escritores nossos, que escreveram sobre nós os portugueses que existem e não sobre gente completamente ficcionada que chegam ao absurdo... ou seja, gente que não existe!

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    2. E Ferreira de Castro, acrescentaria eu à longa, longuísssima lista.

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  13. Já li tudo o que foi publicado em Portugal da Elena Ferrante. É uma obra espantosa! Recomendo vivamente!

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