Livros proibidos

Comemorámos há pouco a revolução de Abril e isso recordou-me uma sessão na Biblioteca de Oeiras a que assisti há cerca de um mês, sobre livros proibidos no tempo da outra senhora, sessão que – creio – se repete mensalmente com outras obras e novos participantes (no dia em que fui, o livro era Podem Chamar-me Eurídice, de Orlando da Costa, e falavam sobre ele a escritora Hélia Correia e o Manel). Nessa noite, contou-se uma história extraordinária sobre a incultura e a cegueira dos agentes da censura. O livreiro José Ribeiro, do Espaço Ulmeiro, sofria rusgas periodicamente, porque tinha muitos livros na loja que estavam proibidos pelo regime. Certamente, os censores mandaram agentes à livraria confiscar tudo o que tivesse a ver com Estaline e Lenine; mas os agentes, que não deviam perceber patavina de coisa nenhuma, a Estaline e Lenine acrescentaram também Racine, decerto porque a rima lhes soou perigosa, e apreenderam as peças do dramaturgo francês, que nem nunca soube o que era a União Soviética; como se isso não bastasse, russo por russo, juntaram-lhes ainda um livro sobre Nijinsky, o bailarino e coreógrafo (quiçá pensando que se tratava de um «subversivo») e, mais engraçado ainda, um manual do betão armado (porque o que está «armado», já se sabe, pode ser um problema). Coisas para rir hoje que, na altura, tinham menos graça.  

Comentários

  1. Isso faz-me lembrar uma célebre história de uma brigada da PIDE que entrou em casa de um "subversivo" à procura do Marx... "Onde é que vocês acoitam o Marx? Hum?" Tivemos a informação de que ele se encontrava nesta casa! :-)

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  2. Emílio Gouveia Miranda10 de maio de 2016 às 02:12

    É curioso (ou talvez não) como a repressão, por norma, parte de indivíduos ignorantes...

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  3. OAntónio Luiz Pacheco10 de maio de 2016 às 02:39

    O regime salazarista não era ignorante... nem desinformado ou inculto.
    Como por norma não são a maioria dos regimes... claro que há excepções, mas não nos iludamos:
    - Ignorante, incultos e desinformados são sim os agentes, os sicários dos regimes, aliás quanto mais melhor, pois reprimem sem pensar e nem perceber porquê ou o que estão a fazer - pior, acham que estão a agir correctamente.

    Por isso digo que não nos iludamos, qualquer regime (de esquerda, de direita, religioso ou agnóstico) usará sempre esses agentes e eles sempre existirão, estão por aí, junto de nós e dos nossos, ao nosso lado... prontos a entrar em acção assim que lhes seja dada a hipótese de serem alguma coisa e sobretudo de se sentirem autoridade e com poder. Não se surpreendam portanto quando isso acontece ou venha a acontecer.

    Caminhamos a passos largos para aquilo que tem sido o sonho de todos os regimes que é o contrôle absoluto de cada um, e , o dizer-lhe que fazer, como fazer, o que pensar, o que ler, ao que assistir.
    Não duvidem, e só a nossa força unida em blogs e espaços como estes nos permite manter a nossa liberdade intelectual!

    Alguns de vós serão não simpatizantes da caça ou da tauromaquia, ou não aceitam a religião, acham que não se deve ver novelas e ler certas obras ditas de literatura cor-de-rosa ou light... mas pensem que ao pugnar pela sua interdição ou pelo livre acesso a elas, se estão a tornar igualmente esbirros de forças que pretendem isso mesmo: acabar-nos com a liberdade e dizer-nos o que fazer, controlar-nos.
    Conseguindo isto, a seguir partirão para outros passos e patamares e um dia acordaremos sem liberdade, reduzidos à condição de esbirros ou de meros peões.

    Reflictamos todos...

    Saudações pensativas cá da Cidade Morena!

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    Respostas
    1. Bem observado, Pacheco.

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    2. Concordo. A questão não é que a telenovelas acabem, mas que a oferta seja diversa e inspire as pessoas a ver também outras coisas. E não as apresentar em catadupa, que é talvez o que acontece. Manter as liberdades não é demitir-se de educar.

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    3. António Luiz Pacheco10 de maio de 2016 às 04:24

      "Manter as liberdades não é demitir-se de educar"

      Inteiramente de acordo!

      Como concordo com a sua visão sobre o apresentar em catadupa... mas isso já me parece que faz parte do plano de alienação que referi e temo.
      Estarei enganado? O tal pão e circo...

      Ainda acho que a diversidade de idéias é a maior maravilha que o ser humano pode ter! E que maravilhoso é, trocar essas idéias e discuti-las em liberdade, graças ao 25 de Abril, digo eu!

      Saudações livres cá da Cidade Morena.

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  4. "Podem chamar-me Euridice ..." de Orlando da Costa- Este livro fez parte de uma interessante colecção de seis (denominada LIVROS PROIBIDOS), publicados em 2014 pelo O PÚBLICO- Certamente que saberão que Orlando da Costa era o pai do actual primeiro ministro, António Costa!

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  5. Lembro-me de ler estas e outras histórias num artigo sobre a Livraria Ulmeiro. Interessante e esclarecedor, com o seu toque de humor negro.

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