Bitolas

Apanho uma boa citação no blogue da revista LER e trago-a para aqui: «A crítica? Ela é sobretudo mal fundamentada e mal escrita. É pegar ou largar. Louvores, grandes frases na capa do livro? Irrelevante. Na verdade eu não entendo muitos dos comentários sobre os meus livros. Os meus amigos não costumam lê-los. Devem achá-los deprimentes. Não me importo. Eu acho que a maioria dos escritores são monomaníacos; o remédio é ir em frente. Continuar.» A frase pertence à romancista Anita Brookner, falecida em Março deste ano, e é da última entrevista que deu. Concordando ou não, fez-me lembrar uma resposta de João Ricardo Pedro, o autor de romances como O Teu Rosto Será o Último e Um Postal de Detroit quando há duas semanas fomos a Leiria e uma espectadora lhe perguntou o que sentia quando lia as críticas aos seus livros. O escritor disse que lhe afagavam o ego quando eram boas, claro, mas que quando escrevia não era nos críticos que pensava, mas nos mestres, os Calvinos, os Borges, os Roths e muitos mais. Olhava para cima, como ele disse, a saber que tinha de ser humilde, por um lado, mas, por outro, de fazer dessa gente – e não dos críticos – a sua bitola…


 


 

Comentários

  1. Emílio Gouveia Miranda30 de maio de 2016 às 01:37

    Sim, é curioso, precisamente que o autor escreva, direi mais, não olhando apenas para cima, mas desejando ascender um pouco mais. O autor procura superar aqueles que o impressionaram e bem assim o influenciaram, abrindo novos horizontes, para além das janelas e portas que permaneciam fechadas na sua imaginação, e das múltiplas pequenas gavetinhas onde guardamos as coisas que achamos que poderão vir a fazer-nos falta, mas de que depois esquecemos a chave. A literatura - sobretudo a boa literatura dos grandes autores, ou pelo menos daqueles que para nós são inspiradores, tem esse efeito: de abrir gavetas fechadas, de ir buscar ao mais profundo de nós mesmos, até o que julgávamos esquecido. Por isso é para o Olimpo dos que nos precederam ou influenciam que escrevemos. As críticas, todas elas são necessárias, mesmo que nem sempre sejam bem vindas: afagam o que precisa de ser afagado, lixam o que tem de ser lixado. O ego precisa das duas coisas.

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  2. E ambos têm razão.

    A critica vale o que vale. Sempre foi assim. Muitas vezes é mais caprichosa que honesta.

    O que não faltam por aí são "encomendas" para levar para cima e para puxar para baixo. :)

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  3. Cláudia da Silva Tomazi30 de maio de 2016 às 03:27

    Há livros e diferentes leitores. Medíocres nem leitores são.

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  4. António Luiz Pacheco30 de maio de 2016 às 04:46

    Às vezes dou uma leitura transversal às críticas, confesso que raramente me detenho na sua leitura!
    Criticando os críticos, parece-me que normalmente fazem um exercício de exibir cultura, sendo pouco objectivos em relação ao romance que estão a criticar. Fico sem saber o que pensar... daí pouco ligar às críticas!
    Isto falando das críticas literárias a terceiros, pois no meu caso não se aplica uma vez que não sou escritor, portanto nem por isso posso ser objecto de crítica.

    Passando adiante, não deixa de ser curioso questionar os autores sobre porque ou para quem escrevem, isso já me parece do maior interesse, até pelas respostas que surgem! A resposta do João Ricardo Pedro é lapidar, e nunca tinha pensado nisso, confesso também.

    Um amigo já falecido, grande caçador e autor de dois livros de culto sobre a caça africana (publicados em várias línguas e países) , contou-me que quando mais novo começou a escrever umas coisas sobre caça (e ele foi uma autoridade na caça e na balística) e calhou conhecer guiar em Moçambique o famoso escritor cinegético, o americano James Mellon, que ali ia passar temporadas e onde escreveu muitas das suas melhores páginas. Este ensinou-lhe aquilo que o Mestre José Pardal me passou por sua vez:
    - Quando escreveres, sobretudo não escrevas para ti mesmo, lembra-te que estás a escrever para os outros!

    Creio que se aplica inteiramente!

    Saudações escrevinhadoras cá da Cidade Morena.

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    1. Emílio Gouveia Miranda30 de maio de 2016 às 05:46

      Não tenho grandes dúvidas de que uma crítica literária é, sobretudo, uma demonstração de erudição; quanto muito de cultura. Diz pouco dos livros, poderá dizer algo dos autores das críticas. Dirá muito pouco, com certeza, dos autores dos livros apreciados. É um exercício de simpatia ou de antipatia, também.
      Boas leituras e um abraço desta terra à beira Tejo plantada.

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    2. Cláudia da Silva Tomazi30 de maio de 2016 às 06:43

      Esta citação 'escrever para os outros' bem interessante porque exactamente há o exemplo de Ken Kesey com o livro "One Flew Over the Cucoo's Nest" (cognominado) Clássico da Contracultura e virou filme premiado com 5 Oscar. Sinceramente arte trata-se sem fronteira. Já o livro Deus me livre.

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    3. Subscrevo o Emílio e o João Ricardo, totalmente.
      Há dias li " en passant" uma crítica à uma autora que até gosto muito, Teolinda Gersão.
      A crítica até era positiva, mas era tal a avalanche de erudição e de palavras a metro, que se não conhece-se a obra da autora, também não iria lá pela crítica.
      É o mesmo se aplica a uma série de críticas que por vezes leio em jornais portugueses.
      Parecem que escrevem ao kilo, quantas mais palavras mais peso e se forem hipérboles tanto melhor.

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  5. Não sabia que a Anita Brookner tinha falecido este ano. Gostei muito de ler o Hotel du Lac, o livro com que ela venceu o Booker em 1984.
    Quanto às críticas, depois de ler um livro, gosto de saber o que os outros pensam acerca do mesmo,
    já que aqui onde resido não há
    muita gente com quem possa conversar sobre literatura.
    E também já tenho comprado livros influenciada por algumas sugestões de blogues: umas vezes
    adoro, outras nem por isso.
    Por exemplo, foi graças ao Horas que descobri a Rebecca Solnit.
    Obrigada, Maria do Rosário!
    :-) Antonieta

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  6. Não creio que haja um único escritor que escreva para os críticos (até porque eles nem concordam uns com os outros).

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    1. Absolutamente de acordo Beatriz !
      Há profissões difíceis, entre crítico literário e profissional de um matadouro, venha o ser envolto em enxofre e escolha.

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    2. Bom, de críticos não entendo. Mas escrever para eles é demasiado pequeno para qualquer escritor; até para qualquer pessoa.

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