Uma questão de idade

Nos últimos tempos, proliferaram na imprensa portuguesa entrevistas e artigos de opinião sobre como as gerações mais novas estão a ficar perigosamente infantilizadas e como os adultos, especialmente os pais e educadores, têm responsabilidade nesse facto. «Estamos a criar crianças totós, de uma imaturidade inacreditável» era o título de uma entrevista publicada no Observador, que aproveitava uma declaração do entrevistado, o professor Carlos Neto, especialista em motricidade humana. Carlos Neto trabalha com crianças há quase cinquenta anos e deixou de há uns anos para cá de ver joelhos esfolados – o que era muito saudável, sinónimo de que os miúdos brincavam –, passando, em vez disso, a encontrar meninos que cumprem agendas complicadíssimas (ele chama-lhes «superagendas») que não lhes permitem «estar em confronto com a natureza, em confronto com o risco e com o imprevisível, com a aventura». Quase ao mesmo tempo, leio que a Sociedade Estoril-Sol, promotora do Prémio Literário Agustina Bessa-Luís, decidiu retirar do regulamento do concurso o limite de idade de 35 anos, considerando que condiciona o aparecimento de novos valores (o prémio é para obras inéditas em língua portuguesa, de autores que nunca tenham publicado ficção). Estarão porventura as duas coisas ligadas?

Comentários

  1. Pois... eu ainda tenho uns joelhos que fazem prova da minha infância sem computador, com muita rua e esmurradelas, e lembro-me tão bem do meu pai me curar os arranhões com água oxigenada, soprar para aliviar a dor e dizer... o que arde cura :) e lá se curava tudo!
    Bem que gostava de um dia ter filhos de joelhos esmurrados!
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  2. Emílio Gouveia Miranda12 de abril de 2016 às 02:33

    Bom dia.
    Julgo que em todas as gerações houve análises deste género: chama-se a isto, quer queiramos quer não, evolução. Que quase sempre vai num sentido que, rompendo com os velhos hábitos, choca sempre os mais «antigos». Por isso, a certeza de que dificilmente muitos de nós seriam capazes de viver o que viveram as gerações, por exemplo, de há um século.
    A necessidade aguça o engenho, é dito e sabido, e a evolução dita que o engenho seja menos motor e mecânico e mais de pensamento e de raciocínio. O ser humano está cada vez menos «motorizado» e cada vez mais «introspectivo». A maior parte das tarefas actuais são de carácter que cada vez requerem menos esforço físico. Hoje brinca-se menos no jardim e mais sentado em casa; comunica-se menos presencialmente e mais à distância. Eventualmente, muitas destas coisas serão cíclicas. As pequenas crises rompem muitas vezes com os «maus hábitos» e trazem outros hábitos anteriores, considerados melhores. Bom, este assunto, como bem sabemos levar-nos-ia por horas de conversa e reflexão. Por exemplo: nunca vi tanta gente a praticar desporto. Antigamente, o desporto não era lazer: era feito durante as horas de trabalho. Ah, e acho que os sofás eram menos confortáveis... E as casas também. E havia menos brinquedos electrónicos... E...

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  3. O Emílio tem alguma razão. Faltou fazer a ponte para a pergunta final, onde se sugere uma associação à pouca maturidade literária, por esse ou por outros (um conjunto, seguramente) factores.

    E penso que essa relação é inevitável. Quantos de nós publicariam, ou sequer admitiriam autoria dos «poemas» que escrevemos aos 15 anos? Porque razão quase todos os escritores publicados «renegam» as primeiras obras? Pessoalmente, já ouvi alguns confessarem-me «nunca devia ter publicado isto». E havia outro, que com dezoito anos, anunciava de forma inocente e pedante (não são incompatíveis) ter «escrito um romance». Ou era um génio - de quem nunca se ouviu falar - ou era um deslumbrado.
    A resposta é fácil. Afinal, tirando Rimbaud, quem é que tem nele uma obra literária antes dos 35/40?

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  4. António Luiz Pacheco12 de abril de 2016 às 03:24

    Sem dúvida que é uma análise verdadeira, mas, que se repete e repetirá ao longo dos séculos porque sinal de evolução (como muito bem refere o nosso Comparsa anterior no seu comentário).

    Cito Shakespeare - que me parece propositado e não para exibir "coltura"):
    - Os velhos desconfiam dos jovens porque já foram jovens.

    Os velhos do meu tempo, consideravam perdida a minha geração... hoje sou velho, mas quando me lembro disso sorrio apenas, pela ironia da vida e das lições que nos dá.

    Cada geração é diferente das anteriores... atenção que evolução significa mudança mas não obrigatóriamente para melhor!
    É assim que avançamos... é assim que a humanidade prossegue, por muitas saudades que tenhamos do "nosso tempo" e por muito receio ou desentendimento que tenhamos do presente e do futuro.

    O meu filho é mais tótó do que eu... mas muito mais desenvolvido em muita coisa que eu na idade dele nem desconfiava! E às vezes chama-me ele a mim "tótó", e tem razão! As minhas enteadas dizem à mãe que é muito "tansa" ... quando se perde no aeroporto e não sabe onde ir levantar a bagagem!

    Não é mau nem bom, não faz de nenhum de nós melhor ou pior, apenas somos pessoas do nosso tempo, cada um.

    Importante, creio eu, é guardar as memórias, as lembranças e portanto as tradições, isso sim. No entanto estou aberto a mudanças, sempre estive e se aparento ser conservador é por razões de prudência, pois não apoio tudo e mais alguma coisa só porque é moderno... só para parecer progressista. Considero-me um guardião de tradições e de memórias (familiares ou regionais) mas repito que, aberto ao progresso até porque não vale a pena lutar contra o inevitável.

    Diria que o tempo dos joelhos esfolados terminou, foi uma época... a que sucedeu outra e amanhã outra virá! Os jovens de hoje lamentarão e criticarão a próxima geração quando chegar a sua vez, é a única coisa que podemos tomar como certa!

    Saudações tradicionais cá da Cidade Morena!

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  5. É verdade que os tempos mudam, mudaram, mas ainda há crianças que esfolam os joelhos, a boca, a cabeça e partem braços. E são igualmente crianças adaptadas à evolução dos tempos: instintivas nas tecnologias. Talvez não pertençam à generalidade por diversos factores, mas conto-vos aqui um episódio à antiga que se passou à uns meses.
    Tarde de verão, calor, férias escolares. Os miúdos juntam-se todos no parque para investigarem uma casa abandonada que parece ter fantasmas lá dentro, fantasmas que fazem barulhos e sacodem o medo próprio da infância. De repente, um deles lembra-se da descida por detrás da casa, da trotineta de três rodas sem travões, da adrenalina que a descida pode provocar, da aventura que o perigo suscita. Desafia os outros. E vão. Dois a dois até que um, o que não tem travões, como era de esperar, se estatela de frente contra um muro: boca arrebentada e três dentes partidos. Rosto desfigurado. Os outros em pânico correm a chamar os vizinhos, um deles pega na bicicleta para vir chamar os pais do acidentado e todos eles choram assustados quando vêem e ouvem o som das sirenes, os bombeiros, a maca... Choram quando imaginam o sermão!
    Os miúdos ainda brincam como antigamente, basta dar-lhes um bocadinho de liberdade e o instinto que demonstram para as tecnologias aflora igualmente para o resto. Só que infelizmente a segurança de deixar hoje um filho brincar na rua não é exactamente a mesma que teriam os nossos pais há umas décadas.
    Conclusão: a nenhum deles foi preciso explicar porque não pode estar duas ou três horas agarrado ao computador a jogar, a nenhum deles foi preciso explicar o perigo, bastava-lhes olhar o amigo, as sequelas marcadas no rosto do amigo. E ainda hoje se juntam para ver o fantasma da casa assombrada no parque e ainda hoje dizem: lembraste daquele dia?
    A nossa vida hoje é outra e é essa outra maneira de viver que condiciona a dos nossos filhos, mas dar-lhes uma hora de ar livre por dia é dar-lhes a possibilidade de guardarem memórias.

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  6. António Luiz Pacheco12 de abril de 2016 às 05:41

    Hum... a cachopada já veio da escola e os meus jovens vizinhos, Anderson, o pequeno Robert, Dárcio, Daílson, Júnior, Zelmira, Janete, Stóvia, Andreia, Éli e a impagável Karina, andam ali no corredor do prédio em gritaria a brincar ao "gato pendurado" (versão da apanhada, mas em que o coito é um local onde se possam pendurar... sobretudo porque há muitos gradeamentos em portas e janelas), a subir e descer as escadas, correndo e pulando (o pequeno Robert sempre às costas de um dos outros). Brincam na rua, no pátio e pelas escadas e corredor - menos em frente à porta da Tia Argentina que ralha - "vou lhe bátê!". As gargalhadas e a alegria gritadas são esfusiantes... miúdos que ainda brincam, pois não têm jogos electrónicos e como falta muito a luz também não se prendem à TV.
    Esfolam constantemente joelhos, canelas e o que calhe... o "tio Luiz" acode e põe betadine, halibut e uma "curita" (penso), perante uma assistência compenetrada onde algum segura na mão do ferido. Também coloca gelo nalguma equimose dolorida... Brinquedos, tinham uma bola em mau estado e eu comprei-lhes uma nova, é tudo. Organizam desfiles de modelos, brincam às girls band, cantam e dançam ou fazem jogos. As histórias que eu e minha mulher contamos: João Pateta, Alfaiate Valente, Gato das botas, Cinderela, os animais cantores, etc. são muito apreciadas e o Anderson que é escoteiro, já as conta nas reuniões e faz um figurão!

    Há dias ensinei aos mais velhitos a jogar à mímica e agora tem sido um fartão de risos e imitações pela noitinha, antes do jantar.

    A minha sobrinha Laurinha (11 anos) passeia em Madrid na sua bicicleta com a cadelita "nina" numa mochila às costas...

    Portanto a humanidade e a juventude não estão perdidas... é uma questão de contexto e portanto de lugar, de oportunidade, diria.

    Não incorramos no erro de generalizar ou tomar as partes pelo todo.

    Saudações infantis e felizes cá da Cidade Morena!

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    1. É tão bom ouvir a felicidade das crianças. Na infância a felicidade ouve-se. E sim, o António tem razão quando diz que será uma questão de contexto, oportunidade! Muitos dos miúdos hoje ficam presos a horários de agenda, ao pai ou mãe que os transporta para todo o lado, porque não têm escolha... Mas claro que há esperança. Tem de haver!

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  7. O Brown! Chame-se o Brown.

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    1. António Luiz Pacheco12 de abril de 2016 às 09:25

      O Charlie? O James? O Dan? O sugar?
      Ahahah!

      Abraço cá da Morena Cidade!

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    2. Este, visto em Santa Olávia, era bom a ensinar fidalgos. Deixava-os correr, cair, trepar às árvores e apanhar soalheiras, como filhos de um caseiro.

      Um abraço.

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    3. Que bela referência a «Os Maias» ;)

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  8. Há zonas que foram abandonadas pelas pessoas para viver e hoje designam-se, nalguns casos, "Parque Natural de...". Quase ninguém anda por ali. Alguns dos que poderiam ir para lá preferem ficar sentados em frente do computador ou da consola de jogos. Tudo tem a sua compensação, os poucos que vão gozam de um prazer acrescido. Posso assegurar-vos, há agora locais que são autênticos santuários da Natureza.

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