O que ando a ler
Num bocadinho que tinha – só um dia, na verdade – fui a correr a uma estante e trouxe de lá um livro curto, que desse para começar e acabar num virote. O autor, Per Petterson, já o conhecia de Maldito Seja o Rio do Tempo (de que aqui falei); mas não chegara ainda a pôr o dente nestes Cavalos Roubados – um romance com uma relação próxima com a natureza, como, aliás, muita literatura nórdica (no caso, trata-se de um texto norueguês). Além dos cavalos roubados por dois adolescentes para uma passeata que não corre como esperado, temos nesta obra um rapaz de quinze anos que também é de certa forma roubado, pois, no fim de umas férias especiais com o progenitor, no ano de 1948, acaba por voltar a Oslo, onde estão a mãe e a irmã, e perder o contacto com esse homem tão importante na sua vida, que lutara contra o nazismo uns anos antes. Vemos agora o rapaz bastante mais velho, já viúvo, a isolar-se deliberadamente numa cabana no meio do nada, depois de isolado sem querer pela morte da mulher, e encontrando nesse nada um outro velho que conheceu em menino, justamente nesse verão antigo em que trabalhou, passeou, pensou, apaixonou-se, chorou e foi a cavalo com o pai até à Suécia numa viagem de grande cumplicidade. Com muito sol no passado e neve no presente (juventude e velhice), Cavalos Roubados é um romance a que o Daily Telegraph chamou com razão «profundamente atmosférico», uma obra de arte delicada sobre a nostalgia de uma vida mais pura e simples.
Estou a acabar de ler "Proibido Andar Sobre a Relva" de Ferro Rodrigues e fiquei agradavelmente surpreendido pela qualidade da escrita deste autor esquecido. Comprei o livro num alfarrabista por estar em saldo e por achar piada ao título.
ResponderEliminarE entretanto vou na página 40 do polémico, "Alentejo Prometido" de Henrique Raposo. Ainda nem cheguei a meio, mas até agora não encontrei nada de polémico e estou a gostar de ler (boa prosa...).
Só li um bocadinho desse dito livro polémico - por sinal sobe o suicídio dos alentejanos - e encontrei que a análise é frouxa, unilateral e nem sequer compreende quer o acto em si quer o suicida específico que pretende categorizar. Não encontro que o livro seja polémico; diria antes que é fruto de uma mente verde e convencida da sua verdade, como quase todas as mentes verdes. Não merece o acontecido estardalhaço.
EliminarBolas. Não sou anónima. sou mesmo eu.
EliminarBom dia. As minhas leituras andam quase sempre pelo passado. Acabei há dias Les anges noirs, de um romancista que adoro, François Mauriac. Como todos os livros que li dele, este passa-se no campo, entre os senhores terratenentes prontos a fazer tudo, casamentos arranjados, etc., para manter (e aumentar) as terras nas mãos dos descendentes. Por vezes parece uma soap-opera rural mas o estilo de Mauriac é soberbo, nunca me arrependo de voltar a este escritor. Agora alterno dois livros não-literários. Uma breve biografia de George Sand (que mulher admirável!) e A noite do meu bem. A História e as histórias do samba-canção, de Ruy Castro, outro autor que me fascina (li dois livros dele no ano passado). Castro retrata com pormenores deliciosos o Rio de Janeiro noturno dos anos 50, quando reinavam as boites para grã-finos de Copacabana, e os jornalistas, os políticos, os artistas e todo o género de VIPS se cruzavam à noite ao som do samba-canção, canções tristes sobre desilusões amorosas tocados por grandes músicos e cantores. São 500 páginas que ainda me vão ocupar mais uma ou duas semanas. Boas leituras!
ResponderEliminarEstou a acabar Crime no Vicariato de Agatha Christie, resultado de uma deriva policial recente, As Cartas (de Rilke) a um Jovem Poeta motivado por um artigo recente no Ípsilon do Padre Tolentino. E o que tenho no meu colo, debaixo do aparelho onde escrevo, é Um Postal de Boston, de JRPedro, acabadinho de comprar e que iniciarei mal saia da livraria onde ainda estou, sossegadamente.
ResponderEliminar'Nos mares do fim do mundo' do Bernardo Santareno, relato da sua actividade enquanto médico embarcado em barcos bacalhoeiros no finais de 1950, e que acaba de ser reeditado. É um excelente e duro retrato de um povo e do país de então. Nunca o tinha lido, e é dos melhores livros que li nos últimos tempos.
ResponderEliminarAndo a ler:
ResponderEliminar«Raymond Chandler : A Mysterious Something in the Light : A Life » de Tom Williams
Gosto muito de ler biografias extensas, volumosas, cheias de pormenores dos contextos, e esta é assim.
Também eu gosto de ler biografias assim, cheias de pormenores. Em fevereiro li uma de Sinatra. Foi uma leitura inesquecível.
EliminarAndo a Ler _ 43
ResponderEliminarNa iminência de uma série de consultas e tratamentos no Centro de Saúde, a prudência mandou-me procurar um livro jeitoso para ler nas salas de espera.
Ora cá está este “6 Falsas Novelas”, de Ramón Gómez de la Serna.
Pelas minhas contas, seis novelas em menos de duzentas páginas dá uma média aí de umas trinta por novela. Porreiro para o que me espera.
Entretanto, como dizia alguém, “a ignorância é a sala de espera do conhecimento” – de modo que eu, na minha ignorância, vou ter de, antes de mais, averiguar quem é este escritor do qual não li nada nem me lembro de ter ouvido falar.
Ena! Pelos anos 20 e tal viveu algum tempo no Estoril, foi amigo de Almada Negreiros, ambos futuristas muito activos. Ramón além de escritor era também artista, pintava e desenhava. Viveu em Madrid, depois em Paris, algum tempo em Nápoles, passou por cá e foi parar a Buenos Aires...
Escreveu que se fartou, cerca de 100 livros.
Foi ele que inventou e cultivou abundantemente as “greguerías”, uma espécie de metáforas regadas com humor.
Fiquei a saber que, recentemente, tivemos cá uma edição com greguerías escolhidas e traduzidas por Jorge Silva Melo.
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Posto isto, lá comecei as andanças pelas salas de espera.
As novelas são apresentadas pela respectiva nacionalidade / geografia: a russa, a chinesa, a tártara, a negra, a alemã e a norte-americana.
A tártara começa com os seguintes parágrafos: «A Tartária é um sarilho terrível. Nem os geógrafos nem os historiadores sabem a que se ater. Mas um novelista tem a obrigação de saber o que é tártaro e o que não é tártaro, e poder fazer uma novela tártara.
A Tartária é país para novelistas, e eu bem sei que numa estalagem da Tartária, vendo pôr toalhas nas mesas a mulheres típicas, se poderia escrever a novela mais novelesca das novelas.»
A russa, a chinesa, a africana, etc, podiam muito bem começar da mesma maneira.
Já se pode imaginar os deliciosos nacos de prosa que por aquelas paragens podemos encontrar.
Por exemplo na China: «O bosque fazia reluzir uma expectativa inabitual no lago. O espírito da terra tinha vindo beber nas suas águas e abraçava-se nelas. As árvores mais próximas sofriam o reumatismo das suas raízes. A refracção religiosa do céu brilhava na sua praceta central, porque os lagos são os profundos altares de água. (...)»
Enfim, não posso alongar-me mais, que a enfermeira chama por mim.
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Estou a ficar melhor, obrigado.
(Está visto: ler faz bem à saúde.)
Se tivesse essa verve, eu desatava a escrever entre consultas. Pegava nestes bocadinhos que aqui deixou e zás, ia por aí fora. Quem sabe quando esteja com o corpo tratado tenha o romance quase no fim.):
EliminarMelhorinhas
Quer a Beatriz dizer que tratar da saúde faz bem à escrita?
EliminarNão é uma relação necessária e em muitos de nós será inexistente, mas no seu caso pode acontecer :), consegue escrever rodeado de gente e ruído.
EliminarBFS
A ler tudo e nada...
ResponderEliminarDurante uma viagem de trabalho à Guatemala uma antropóloga espanhola, descobre que foi dada como morta quando os jornais do seu país noticiam o seu falecimento num acidente.
ResponderEliminarAo saber que a sua filha identificou erradamente um cadáver mutilado como sendo o seu, decide manter a verdade escondida e continuar "morta".
Sem ser uma obra-prima este paradoxo de mais de quinhentas páginas, sobre a experiência de se estar a viver a sua própria morte, ainda me mantém, não direi "agarrado", mas de tal modo interessado que continuarei até à última página.
"MENTIRA"-Enrique de Hériz - 1ª. edição 2006
Depois de ler Tanja Borzel (não, não vos aconselho, já que é um livro derivado daquelas teses de doutoramento de cortar à faca, States and regions in the European Union , Institutional Adaptation in Germany and Spain ", contraponto entre uma Alemanha que se gaba de ter um sistema de landers cooperativos face a uma Espanha de regiões autónomas conflituais - gaba-te Alemanha dos teus modelos perfeitos!); depois de ler O Porque devemos sair do Euro do João Ferreira do Amaral e mais outros quatro autores que se debruçam sobre o Euro (que só acentuaram aquilo que há muito defendo, a saída de Portugal da moeda única, para evitar a sangria inexorável de Portugueses do seu "mapa") lá consegui ter tempo de qualidade para o Michel Houellebecq , através do Submissão, logo seguido do Mapa e o Território. Um autor que dispensa apresentações, vivendo o seu tempo sem se distrair e diluir em romances pardacentos, selfies de papel celofane. O mundo é para ser agarrado e os autores têm uma função e uma responsabilidade social.
ResponderEliminarAndo a ler «Um Postal de Detroit», porque tinha lido «O Teu Rosto Será o Último», do mesmo autor, e, bolas bolas, que surpresa, também mt bom. Escrever assim, depois de se ter perdido um emprego de 10 anos como engenheiro de telecomunicações, até parece truque de marketing (mas sei que não é).
ResponderEliminarAndo a ler Vingança do Camilo e estou a acabar a Ana Karenina, depois de ter lido a Guerra e Paz do Tolstoi e os Irmãos Karamazov do Dostoievski.A seguir irei ler o Romance de Um Homem Rico e o Judeu do Camilo. Já comecei o Processo do Kafka , o Estrangeiro do Camus e o Ulisses do Joyce mas interrompi. Está na bicha o Montaigne do Stefan Zweig um autor favorito de quem li quase toda a obra publicada em tempos pela Civilização.Como vêem prefiro os clássicos que ainda não li ou releio co praxer como é o caso de todos os romances do Aquilino.Por ano devo ler uma média de 35 livros mas gostaria de chegar aos 50. Sei que é difícil porque ainda trabalho mas a partir do próximo ano terei mais tempo a partir de julho porque irei para a reforma compulsiva.Tenho de recuperar o tempo perdido mas sei que não vai chegar sequer para um terço da Biblioteca Ideal do Bernard Pivot embora já tenha alguns no meu currículo.Boas leituras também caros confrades.
ResponderEliminarA propósito de Alentejo: por acaso há semanas tinha lido o 1.º da trilogia de Almeida Faria - "A Paixão" e agora estou no 2.º - "Cortes", ainda melhor, mais escorreito e incisivo. Assim sendo, já me preveni com o 3.º - "Lusitânia" - que lerei de seguida.
ResponderEliminarLer Almeida Faria é uma surpresa boa que nos acontece.
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