Matar saudades
Quem tem a minha idade ou mais – mas também quem tenha pais que compravam livros e liam regularmente – lembra-se seguramente dos Livros RTP, uma colecção de obras portuguesas e estrangeiras que a Rádio Televisão Portuguesa criou com a Editorial Verbo quando eu era jovem e na qual li, por exemplo, O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou Aparição, de Vergílio Ferreira. Estava a coisa mais ou menos esquecida quando a nova direcção da televisão pública decidiu reavivá-la e, por isso, desde ontem que temos de novo à disposição os Livros RTP, colecção hoje dirigida pelo meu querido colega Zeferino Coelho, da Editorial Caminho, na qual se publicará o essencial da ficção do século XX, metade em português, metade em tradução. Iniciada com dois títulos poderosos – Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago (que conta justamente com prefácio de Zeferino Coelho, o seu editor de uma vida), e A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa, vencedor do Nobel da Literatura há poucos anos (este será prefaciado por António Mega Ferreira), a colecção promete alimentar-se todos os meses com mais livros, que estarão à venda em banca e nas livrarias por apenas 10 Euros. E nós desejosos de lhes deitarmos a mão e matarmos saudades, até porque as capas novas piscam curiosamente o olho às antigas.
Excelente iniciativa, sem dúvida e mais ainda pelo preço que me parece francamente acessível... 10 euros por mês para se ter um livro e compôr uma biblioteca. Veremos quanto às escolhas, mas que espero pluralistas e sobretudo sensatas no tocante a ajudar quem tenha menos posses mas interesse ou gosto pela leitura a ter assim uma pequena biblioteca bem-recheada.
ResponderEliminarÉ curioso o facto de também eu ter lido "O retrato de Dorian Gray" na colecção livros RTP, que não tenho completa mas de que tenho vários volumes.
Saudações livrescas cá da Cidade Morena!
Também a Relógio D'Água está a iniciar uma colecção de clássicos entre os 5 e os 10 euros.
EliminarTambém soube isso ontem:). E como não comprei os livros RTP de então, calha-me comprar os de agora. Estão em bom preço.
ResponderEliminarE hoje é o Dia da Terra. Desejo a todos um BFS prolongado. Tratem de pôr as mãos no barro, correr nos prados, colher frutos maduros. Para celebrar:) e ver gente que gostam e vos gosta seriamente e sem descanso. Àmen.
Na minha estante as lombadas com os dois semicírculos pintados cada um de sua cor fazem-se notar: Almada, Agustina, M. Teixeira-Gomes , Régio, Machado de Assis, Graham Green , Pirandello, Stendhal , Chateaubriand , Sófocles , O. Wilde , Bernanos , Unamuno , Tolstoi ; uma antologia de poesia brasileira de Valle Figueiredo, uma história de arte em Portugal de Flórido Vasconcelos e um ensaio de música de Valls Gorina . Não constituí a biblioteca mas reuni à data um acervo jeitoso.
ResponderEliminarConfesso que não me lembro das obras que li no teatro de guerra que me chegaram às mãos pela via do Movimento Nacional Feminino.
Os antigos tenho-os todos, herdados, e volta e meia descubro uma pérola no meio deles. A última foi O Rapaz da Geórgia, de Erskine Caldwell. Quanto aos novos, bem capeados, vai ser difícil resistir, apesar de escassear espaço.
ResponderEliminarA melhor forma de ler «Ensaio Sobre a Cegueira» - tal como, aliás, todas as obras de José Saramago - é através das edições originais da Editorial Caminho... aquelas cuja ortografia não foi pervertida por fascistas que procuram uma (impossível) «uniformização da língua».
ResponderEliminarTem toda a razão!
EliminarE onde ponho tantos livros (a maioria repetidos)?
ResponderEliminarQuando falo na antiga colecção livros RTP vem-me à lembrança um triste episódio que observei, não posso precisar se uns dias antes ou depois do 25 de Abril; na Guiné, o MNF (Movimento Nacional Feminino) ofereceu (nos) a militares em fins de comissão (completamente de rastos e desejosos de chegar à Metrópole) uns quantos livros RTP a cada um que. Só que, por via do seu estado anímico e psíquico, os militares juntaram-nos numa pilha a arder...infelizmente más recordações, pois livros a arder é mau sinal...
Também havia nessa antiga colecção o livro "Carta de Guia de Casados", de D. Francisco Manuel de Melo. Vale mais como documento histórico do que propriamente pela qualidade literária. Tinha até a sua piada, de tão retrógrado. Mas aposto que, nos tempos que correm, o politicamente correcto não permitirá a reedição dessa obra.
ResponderEliminarDe facto, «a coisa» não estava assim tão esquecida, dado que a Editora Marcador, deu nova vida ao conceito, durante cerca de 2 anos. Um pouco diferente, já que contava apenas com novos autores portugueses e tinha por finalidade dar-lhes alguma alguma visibilidade e projecção. Tive o privilégio de ser um dos contemplados... De qualquer modo, não deixa de ser bem vinda esta nova modalidade. Rei morto, rei posto. Vençam as obras!
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