Leitura terapêutica

Muito se falou já no poder empático da literatura, veículo criador de laços que permitem ao leitor experimentar emoções e sentimentos fictícios e senti-los na própria pele como se fossem reais. Esta capacidade transformadora dos livros levou recentemente a que se associassem médicos e bibliotecários ingleses para receitar livros de ficção, poesia e auto-ajuda a doentes com depressão e ansiedade, em vez de lhes ser administrada outra medicação que pode ter efeitos secundários bastante mais nocivos. Com o apoio do Estado e a colaboração de associações de bibliotecários em todo o país, os médicos preparam-se para enviar os seus doentes com uma receita de leitura à biblioteca mais próxima da sua residência, na qual terão acesso imediato à obra recomendada. A lista, elaborada pela Reading Agency, inclui títulos muito variados e tem uma secção especial de obras humorísticas para «animar» os mais deprimidos.

Comentários

  1. António Luiz Pacheco18 de abril de 2016 às 05:07

    Não tenho a menor dúvida quanto aos efeitos terapêuticos da leitura!
    Aliás, é cura que aprendi em casa e pratico... nada como um bom livro, de um tema que nos agrade e apeteça ler. Tenho até as minhas obras específicas para situações identificadas, e, em novas situações logo arranjo ou me recordo de uma, às vezes até calha descobrir um novo livro que se aplica ao momento!

    Saudações curativas e paliativas cá da Cidade Morena

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  2. E os médicos? Leem o que receitam? Ou basta-lhes a bula?

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    1. António Luiz Pacheco18 de abril de 2016 às 07:05

      Ahahah! Os médicos terão que ler, ou ter lido, o que receitam... pelo menos a sinopse... ou como saberão o que se adequa a quê?

      Imagine-se:
      O senhor está com uma depressão ambulatória de origem sedentária com delírio interrompido! Vai ler imediatamente "Quatro cantos do Mundo"... de Cristina Carvalho. Vou passar-lhe a receita que pode ser aviada na Bertrand, já sabe que a comparticipação do estado graças ao novo ministro da cultura é de 80% em literatura portuguesa e 60 na traduzida! Leia duas vezes por dia , depois do almoço e ao deitar! Se conseguir ler numa esplanada, melhor!
      Ahahah!
      Uma nova era na medicina, a medicina literária!


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    2. Pois é... dá vontade de rir, talvez... Para mim, há absurdo na relacionação entre leitura e prescrição médica. A leitura é uma coisa outra, alheia à dicotomia doença/saúde. Acontece noutro plano, noutra dimensão: a da curiosidade, do desejo, do sonho, do encontro, do maravilhamento... Na leitura, abre-se a porta (o livro) e, a partir daí, tudo é incerto... (Como fazer, desta incerteza, remédio?!

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    3. António Luiz Pacheco18 de abril de 2016 às 08:09

      Mas um livro não deixa de ser um remédio... nem que seja contra o tédio ou a ignorância, a ansiedade, a solidão... sei lá!

      Saudações remediadas cá da Cidade Morena onde está a morrer muita gente por falta de assistência e medicamentos!

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    4. Cada um lê à sua maneira...

      Saudações acinzentadas de uma cidade em que a Primavera não há meio de se afirmar luminosa.

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    5. ...que não são livros.

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  3. Emílio Gouveia Miranda18 de abril de 2016 às 09:19

    Fantástico!

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  4. E se aparecem uns leitores sem nenhuma doença especial que após lerem o Werther procedem como o personagem e como alguns leitores alemães da época romântica e se suicidam?
    Ainda vão ter que receitar uma obra que atue como medicamento neutralizador do efeito literário Werther.

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  5. Não acredito no poder dos livros contra uma depressão instalada. Também tenho sérias dúvidas acerca de prescrições médicas de livros. Parece-me, nesse caso que o médico actua fora da sua jurisdição. Pode aconselhar a leitura adequada antes de dormir, por exemplo, ou diariamente durante x tempo, se acaso é algo que agrada e dá prazer ao doente. Tudo que vá para além disto parece-me pura fantasia.

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  6. Raramente ou nunca, os medicamentos para a ansiedade /depressão curam.
    Só atenuam. Mas o mal, esse continua lá, em parte incerta.
    Se por momentos, se conseguir fazer algo inédito, de que nunca se lembraria, como ler um livro, porque afinal o “candy crash” não ajuda.
    E se esse livro nos levar para longe das sombras que nos perseguem, dos abismos que nos apavoram e dos “likes” vorazes mas vazios.
    Se esse mesmo livro lhe plantar um desejo do desconhecido?
    E se desse desejo lhe provier uma força, ao principio fragil, mas depois imesurável?
    Chama-se alento?
    Pode-se até descobrir o nome próprio da doença que nos afecta e não o genérico.
    Pode-se até dar o caso de tropeçar em novas /velhas palavras, como calundus (Port. Sec. XVII ).
    Pode-se descobrir que não somos o umbigo do mundo nem o umbigo do mêdo.
    Se nos esquercermos, por momentos o que doi, a anatomia das nossas fraturas (se precisares de rir, lê aqui a anatomia das nossas farturas).
    Pode-se até ler um manual de jardinagem, aquele que na pág. 55 diz assim;
    “Para cuidar de rosas há que entender-lhes os espinhos...”
    E se virmos bem, as pílulas que o médico receita tem decerto um efeito pouco prolongado, comparativamente com certos livros que nos acompanham para a vida(e aqui, não sei porquê lembrei-me do Fermín e dos seus “sugus”, da Sombra do Vento).
    Até já antevejo novas profissões, como Terapeuta Holistíco(a) Literário(a).
    Fixe?

    Des salguem-se
    Des supliciem-se
    Sejam Felizes ( todos os dias um bocadinho)
    --
    Puck

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    1. Continuo a não acreditar. Mantenho: não se sai de uma depressão profunda com livros. Em primeiro lugar porque não apetece fazer nada e muito menos ler. Não se entendem as palavras, a mente embota; elas, que muito ou pouco nos acompanharam noutros momentos, deixam de ser desejadas e de nos fazer sentido. Estamos ainda rodeados de livros, de pessoas que até podem querer-nos bem, mas tudo que desejamos é silêncio, paz, um estado de morte aparente, não ver, não ouvir; ou ver o mundo sem lhe tocar ou ser tocado. Entre nós e o mundo há uma parede de doença grave a ditar distância. Domina-nos o desejo de coisa nenhuma que faz da morte consequência natural. Nas doenças graves do corpo acontece o mesmo, se não nos acode a medicina, deixamo-nos ir, exauridos, os sons do mundo tornam-se-nos insuportáveis, a consumição da febre e da dor desinteressa-nos dele, a morte a puxar-nos para ela. Num e noutro caso os afectos desataram-se, não entram. E é isto.

      Os livros, caro Puck, são receita profiláctica para amantes e amigos (deles), para estádios médios de aborrecimento, e outros menores dissabores em pessoas de boa ou mediana saúde e até convalescença de doenças que não apoquentem demasiado. Não servem para os dois casos que referi. E nem mil testamentos sobre as suas potencialidades me convencem.
      Há no entanto uma função livresca que pode ser terapêutica: receitarem-se ao imenso número de doentes que têm na vida aborrecimentos médios, alturas e situações de sofrimento ou desgaste absolutamente normais e que qualquer humano deve suportar sem pílulas, tem essa obrigação, e que se enfiam num consultório médico porque querem andar bem dispostos e o sofrimento - normal - não lhes quadra. A esses sim, podem receitar-se livros em vez de submergi-los em medicação que eles agradecem mas só danifica - passam os dias bem dispostos e é quase como nas doenças graves, o mundo pouco lhes toca, só que andam nas nuvens em vez de estarem a carregar com ele às costas .

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  7. Talvez fosse boa ideia fazer uma lista dos livros e autores que nos empurram um pouco mais para o abismo, como o Céline e a sua Viagem ao Fim da Noite.

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    1. O Céline com certeza pois a "Viagem" é considerada unanimemente um dos romances fundamentais do Séc. XX que não me canso de reler, além de outros da sua lavra. Já agora recomendava também "Os Demónios" do Dostoievski e "O Combate com o Demónio" do Stefan Zweig pequenos ensaios sobre Holderlin, Kleist (um suicida) e Nietzche (um paranoico e um louco).

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  8. Boa tarde, este comentário talvez venha tarde em termos temporais, no entanto sou de opinião de que nunca é tarde para se facilitar a aprendizagem. Eu aprendo todos os dias.

    Vi o texto e os comentários. Li as opiniões mais renitentes que afirmam que o livro não cura a depressão.
    Entendo ser necessário afirmar:
    O livro não substitui o terapeuta e a própria relação terapêutica!
    Será sempre um mediador expressivo, criativo, reflexivo e critico, que nos permitirá abrir novas portas sobre o conhecimento de nós próprios, dos outros e da realidade envolvente.

    Como?
    Através das histórias, dos mitos, das lendas, das fábulas, dos contos, e de outras formas de géneros literários podemos explorar diversas dimensões do sujeito. No caso das perturbações e desequilíbrios mentais, o sujeito através da identificação e projecção com as personagens das histórias, poderá ver nelas reflectidas vários dos seus medos, problemas, angustias, reflectir com elas, na companhia do terapeuta, verbalizar sobre estas temáticas, que se encontravam ocultas, e efectuar a devida catarse, a expurgação, a libertação emocional.
    Através da análise reflexiva e critica do livro, conseguirá ter uma maior percepção daquilo que lhe causa mal estar e sofrimento e da mesma forma que por exemplo na fábula, numa situação-problema os personagens encontram soluções, o sujeito poderá conseguir encontrar uma solução para o seu problema. Desta forma e na presença de um técnico com experiência na área, numa relação também ela especifica, poderá efectuar a tão desejada elaboração psíquica, alcançando maior maturidade psicológica e o equilíbrio psicológico.

    A literatura e neste caso a leitura pode funcionar como um passaporte para o nosso mundo interno, abrir porta para o interior e depois para a externo. A literatura com o seu poder curativo e transformador. Modifica as pessoas.
    Sou de opinião de que toda a experiência literária é catártica, além de que estimula a nossa capacidade de pensar, a criatividade e a imaginação, ao permitir a libertação das emoções, se devidamente utilizada pode ser um excelente educador das emoções, que vai produzir uma reacção de alívio da tensão e vai purificar a psique, daí poder apresentar valor terapêutico.

    Obs: A história dos livros sendo comparado com os medicamentos, logicamente se trata de uma metáfora, uma forma de abordar esta questão, do seu poder didáctico, pedagógico, educativo, terapêutico, social e comunitário. No entanto, deve ser utilizado por pessoas com experiência e formação na área. No campo terapêutico, o técnico deverá ser acumulador de conhecimento sobre o funcionamento psicológico do individuo. Sou um pouco renitente em aceitar a ideia do bibliotecário fazer biblioterapia ou logoterapia através dos contos, já que para isso deverá ter formação sobre o funcionamento da pessoa, como sujeito..

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