Escritores e dinheiro
Leio num artigo publicado no La Nación, jornal argentino de grande tiragem, que um estudo encomendado por várias associações de escritores na Europa confirmou que os escritores franceses nunca estiveram tão deprimidos como agora. O estado de coisas no nosso continente não é dos melhores, bem o sabemos, mas se pensavam que a razão para a neura era essa, desenganem-se, pois parece que o problema é, afinal, terem as contas bancárias completamente rapadas. Os escritores dizem que nunca ganharam tão pouco na sua vida, e metade deles declara inclusivamente que nem sequer consegue o equivalente a um salário mínimo com os seus livros (um salário mínimo em França deve ser, porém, três vezes o português). Assumindo-se claramente contra os apoios governamentais aos escritores, o articulista aconselha então os queixosos a trabalharem, segundo o exemplo de Rodolfo Fogwill, um autor argentino que ganhou vários prémios importantes e que não só nunca deixou a sua ocupação como consultor de marketing, como dizia que, se os escritores fossem subsidiados, então também o deveriam ser os canalizadores e as baby-sitters, uma vez que não via nada de excepcionalmente meritório em escrever livros. Citando Faulkner, o autor do artigo acrescenta que o escritor não precisa de liberdade económica, o que precisa é de lápis e papel; que nada de bom se escreve só por se ter recebido dinheiro para isso e que um bom escritor nunca recorre a fundações ou instituições para o apoiarem financeiramente pela simples razão de que estará a escrever, não tendo tempo para minudências. A época de Faulkner era diferente, bem entendido, e hoje está fora de questão um escritor viver como um indigente, como tantos artistas viveram no passado. Mas, na verdade, a conta bancária recheada não garante, só por si, a qualidade literária. Só que a pobreza também não. Além disso, na cadeia da edição, do paginador ao livreiro, passando pelo tipógrafo e o editor, todos são profissionais. Então, porque não é profissão escrever?
Este texto levanta, com certeza, inúmeras questões pertinentes, e, tal como todas as que o são, não é, também, de resposta fácil ou de uma única resposta. Se os textos que o escritor escreve são fruto de diversas interpretações, significa que há várias maneiras de serem interpretados, conforme quem os lê. Quanto a mim, mais importante do que o número de exemplares de um livro que um autor consegue vender - ele que nada vende - é o número de exemplares que são - de facto - lidos. Há muitos livros em estantes, que jamais serão lidos; muitos dos quais - também - receberam prémios por terem sido tão comprados. Por isso, mais importante do que os números que geram, as obras literárias, são-no na medida em que mudam pequenos mundos, sendo o do autor o menos importante. Ele já foi a fonte. Importa o destino. Esses pequenos mundos que ele consegue tocar. Isso não tem preço. Escrever - obras literárias - não é profissão; é vocação; é a missão mais elevada... Mas talvez esta seja uma visão pretensiosa. É apenas a minha.
ResponderEliminarGostei de o ler! Interessante ponto de vista e a sua conclusão com que tendo a concordar!
EliminarUm abraço cá da Cidade Morena, onde se vive sem nada fazer, diria que viver também é uma vocação e esta malta o prova!
Obrigado, Amigo.
EliminarUm abraço para a Cidade Morena, deste lugar onde Almourol se ergue.
É sempre polémico abordar este tema.
ResponderEliminarMas os tempos são outros e a concorrência no mundo das artes e letras é cada vez mais "feroz". Nunca existiram tantos criadores como no nosso tempo.
O que é certo é que escrever (principalmente ficção) exige um "isolamento" que não se compadece com um trabalho das nove às cinco...
Se o mercado não dá realmente para todos, há actividades suplementares que deveriam ser pagas, como as visitas a escolas, por exemplo, onde se acaba também por "dar aulas". Pagas da mesma forma que se paga ao electricista e ao canalizador (do exemplo) quando há qualquer anomalia.
Mais uma análise de que gostei, gosto sempre de ler os Extraordinários, e também me fixei na questão do isolamento... é importante (penso eu) mas parece-me que só na fase da escrita, de passar ao papel aquilo que já se criou e para que também acredito seja importante o não-isolamento, a observação, a vivência, experimentar.
EliminarSerá?
Abraço criativo cá da Cidade Morena onde a imaginação pode beber em tantas fontes...
Vamos admitir que sim, que a baby-sitter é equivalente ao escritor. Que qualquer das actividades é um hobbie, uma actividade paralela à que lhe ocupa os dias e ajuda a prover o sustento ou a vida que tem. Há no entanto uma diferença abismal no produto do trabalho de ambos. Os bons livros ultrapassam largamente o intuito subjectivo do escritor e que nem acredito que seja nele primordial - é ver quantos escreveram nas mais adversas condições sem nunca saberem do quanto venderiam no futuro, ou gozarem sequer uma parte dos lucros que viriam a dar às editoras -. Um livro é uma espécie de parte do escritor que se desmembra e autonomiza, mercê de muito trabalho, talento e perseverança; não é trabalho comparável ao babysitting.
ResponderEliminarPosto isto, sendo verdade que se pode perder o fio à meada quando se corre atrás de subsídios, parece-me mais nefasta a "obrigação" do bolseiro ou receptor de ajudas, para com a entidade subsidiadora; mas se escolheram concorrer a elas, é que aceitaram as condições. Porque as há sempre.
São condições de escrita dadas apenas a alguns e, nesse sentido, injustas. Mas a vida não é justa, há situações em que, por via delas, se produz um bom trabalho. E o mundo ganha com isso.
No entanto, o talento não nasce das boas condições económicas, ou todos os abonados da fortuna seriam bons escritores. Mas ter desafogo económico e pertencer a um meio onde a cultura importa, é, à partida, estar na fila da frente. Havendo talento e capacidade de trabalho. Digo eu.
E diz muito bem, na minha humilde opinião!
EliminarGostei particularmente de a ler, hoje, Caríssima Beatriz.
Um rasgado cumprimento, com vénia e chapelada, cá da Cidade Morena!
Que belo tema este! Até salivo, na expectativa dos belos comentários que se poderão tecer usando este fio...
ResponderEliminarSuponho que haja escritores profissionais ou a tempo inteiro e escritores em geral, ou nas horas vagas, o que não terá a ver nem com a qualidade nem com o sucesso.
O escritor profissional, vive de escrever, sejam livros, sejam ensaios, artigos, notícias, faz revisões, traduz, etc. Ou seja, pode escrever e ganhar a vida assim, estarei errado? Pode ainda estar ligado à escrita numa actividade académica ou pedagógica, como professor, formador, e por aí fora, incluindo o jornalismo e as actividades editoriais como referi.
Não é?
O outro, é o que escreve por vocação impulso, por vontade, por gosto. Vive de uma profissão que pode nem ter nada a ver (quantos médicos são escritores?) e dedica-se à escrita.
Creio que o profissional da escrita tem a vantagem de como um atleta, apurar a forma e mantê-la, logo escreverá melhor... e mais.
Mas também acredito que este escritor profissional tende a ser um intelectual ensimesmado, que só se conhece a si e olha para as suas emoções, construindo à volta de si mesmo.
Será? Claro que estou a construir um lugar-comum, mas partindo deste modelo podemos depois criar outros com mais ou menos destas características que todavia me parecem comuns a muito dos escritores de profissão, ou pelo menos é a idéia que deles faço e pode ser errada, notem bem!
O outro escritor, aquele que vive uma vida profissional diversa, creio que tem a principal vantagem em viver e observar, contactar a realidade e o dia-a-dia das pessoas comuns onde pode beber e inspirar-se sem ter de recorrer aos seus fantasmas e ficção, criando personagens que sejam gente vulgar ou invulgar mas como os que conhecemos em vez de pessoas perturbadas ou com problemas psicológicos, intensos e pesados, como é vulgar.
Estou a alongar-me e a entrar em caminhos perigosos... ainda levo umas bofetadas, ahahah!
Acredito no escritor que não é profissional sim, o que não quer dizer que se conhecer o sucesso não se dedique inteiramente à escrita, mas ao fechar a porta da vida e da observação é capaz de perder algo. Pode ser?
Saudações interrogativas cá da Cidade Morena, aliás propícia à observação e à criação.
Só duas vezes ganhei dinheiro com a escrita e por coisas "light" e breves assinadas Blondewithaphd. A escrita séria, académica ou pseudo-literária, assinada com nome de gente e publicada em Portugal e no estrangeiro (grande parte das vezes através de editoras de 1ª fila, graças a Deus ao menos por isso) nunca me rendeu dinheiro. Ocorrem-me dois pensamentos:
ResponderEliminara. quase ninguém lê, o público predisposto à leitura é hoje ínfimo porque a leitura não é uma actividade com gratificação imediata e porque, cada vez mais, grassa a iliteracia funcional (basta ver a capacidade de leitura/interpretação dos alunos que chegam às faculdades);
b. a escrita nunca foi uma arte tendencialmente (bem)-remunerada porque se associa, parece-me, a um hobby desenvolvido em momentos de ócio e a quem não necessite dela para sobreviver, logo, nunca se profissionalizou.
Os escritores não desenvolvem uma actividade que se possa dizer reivindicativa de direitos de classe (não vão fazer greve à escrita para ser mais bem pagos, não é?).
Estou em crer que este paradigma seja difícil de mudar e a tendência vai ser o agravamento da situação económica dos escritores. É uma pena, mas o mercado é que dita o produto e se o consumidor não quer consumir escrita, o produto rarefaz-se. Levar o consumidor a querer ler, isso é que é a questão...
Depende do conceito de "escrever" e de "ser escritor". Que não são necessariamente a mesma coisa. Eu escrevo, vivo da escrita (escrita publicitária, escrita em linguagem clara . Ou seja, escrevo a metro.). Pagam-me por isso. Logo é a minha profissão. Mas não sou escritora. Não tenho obra literária publicada (nem da que não é literária, porque um livro de contos saído de um blogue, não conta.) , nem sancionada pelos pares. Ser escritor, para a grande maioria das pessoas, não é tanto uma profissão, um ofício, mas um estatuto alcançado por direito de talento e obra. Nessa perspectiva, realmente não fará grande sentido um escritor ser pago. Bastará, um "sim, senhor, muito bem". E as 300 páginas do romance estarão pagas. Mas, o que as pessoas esquecem, é que com mais ou menos estatuto, quem escreve essas 300 páginas (seja escritor ou não) dedica tempo, (muitas) horas de trabalho. Trabalho altamente qualificado, porque convenhamos, toda a gente pode escrever um livro, mas poucos conseguem escrever uma boa história. E essas horas de trabalho qualificado não merecem ser pagas? E porque carga de água? Os actores também vivem de aplausos. Mas, mal ou bem, são pagos pelos espectáculos que fazem. E os escritores? Terão eles de se contentar com as palmadinhas (muitas vezes póstumas) dos pares, que tal como eles, também escrevem e publicam? Pois, realmente é complexo. Felizmente que escrevo e não sou escritora.
ResponderEliminarPubliquei este cometário por engano. O correcto é o que vem abaixo.
EliminarDepende do conceito de "escrever" e de "ser escritor". Que não são necessariamente a mesma coisa. Eu escrevo, vivo da escrita (escrita publicitária, escrita em linguagem clara . Ou seja escrevo a metro.). Pagam-me um ordenado e à hora por isso. Logo é a minha profissão. Mas não sou escritora. Não tenho obra literária publicada (nem da que não é literária, um livro de contos saído de um blogue, não conta), nem sancionada pelos pares. Ser escritor, para a grande maioria das pessoas, não é tanto uma profissão, um ofício, mas um estatuto alcançado por direito de talento e obra. Nessa perspectiva, realmente não fará grande sentido um escritor ser pago. Mas, o que as pessoas esquecem, é que com mais ou menos estatuto, quem escreve (seja escritor ou não) dedica tempo, horas de trabalho. Trabalho altamente qualificado, porque convenhamos, toda a gente pode escrever um livro, mas poucos conseguem escrever uma boa história. E essas horas de trabalho qualificado não merecem ser pagas? Ou bastará uma palmadinha nas costas, muito bem, sim senhor? Os actores também vivem de aplausos. Mas, mal ou bem, são pagos pelos espectáculos que fazem. E os escritores? Terão eles de se contentar com as palmadinhas (muitas vezes póstumas) dos pares, que tal como eles, também escrevem e publicam? Felizmente que escrevo e não sou escritora.
ResponderEliminarTantas e tantas vezes que este assunto vem à baila, aqui ou noutro lado qualquer. Se calhar até já comentei noutras ocasiões e nem me lembro. As coisas vão-se repetindo, com mais ou menos utilidade, pelo que já nem sequer faz muito sentido procurar convencer os de opinião contrária.
ResponderEliminarO que é ser escritor, autor, ghost-writter, quem é profissional, quem é amador... um ghost-writter, por ser pago para escrever uma biografia ou o que seja, é mais «profissional» que um escritor amador desconhecido? E se esse «amador» um dia for publicado numa micro-editora e até conseguir vender uns livritos aos amigos nuns saraus, passou a ser profissional? E o ghost, cujo nome nunca aparece, deixou de ser escritor por ser anónimo?
Eu, que já fui tradutor e revisor, mas que sempre considerei a escrita como sendo a vocação primeira, quando me apresento, sou escritor, tradutor, revisor? Terei de me dizer tradutor só porque já fui pago para isso, e nunca recebi um cêntimo pelos livros que acumulo na gaveta? E Pessoa, era escriturário ou Autor? Enfim, rótulos, preconceitos, e afins.
Se merecem ser pagos e receber subsídios? No dia em que se considerar a Arte tão útil como arranjar um cano ou impedir que um bebé chore, talvez mereçam.
«Ah porque tudo é um negócio e ninguém lê, logo as editoras não são misericórdias, são empresas, não pagam royalties a pedido».
E «presenças» de «estrelas» em discotecas, são pagas porquê? É útil? Alguém quer saber?
«O escritor que tem outra profissão vê mundo, o que se fecha em casa rabisca sobre neuroses». Eu já estive dos dois lados, e nunca produzi tanto como agora, que tenho tempo e possibilidade de me dedicar apenas à escrita. Mas também reconheço que muita da minha matéria-prima vem dos tempos em que fiz outras coisas. Não há verdades absolutas, como todos sabem, muito menos as «minhas». Abraço a todos.
Gostei muitíssimo de ler a sua reflexão, meu Caro!
EliminarSobretudo porque reflete a sua experiência própria e é portanto esclarecida.
Um abraço literário cá da Cidade Morena!
Obrigado caro António. Reflexões apenas, como as suas. Ainda bem que existe este espaço, onde elas podem ocorrer.
EliminarÉ preciso contrariar a ideia posta a circular por pessoas que vivem da finança de que não há lugar a subsídios atribuídos a criadores artísticos (deve ir todo para a banca e para os fundos). Também é preciso distinguir escritores de canalizadores ou baby-sitters (não se trata de elitismos mas de especificidades). Veja-se a quantidade de escritores que ainda estão ativos " muitos anos ou séculos depois de terem morrido e quanto aos outros, uma vez executado o seu trabalho e recebido o devido estipêndio, a ação esfumou-se sem deixar rasto.
ResponderEliminarAntes de existir o estado moderno os artistas viviam na órbita de reis, duques, condes, papas, bispos, mercadores, banqueiros e outras entidades importantes naqueles tempos e recebiam pela obra produzida ou pela promessa de a realizar. Quem pagará a arquitetos que levantam um centro cultural ou um estádio, a arquitetos paisagistas que rasgam uma praça ou um jardim, a compositores que constroem edifícios sonoros, a escultores que povoam de obras o espaço público, a pintores que retratam um presidente da república ou um sentimento definidor de uma época. É mais difícil estabelecer o critério relativamente a prosadores, poetas, dramaturgos, encenadores, realizadores de cinema, coreógrafos mas é um problema que compete aos representantes eleitos resolver, estabelecendo critérios transparentes a que aqueles queiram candidatar-se.
10 a 15% do preço de venda do produto, o livro, é o que recebe, quando recebe, o criador único desse mesmo produto que é o livro. É o capitalismo na máxima exploração do operário/produtor: abusa do facto desse produtor ser uma entidade individual e não pertencer a uma classe que faça greve. O capitalismo suga o escritor até ao tutano, sem qualquer consideração ou remorso.
ResponderEliminarDe acordo. E para mim há autores e depois há os escritores.
EliminarDesculpe o atrevimento, Ana, mas gostaria de ficar a saber qual a diferença entre autores e escritores, uma vez que os separa e aponta as preferências. O escritor não é autor? Ou sou é autor o que é editado por uma chancela?
EliminarSe acha a minha pergunta idiota, não responda.
Ouvi há pouco tempo uma definição que me agradou, sem poder garantir que está correcta:
EliminarA diferença entre Autor e Escritor, é que o primeiro ascende a essa condição criando algo de novo, que muda os cânones e regras da própria Literatura, ao contrário do «mero» escritor, que se limita a trabalhar dentro das balizas já existentes. Assim sendo, Pessoa, Saramago, Camões, seriam Autores, porque dobraram esquinas, subiram degraus. Antes deles, aquilo não existia.
Há anos que não vinha até aqui!
ResponderEliminarVerifico, com gosto, que o António Luiz Pacheco mantém a regularidade das visitas e as suas sempre pertinentes intervenções.
Sobre o assunto deste "post", quero dizer que a percentagem que as editoras dão aos autores - os tais 10%, em regra - não chegam, na maioria dos casos, para matar o vício dos dois cafés diários.
O último documento que recebi da ASA de 1-1-2015 a 31-12-2015, nem para o café dá, mas isso também é culpa minha.
O que está a dar são os prémios literários, alguns mais que outros, mas os que são significativos dão para fazer uma festa para os amigos e uma vida de movimentação de conta a débito durante algum tempo.
Concorri uma vez ao Prémio da Leya, mas não no ano em que "O Teu Rosto Será o Último" venceu. Foi no ano seguinte. Curiosamente, esse meu original, que era baseado num conto que publiquei em 4 de Setembro de 1991 numa revista feminina, baseia-se no acidente de Alcafache de 11 de Setembro e no ataque às torres gémeas, também ocorrido a 11 de Setembro, uns anos depois. Há um paralelismo nas duas ocorrências trágicas no meu romance entre o personagem, que aproveita o acidente para desaparecer, fazer vida em França e estar na lista dos passageiros do fatídico voo de American Airlines.
Julgam que este romance, depois de ser liminarmente excluído em concurso, o propus para outro grupo editorial ou editora? Nada. Se quero obter algum lucro com ele - e não é o lucro que me leva a escrever - publico-o eu, como o tenho feito com outras obras, de que o António Luiz é testemunha.
Editoras, nunca mais!
Carpe Diem
O Sr. Francisco Vale, editor da Relógio d'Água escreveu uma "crónica" muito boa.
Eliminarhttps://www.facebook.com/relogiodaguaeditores/posts/1011022832307908
"Escritores Precisam-Se para Festivais
Houve um tempo, hoje mítico, em que os escritores procuravam vidas tranquilas, eram fotografados à secretária ou nos jardins da Gulbenkian, encontravam-se nas livrarias ou nos cinemas, contactavam com os leitores em sessões de autógrafos e davam entrevistas quando os livros eram publicados.
As viagens que faziam eram a Paris, Irlanda ou México, em busca de referências e inspiração. Eram vidas algo sedentárias, mas que nada tinham de monacal, como podem testemunhar o Botequim, o Procópio, o Âncora d’Ouro e o Majestic. Mas esse afastamento permitia o livre jogo da imaginação e a concentração das energias criativas.
Os Maias são inseparáveis dos vagares de cônsul que Eça teve em Newcastle. A arca de Pessoa teria ficado bem menos cheia sem o seu semi-emprego e o quase anonimato que teve em vida. Foi a forçada inactividade de Saramago, como jornalista após 1975, que lhe deu o fôlego para escrever Levantado do Chão e Memorial do Convento. São conhecidos os retiros na Ericeira e Caparica, onde Cardoso Pires escreveu. As obras de Vergílio Ferreira e Llansol são inseparáveis da tranquilidade na região de Sintra. Gonçalo M. Tavares surgiu após uma gestação do seu universo literário longe da atenção do público. Lillias Fraser e Adoecer de Hélia Correia talvez não tivessem sido possíveis sem o isolamento de Janas.
Nas últimas décadas, a situação alterou-se, em geral no bom sentido. Os escritores quebraram isolamentos, estabeleceram uma nova relação com os média, onde muitos colaboram, as viagens internacionais tornaram-se frequentes, a interacção com os leitores é também feita pelo Facebook. Os encontros culturais sucedem-se na Casa Fernando Pessoa, no CCB, em Serralves, na Gulbenkian ou na Casa de Mateus e surgem redes de contactos internacionais. Os debates e lançamentos de livros são diários
Mas muitos escritores procuram agora um atalho para a divulgação nos festivais literários, talvez numa recusa da imagem do escritor isolado de que Proust, no seu quarto revestido a cortiça, permanece o exemplo extremo.
Esses festivais tornaram-se mesmo um sector da economia tão próspero como as start-ups, o calçado nortenho, os hostels na Baixa de Lisboa ou o turismo algarvio. Segundo um recente artigo da jornalista Joana Emídio Marques, só para o que resta de 2016 estão previstos mais de trinta festivais organizados pelas autarquias, em geral com design da Booktailors. Basta multiplicar este número pelos dez a quinze escritores que em média comparecem a cada um deles para entender a amplitude do fenómeno e a escassez de participantes. A solução tem sido encontrar autores que frequentam quase todos os festivais e ainda conseguem, nos intervalos das mesas-redondas, conferências e prémios, escrever uma novela ou poema que justifique novos convites. (Ainda segundo J. E. M., na sua maioria estão inscritos na Booktailors, que funciona como «criadora de eventos» e agência literária.)
Mas mesmo assim faltam participantes, pois há os escritores que dizem não e os que nem sequer são convidados por se saber que recusam a promoção fácil de festivais.
A tendência é, pois, para «inventar» escritores, surgindo nomes que deixam intrigados até os mais atentos.
É bem possível que a próxima geração de prosadores não seja a das «novas periferias urbanas» ou de um qualquer realismo, mas a dos «festivais literários», com uma escrita ágil, eficaz, envolvente, etc. E é provável que em breve as autarquias tenham de colocar anúncios do género: Precisam-se escritores, com menos de trinta anos, para trabalho sazonal, com disponibilidade para viajar e gosto por mesas-redondas. Dá-se preferência a quem tiver lido Os Maias em versão integral.
Não se trata de condenar os festivais literários por princípio ou em bloco. Há uns melhores do que outros, tal como acontece com as feiras medievais que no Verão surgem
Cont
Eliminar"Nas Correntes d’Escritas da Póvoa, os escritores contactam com os leitores nas escolas e é possível ao fim do dia espreitar o mar numa praia quase deserta. No Folio de Óbidos, há uma rede de livrarias, e os autores, tal como no LeV de Matosinhos, são pagos em moeda menos etérea do que a da fama. Do Festival da Madeira aproveita-se pelo menos a viagem e, ao que parece, a ausência da Booktailors permite participantes inabituais.
Além disso, para os escritores mais sedentários, os festivais funcionam como sala de convívio e os mais expeditos aproveitam mesmo para fazer contactos que lhes permitem edição no Brasil, Colômbia ou Azerbaijão. E todos beneficiam da presença da rádio, televisão e jornais.
Mas a vantagem maior vai para as autarquias, que com um pequeno investimento se colocam no «mapa» do país, como gostam de dizer.
O problema não está só na dispersão criativa e na perda de mistério que faz parte da aura de um escritor e que se vai dissipando de festival em festival.
Há também a transformação da literatura em divertimento, processo de que os participantes habituais têm consciência, pois sabem que às autarquias a literatura só interessa como espectáculo mediático. E, assim sendo, como não ver que é risível organizar mesas-redondas sobre «o silêncio dos livros» ou «a angústia da primeira página»?
O pior é que se concede a autarquias eleitas para resolver problemas das populações o direito de interferirem na orientação da actividade literária do país com recurso a dinheiros públicos. A escolha — mesmo que por interposto organizador — dos autores, dos temas, dos júris e dos prémios confere a órgãos de poder local uma capacidade de influência literária para que não estão vocacionados e nada justifica. Substituem assim as instâncias que, com todas as suas falhas e lacunas, são as mais capazes de o fazer, como as revistas e os suplementos literários, os críticos dos programas culturais da rádio e televisão, as comunidades de leitores, os debates no Facebook, os prémios atribuídos por fundações culturais, ou pelos «pares», como o Pen Clube, a Associação Portuguesa de Escritores ou a Sociedade Portuguesa de Autores.
Estarão as autarquias vocacionadas, através daqueles que escolhem e pagam, para decidir se o estilo de Valter Hugo Mãe é melhor do que o de José Luís Peixoto ou as metáforas de Afonso Cruz preferíveis às de Patrícia Reis? Os premiados nas Correntes d’Escritas da Póvoa desde 2006 serão realmente os dez melhores escritores em língua portuguesa e castelhana?
O que diríamos se o Governo decidisse escolher os principais poetas e romancistas portugueses, nomeando um júri em conselho de ministros e atribuindo-lhes pensão vitalícia, residência com jardim e um lugar no Panteão?"
Francisco Vale
Aqui há uns anos no suplemento literário do defunto jornal República lembro-me que um articulista previa que num futuro não muito longínquo, toda a gente escreveria, em termos literários, o que ele definia como "escrivósis"ou seja uma pandemia de escreventes. Penso que não andaremos muito longe disto. Veja-se a quantidade de livros que são editados mensalmente e o pouco publico leitor português.Como
ResponderEliminare que os escritores poderão viver da escrita?Só raros o conseguem.Vi num jornal há tempos que os noruegueses liam uma média de 16 livros por ano.Gostaria de saber qual será a média portuguesa. Eu por minha parte li em 2015 32 livros e quero ver se ultrapasso mesmo considerando que ainda trabalho e a disponibilidade não é muita. Em França penso que a rentrée literária se faz com a edição de 700 /800 livros, um exagero mesmo considerando o público ledor francês.Agora quanto à qualidade do que é editado a maioria é lixo. Habitualmente dou a volta pelas FNACS, Corte Inglês e Bertrand e o que vejo na maioria dos casos é lixo e saio sem comprar nada; dá vontade de incinerar aquilo tudo não pelas razões invocadas pelos nazis nos seus autos de fé. No fundo haverá um excesso de oferta daí a dificuldade de separar o trigo do joio.Muito mais haveria para dizer mas fica para outra vez.
Interessante. Apequenou-se tal idéia o fora superada desde então 'o livro impresso perderia espaço a era digital' contraprova está o leitor comparecer com números surpreendentes donde editoras saltaram a disponibilizar mais escritores e, óbvio livros continuam em alta no mercado literário mundial. Outra questão estaria a ser a língua "disque-disque" famoso, entre mérito pátria e modernidade e estilo e carisma etecetera. Claro, surge o estúpido marketing a apavorar o mercado editorial argentino a finança francesa de escritores...
ResponderEliminarMeus queridos, em França a possibilidade a boa educação se lhe permite opinião em alto e bom tom a propriedade conhecimento o umbigo, enquanto (resta-nos) o mundo qual entende-se: quem tem boca vai a Roma.
Sim, o escritor faz sucesso agrada quer bem resolvido é pau à toda obra e, nem pensem os franceses a escrita depressiva os fará vencer.
Desculpe, não entendi nada.
EliminarCaro Anónimo
EliminarQuatro escassos minutos é o tempo que mediou entre o comentário de Cláudia e a sua confissão de que não entendeu nada.
Este é o grande problema da Literatura que tem sido hoje aqui discutido. Quero eu dizer: não é em quatro minutos que nós, leitores, podemos cumprir a nossa responsabilidade de fazer uma leitura criativa daquelas subtis sugestões e telegráficos subentendidos que recheiam e potenciam os três parágrafos de Cláudia.
Então a autora tem a obrigação de deixar tudo explicadinho? O leitor não tem a obrigação de, ao ler, exercitar com o que lê uma actividade criativa?
Para que é que servem as células cinzentas dos leitores? Não é para serem exercitadas?
Acha melhor receber a papinha toda feita e entender à primeira tudo o que Cláudia escreve? Não prefere ser desafiado a trabalhar/completar/enriquecer a seu jeito aquilo que a autora lhe fornece?
Pense nisto uns quinze ou vinte minutos, e amanhã falamos – que eu, dentro de quatro minutos, vou-me deitar, pois tenho de me levantar antes das sete para ir à vida.
Basta saber ler para distinguir um discurso organizado de outro que o não é.
EliminarJustamente, Beatriz: por definição, o discurso de Cláudia não é organizado. Ela deixa sistematicamente ao leitor o desafio de exercer a sua criatividade, organizando-o.
EliminarÉ que, segundo ela, «(resta-nos) o mundo qual entende-se: quem tem boca vai a Roma.»
Não sei se está a ver...
Felizmente, escrevo livros mas não vivo da escrita. E gosto de viver na minha aldeia, ausente de mundo.
ResponderEliminarAcho que serei sempre um tímido social e nunca saberei fazer o meu marketing, pois sou homem das serras e dos campos.
Talvez por isso, escrevo os rostos e as vozes, de toda esta gente que esbanja sorrisos de bom-dia e pacatos apertos de mão, aqui e ali cimentados por um tinto ou por uma bela fatia de presunto.
Por vezes, gostava de ser como os outros, fluentes faladores em mesas redondas. Mas logo recuo, pois não passo de um homem com as suas fronteiras, alicerçando o meu meio século de vida (mais imposto de selo) na pacificidade do meu mundo.
Há quem diga que para se ter sucesso é preciso "sairmos da nossa zona de conforto." Mas, na verdade, sou feliz nesta zona de conforto. Para quê sair dela, se me sinto feliz assim?
Mas compreendo que a maioria dos autores goste de ir ao mundo. E que isso seja o melhor caminho para o sucesso. Admiro quem fala ainda melhor do que escreve.
Mas eu não sou assim.
E no entanto sou feliz. Com a minha família, com as minhas gentes. Com as minhas gatas e com o meu cão. Com o orvalho das madrugadas e com o piar da coruja noctívaga.
E, talvez como um distraído das notícias dos ventos, ainda acredito no futuro e nos acasos, e que ainda se possa escrever livremente, sem pensar no dinheiro que isso represente.
(Sim, confesso, estou a caminho de uma velhice cheia de utopias.)
Bom, tudo isto para dizer que lamento que estes tempos cuidem tão mal dos escritores. Que a opinião pública os julgue como coisa supérflua, quando, na verdade, deveria ser causa sagrada da humanidade, tão necessitada de quem escreva novos horizontes.
E é tudo por agora.
Um abraço para todos!
Sobre a felicidade não acrescento, mas permita-me desconfiar (desconfio de toda a gente que se sente feliz, é mania e não embirração).
EliminarQuanto a mesas redondas, entendo. Elas são distribuídas, como alguém já disse aqui, aos sempre mesmos que provavelmente já eram os melhores a comunicar e ganham cada vez mais traquejo, papando ao pequeno almoço o novato que ouse sentar-se-lhes ao lado.
Mas o quotidiano do escritor parece-me viver de outra coisa e as conversas à mesa, redonda ou quadrada que ela seja, por mais interessantes, não contam para a obra.
Gostei desta sua confissão e análise... sincera, clara e portanto esclarecida pois é a de uma pessoa em paz, que sabe onde está e quem é!
EliminarNão sai para o Mundo? Hum... não me parece, pois tem a felicidade de ter o seu Mundo, não acha? A sua aldeia e as suas gentes,, que conhece como ninguém e ao pormenor, logo tem aí um manancial para escrever, sobre elas, sobre as sensações, o tempo, os cheiros, os sabores, as lembranças e os muitos pequenos casos do dia-a-dia que compõem um roteiro quase ilimitado.
Nada como escrever sobre o que conhecemos, o nosso Mundo, seja ele qual for...
Conversando entre aldeãos, mas esclarecidos, que gostam de escrever, vou-lhe citar um trecho do que ando aqui por terras de Benguela a cozinhar e poderá ser o meu próximo romance, aliás já mais ou menos escrito na cabeça e que ando a passar ao "papel" (no word):
Chamem-me Ismael, começava o outro… pois a mim chamem-me Alvarito.
Sei o que estão a pensar, sou homem das letras e do mar, conheço a frase, assumo o plágio!
Chamo-me Álvaro Pitagrós Peixoto mas podia ser Robinson Crusoé, nascido em Benguela vão 46 anos e na verdade não sou nem náufrago nem fugitivo de coisa nenhuma, estou aqui porque quero… agora ficava bem escrever que só faço o que me apetece mas todos sabemos que tal não seria verdade, apenas um lugar-comum e como sou um contador de histórias para mais caçador é claro que contorno um pouco a verdade e componho a realidade, no entanto não sou bem um mentiroso, só minto por boas razões e compete-me a mim decidir quais são!
Disse que sou homem das letras, ora há quem escreva sobre aquilo que nunca viu ou viveu, depois imagina, ficciona se quiserem mas no fundo mente, já eu considero-me um pintor da palavra a embelezar o quadro que nem preciso inventar só reproduzo, com umas pinceladas! Isso fez de mim escritor de viagens, de sucesso diga-se de passagem e sem falsa modéstia.
- Um grande abraço aí para a sua aldeia.
Nota: Não gosto particularmente de citações, que nos fazem muitas vezes parecer pretenciosos, mas algumas merecem-no, conhece certamente Fernando Pessoa quando diz que a sua aldeia tem o tamanho do Mundo?
Fui sacar ao Google e partilho com os Extraordinários:
Eu Sou do Tamanho do que Vejo
Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura...
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema VII"
Heterónimo de Fernando Pessoa
Vou-lhe dizer que conheço gente feliz... é verdade!
EliminarTambém reflicto muitas vezes nisso, e ainda me atrevo a citar esta outra passagem, sobre o tema da felicidade:
Como já disse, estou aqui porque quero, a Equimina é um dos muitos lugares onde fui feliz. Sim, ao contrário da maior parte dos que escrevem eu fui e sou feliz, claro que só até certo ponto, reconheço para ser verdadeiro… Mas a Equimina é um lugar especial porque foi o
primeiro sítio onde fui feliz e portanto marcou-me indelévelmente, é um local mágico!
Dizem que um homem não deve voltar aonde foi feliz… é capaz de haver razão nisto, mas como fui feliz em tantos lugares, estaria então condenado a ir sempre para sítios novos e nunca voltar onde estive? Por isso voltei aqui muitas vezes e desta ainda não sei se para sempre pois também se diz que nunca se deve dizer nunca! Já lá vão 6 anos e continuo aqui… não me falta nada? Claro que sim, continuo a não querer mentir, falta-me muita coisa pois o homem é complexo e tanto mais quanto mais viaja e reúne informação, mas no essencial sinto-me bem e preenchido, sou feliz posso assim dizer. Talvez o Domingo seja mais feliz do que eu pela sua simplicidade, já o Lucas, esse de certeza que é menos feliz do que eu, apesar de ter óbvios momentos de felicidade, porém é demasiado ambicioso para ser feliz!
Se calhar sou feliz porque não sou muito ambicioso, isto é fui e ainda tenho ambição, mas sempre sem mentir posso dizer que alcancei boa parte daquilo que ambicionava por isso me sinto agora e aqui, bem, apesar de as coisas terem mudado tanto que nunca imaginei! Por outro lado, talvez deva reconhecer que sou feliz porque sempre tive tudo o que me fazia feliz e quando não estava ou não tinha, procurava o lado positivo em vez de me pôr a lamuriar, o que me faz sentir assim uma espécie de batoteiro da felicidade, mas em troca gosto de ver os outros felizes e talvez por isso tenho a tendência de me aproximar dos mais simples, cuja felicidade é mais fácil de alcançar… vejamos, olhem o Domingo: Se lhe der uns óculos-escuros baratos, foleiros, uma porcaria qualquer comprada na loja dos 300, isso para ele é uma felicidade tal que até comove. E em cada vez que os use, é com felicidade! Já o Lucas… bem, a felicidade dele está em ir ao mar comigo por exemplo, como em garotos, ser o meu barqueiro e puxar o peixe para cima do barco, fica feliz com cada grande pungo ou mero que eu apanhe – e não apenas pelo seu valor monetário – mas é uma felicidade circunstancial, efémera, eu conheço-o bem, a felicidade dele reside em ter um Land Cruiser novo para exibir poder e riqueza, isso já me pesa mais a dar e em contribuir para que seja feliz!
Foi do que me apercebi ao longo destes 46 anos e me amargurou um pouco confesso, até azedou porque vi tanta gente a precisar de ajuda e eu sem poder fazer nada… pior, tanta gente a querer algo de mim, cheia de expectativas na minha pessoa, eu que detesto desiludir, não corresponder ou não estar à altura, o que me dá uma sensação de impotência insuportável! Foi o que acabou por me trazer para aqui, para a Equimina: É que aqui tenho à minha volta gente feliz por nada, que espera de mim muito pouco ou coisas tão simples como um pequeno ordenado ou gotas para os olhos, o que é inaceitável na maior parte dos lugares que vocês leitores conhecem e por onde também eu andei.
Saudações de uma terra de gente feliz.
Adorei este texto, no qual me revi. É quase impossível dizê-lo melhor. Ainda estou a absorvê-lo, relendo-o uma vez mais.
EliminarE creio que é mais fácil falar das melancolias do que das alegrias. Talvez por isso, este texto me cativou sobremaneira.
Um forte abraço, extraordinário António!
Espero que esse livro conheça a luz do dia. Não apenas pelo que li, que achei sublime, mas por tudo o que comenta neste blogue. Há uma vida cheia dentro de si, que, confesso-o, chega a despertar-me uma salutar inveja, por todas as maravilhas que já viveu. Quero ler esse livro um dia.
EliminarNão sou muito de comentar este blogue, mas venho aqui diariamente, como um pequeno viciado no que aqui se escreve e comenta. Já li aqui opiniões e textos lendários.
Bom, é tudo por agora.
Um enorme abraço, deste aldeão pacificado com a vida, neste bucólico rincão provinciano.
Talvez tenha razão (e não estou a desconfiar). Não esperar nada dos outros é dar-lhes sempre um sinal de carga positiva: quase tudo que venha, vale. E em relação à vida, igual. Espero que continue assim: feliz.
EliminarJulgo que sempre que pomos nos outros a nossa possibilidade de ser feliz, dá buraco. De duas uma: ou vamos como o senhor, para junto de pessoas felizes; ou entendemos de uma vez por todas que depende tudo de nós mesmos e os outros hão-de lá estar em qualquer lado. Mas se não estejam, olha, somos felizes na mesma porque, por mais que façamos, de nós mesmos andamos acompanhados a vida toda.
E a solidão é uma coisa que inventamos e sentimos às vezes. Mas só às vezes.
Nota: peço desculpa, mas só agora vim ao mail:) sorry.
Ainda quanto ao "lixo" que pulula na maior parte das livrarias queria ressalvar algumas excepções que não se incluem naquele eixo mercantil o que só vem confirmar a regra: A Ferin da R. Nova do Almada, a antiga Bucholz que agora é Leya, a Ler Devagar, a Pó dos Livros e poucas mais só no que respeita a Lisboa. Embora não conheça penso que a Lello do Porto se incluirá nesta última categoria.
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