Politicamente correcto

Publiquei há muitos anos uma colectânea de artigos do historiador norte-americano Daniel Boorstin – então director da Biblioteca do Congresso – chamada O Nariz de Cleópatra, a maioria dos quais reflectia sobre a questão do politicamente correcto e, na verdade, a desmontava de modo inteligente. Devo dizer que, com o tempo, começo a achar que há bens que vêm por mal e que o politicamente correcto foi justamente um deles: onde já se viu, por exemplo, cobrir as esculturas de Miguel Ângelo só para não escandalizar o líder do Irão em visita a Florença? Ou excluir o porco dos livros escolares britânicos por causa de os alunos árabes e judeus não comerem carne de porco? Ou mesmo retirar o Holocausto dos currículos de alguns cursos para, enfim, não ferir susceptibilidades? Tudo quanto é demais é erro, já dizia a minha avó; e agora parece que até a criançada está viciada no jogo do politicamente correcto e que há queixas de racismo e discriminação porque um manual do 2º ano – para meninos de sete ou oito anos – inclui um exercício com lengalengas, entre as quais a conhecida: «Truz Truz / Quem é? / É o preto da Guiné / O que traz? / Café.» Eu bem sei que basta haver um aluno guineense na turma para a lengalenga virar insulto, mas não é caso único e tudo quanto é charada, história e poeminha com as palavras ciganos, gordas (no caso uma girafa), chineses, etc. é motivo de reclamação por parte de professores e encarregados de educação, mas também de miúdos. Os autores de livros infanto-juvenis, muitos deles grandes combatentes pela igualdade, andam a ser chateados por causa disso. Mas escrever com pinças não será também uma falta de liberdade?

Comentários

  1. Também sou completamente essa coisa cheia de falsete que chamam "politicamente correcto".

    Mas basta meter a palavra "política" para ser algo postiço, falso e castrador.

    Acho que se deve ter bom senso em muitas situações. Mas apenas isso.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. (o teclado comeu-me a palavra "contra"... deve ser por eu ser do contra)

      Eliminar
  2. António Luiz Pacheco9 de março de 2016 às 02:52

    É que me estou positivamente nas tintas!
    Procuro não ofender, considero-me tolerante e libertário, pelo que recuso a hipocrisia do políticacamente (é mesmo assim!) correcto que se tornou na censura actual, por força de uns quantos que se acham libertários e fantásticos (Extraordinários somos nós!), donos da verdade, modelares... eu que sempre detestei cruzados, missionários e santos de altar próprio.

    São os direitos de todos e mais alguma coisa e os seus inefáveis defensores activistas a tolherem e castrarem a nós os comuns! Uma insuportável e absurda violência contra os comuns, uma ditadura de minorias que se acham moralmente superiores... era assim no tempo da Santa Inquisição!

    Não aceito, não pactuo nem partilho... é simples!
    Não gosto de ciganos, sou reticente quanto aos refugiados, desconfio dos chineses, recuso as posições dos islamizados, oponho-me ao lóbi gay, acho ridículos os direitos dos animais, e no entanto consigo viver bem no Mundo, com tudo isto e todos... justamente porque me estou nas tintas!

    Mais, descobri um dia que ser anti-racista é ser afinal racista... pois que praticar anti-racismo é reconhecer que há uma separação racial e que outras raças carecem de defesa, logo é inferiorizá-las!
    O mesmo para com os homossexuais e por aí fora...

    E cá ando alegremente!

    Saudações politicamente incorrectas cá da Cidade Morena, de quem trabalha porque é obrigado, lê, bebe álcool, come carnes, é aficionado e caçador!

    ResponderEliminar
  3. Mesmo para quem seja praticante do politicamente correcto, coloca-se a questão do limite. Até onde vai essa censura?
    O Obélix deixa de comer javalis para não afectar alguma religião? Ninguém fuma nos romances? Cobrem-se todas as estátuas gregas e acabem-se com os livros do poeta Ovídio, porque são só poucas vergonhas?
    Como escrever algo que não melindre ninguém? Impossível.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco9 de março de 2016 às 04:25

      É verdade Henrique... até o Lucky Luke trocou a beata nos queixos por uma ervinha... ooops... e a ecologia? O que deveria ele ter então? Quem sabe se fosse uma "broca" já ninguém repontasse!

      Eliminar
    2. Uma "broca" é quase políticamente correcto. Já não me recordava do cigarro desaparecido do Lucky Luke.

      Eliminar
    3. Não me parece que seja impossível.

      Se, estando a escrever, me surge alguma contrariedade, logo ali redijo o meu desabafo:
      " Óque - umque - arago !”

      Se a contrariedade persiste em perturbar-me a escrita, ergo a voz para as maiúsculas e – cuidando de não exceder os limites da decência – registo a minha incontida exclamação:
      " ÓQUE - UMQUE - ARALHO ! “

      Ora, pode isto, assim por escrito, melindrar alguém?

      Por escrito é outra coisa! E uma pessoa escusa de ser politicamente incorrecta...

      Eliminar
    4. Cláudia da Silva Tomazi9 de março de 2016 às 05:50

      Bom dia Joaquim Jordão! O escritor Aldous Huxley também utilizou este modelo a expressão no livro "A Ilha" a personagem mãe de Murugan.

      Eliminar
    5. Ui!! Com Quem Você Me Está a Comparar, ó Cláudia!

      Já lá vão muitos anos, mas de facto Tenho uma vaga Ideia de a mãe de Murugan, quando Falava, Algumas palavras eram Ditas com Iniciais Maiúsculas.

      Porém, daí a Você, Cláudia, colocar huxley ao meu Modesto nível...
      Isso é que me parece politicamente incorrecto. Para ambas as Partes.

      Eliminar
  4. É engraçado este seu post porque vem mesmo a propósito.
    Ontem passou várias vezes na Rádio Amália uma música do folclore açoriano celebrizada pela dita Amália e que tem um conteúdo claramente racial: o "Mané Chiné". A música tem deixas como "meu queimadinho do sol" ou "quanto mais preto melhor" que não serão muito agradáveis a quem está na posição de não ser branco.
    E tanto mais assim é quanto é certo que a versão original do folclore narra uma história de amor entre uma branca e um negro...que foi completamente retirada na versão cantada por Amália. São só duas quadras inteirinhas (as finais) apagadas da canção.
    Somos ou não, afinal, ainda um país racista?
    Uma boa quarta- feira a todos. :-)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco9 de março de 2016 às 04:45

      António Gedeão:
      Encontrei uma PRETA que estava a chorar...

      É falar com a família e a sociedade de autores e mudar para "africana negra" ... se isso acalma os espíritos!

      Eliminar
    2. António: é totalmente diferente! O poema tem uma conclusão igualitária. Pretende demonstrar que a lágrima de uma negra é igual à de qualquer outro ser humano.
      Não queira comparar com o "Mané Chiné" :-)

      Aqui está a versão cantada pela Amália:

      Se os meus tristes ais voassem, ó Mané Chiné
      Dariam mil cada hora
      Bali-banda, li-banda, que é
      Bali-banda ó Mané Chiné

      Iriam bater no peito, ó Mané Chiné
      De quem me lembrou agora
      Bali-banda, li-banda, que é
      Bali-banda ó Mané Chiné

      Ande cá, meu preto, preto, ó Mané Chiné
      Meu queimadinho do sol
      Bali-banda, li-banda, que é
      Bali-banda ó Mané Chiné

      Quanto mais preto, mais firme, ó Mané Chiné
      Quanto mais preto, melhor
      Bali-banda, li-banda, que é
      Bali-banda ó Mané Chiné

      Eliminar
    3. António Luiz Pacheco9 de março de 2016 às 10:31

      Bom... mas sem dúvida que (não é uma negra e sim uma preta a que António Gedeão se refere... e muito bem, pois ele foi um Sábio e não um racista nem politicamente correcto e ainda bem...) o que a Amália canta não é nada redutor, ofensivo e nem racista... ora essa! Onde foi buscar tal idéia?
      Ou estarei eu a ler mal????
      E olhe que nem sou racista-aliás-sou-pois-sei-que-há-brancos-e-pretos-pois-lido-com-ambos-todos-os-dias, sobretudo na parte "amorosa"... tá a ver? Garanto-lhe que não... olá!

      Saudações brejeiras da Cidade Morena (que é muito marota!)... e os chocalhos ainda mexem nos tornozelos ... eheheh!

      Eliminar
  5. Um dia, numa aula, dei por mim a ler (Os Lusíadas) Camões chamando «Cães» a um povo africano, frente aos olhos muito abertos de um aluno santomense (onde estaria o ensinado humanismo do poeta?).

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco9 de março de 2016 às 04:37

      Episódio de Fernão Veloso... "... quando vi tantos daqueles cães para cá vir, um pouco depressa vim, por me lembrar que estáveis cá sem mim!"

      Em primeiro lugar, o humanismo de Camões era o seiscentista... e recordo que ainda no século XIX a ciência tratava os pigmeus como uma raça não-humana! Logo há que nos enquadrarmos nas épocas e formas de pensar em que tais coisas ocorreram, não porque se concorde ou deixe de concordar, mas porque era assim então.
      Ah! Mas não devia ter sido... pois, então arranje-se uma máquina do tempo para ir solucionar isso...

      Segundo, "cães" era um termo comummente usado, sobretudo na época, para designar o adversário, sem qualquer conotação racista... eram cães os oponentes espanhóis, franceses, africanos, turcos... ou quaisquer que fossem e não específicamente os cafres que perseguiam Fernão Veloso outeiro abaixo!

      O politicamente correcto e o afã de sermos correctos e modernos e evoluídos provoca essas situações que acabam por se traduzir em quê? Desconhecimento ou falta de senso? Julgo que explicar isso aos alunos é que fará deles evoluídos e não minimizados em termos racistas, o não-racismo é exactamente tratar um preto por "preto", numa forma corrente e amigável, evoluída, de convivência... eu aqui e falando com eles uso o termo "preto" quando me refiro aos africanos, como eles dizem "branco", e ninguém se ofende... tentar ser educadinho com o "negro" é que é inferiorizá-los como se eles tivessem problemas em ser pretos... e muitos não têm mesmo nenhum! Aliás, black is beautiful e a quantidade de beautiful black girls que aí anda, bem...
      Ai que estou a ser sexista... machista... vem lá trovoada, mas desculpem é que como sou retrógado, velho, e obscurantista ainda não sou capaz de olhar para os homens da mesma maneira... eheheh!

      Saudações obsoletas cá da Cidade Morena!

      Eliminar
    2. Sem desprimor da sua exposição que muito apreciei, quero dizer-lhe que o resto dessa minha aula abriu para vastíssimos horizontes e nada teve dessa coisa fraudulenta a que chamam «politicamente correcto». O Humanismo de Camões ficou a salvo de reações primárias.

      Eliminar
    3. António Luiz Pacheco9 de março de 2016 às 10:33

      Ah... mas certamente que não Extraordinária Beatriz!
      Certamente que não... estou a generalizar e não a particularizar, atenção!!!!
      Imagine, e logo a Beatriz? Camões? Nunca!

      Eliminar
    4. António Luiz Pacheco9 de março de 2016 às 23:16

      Perdão! Troquei-lhe o nome, Maria Almira! As minhas desculpas à citada que não é para aqui chamada e a si porque foi um erro grosseiro.

      Eliminar
  6. Quanto mais civilizados e contemporâneos nos acharmos mais hipócritas nos tornaremos.
    É-me muito difícil esconder sentimentos. Não suporto o tipo de gente que veste o personagem sem defeitos, sem nódoas na boca ou nos gestos. Aquela coisa do mundinho perfeito para o espectador, cheio de rituais e liberdades obscuras, deveres e direitos incontestáveis, até palavras medidas! As coisas têm e devem ser chamadas pelos nomes, até porque as palavras só ofendem se forem utilizadas com o intuito de ofender. Preto é preto, seja na Guiné ou em França. Fascista é fascista seja em Portugal ou em Espanha. Não é por ocultarmos os assuntos ou as estátuas ou seja o que for que nos tornamos melhores pessoas, mais afáveis ou simpáticas, muito pelo contrário, falar do assunto, explicar, argumentar, obrigar a pensar, a reflectir, a debater é ao que chamo de evolução. Aprendizagem. Maturidade. Tudo o resto pode levar-nos a uma desmesurada submissão, humilhação até, incapacidade de defender um ponto de vista nosso. Aquela espécie de medo que se ganha do oposto, do terror, da confrontação com o supostamente errado. O mal existe e sempre existiu e lamento desapontar os politicamente correctos mas o mal vai continuar a existir, permanecerá sempre como uma sombra na retaguarda da humanidade. E precisaremos sempre de o "dévoiler".
    Se disser publicamente: fui toxicodependente! Choco a plateia? Choco! Incomodo-me? Não! Incomodo os outros? Sim! Porquê? Porque não sou exactamente o que os outros querem que eu seja: politicamente correcta! Personagem formatada pela sociedade. Paciência... Esconder os assuntos, fechá-los em túmulos como mortos não ajuda em nada a evolução desta espécie a quem chamamos Humanos. Agora, há formas e formas de abordar e discutir os assuntos.

    Um abraço.
    Carla Pais

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco9 de março de 2016 às 10:40

      Ora... em 1974 eu fumava umas brocas e era anarquista para chatear o meu pai e os gajos da UEC ao mesmo tempo... fabuloso e era feliz! Mas tinha 19 anos... ahahah!
      Não o ponho no meu CV, como não digo que fui conhecido na UE por ser um borgas ... mas não o nego, e sobretudo isso dá-me estatuto junto dos meus descendentes!
      Os velhos desconfiam dos novos porque já foram novos!
      (Creio que não vale a pena escrever o autor...)

      Totalmente de acordo Extraordinária Carla, abaixo os cruzados, missionários, profetas, santões, beatos e afins! Sejamos pessoas... com o que de bom e de mau tem!

      Saudações humanas cá da Cidade Morena.


      Eliminar
    2. António, conseguiu dizer tudo numa única frase: "sejamos pessoas... Com o que de bom e de mau tem". É só isso!

      Eliminar
  7. Nunca percebi porque está este conceito invertido. Preto é preto, aqui ou na Guiné, e isso é o que está correto. Tal como 1+1 = 2 o é, aritmeticamente.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco9 de março de 2016 às 10:59

      Tal como "pula" é branco... e ofensivo!
      Mas quando me chamam "branco", não me enxofro... e para que os extraordinários saibam e percebam, eu que vivo num país antes colonizado e de pretos, sei o que é racismo, sinto-o na minha pele... não preciso de ler ou ver filmes e nem de imaginar: sinto-o!
      Percebem?
      Se calhar nenhum de vós o entende ou se tinha lembrado disso, é que aqui sou eu quem é diferente, percebem? Ainda há pouco fui atrás do Julinho que me assalta o quintal rouba mangas e amêndoas, caga no pátio e partiu o telhado da cozinha e da garagem... vi-o (finalmente) e foram os outros garotos quem o denunciou, e fui à procura dele por um intrincado de ruas de 50 cm de largo entre barracas de bloco e chapa, até o localizar! Os vizinhos dele concordaram que aquele miúdo é um problema e vai acabar a roubar moto... o pai ficou aborrecido, e toda a gente no pátio me deu razão, as mulheres furiosas! E eu, pula, português, ali no meio daquilo... pois é... gente como a minha, seria o mesmo se fosse lá no Graínho atrás do João do Bombeiro ou do Nhê!
      Qual racismo? Branco e preto... confesso que gosto pouco dos amarelos que só me lixam, um dia conto, e na verdade quem tem experiência ou sabe do que fala?

      Saudações rácicas cá da Cidade Morena!

      Eliminar
  8. É caso para uma análise sociológica, suspeito, o modo como o ataque ao politicamente correcto se transformou numa defesa do preconceito. Por exemplo, o que indigna muitas pessoas não é o racismo, mas que alguém queira impedi-las de revelar esse racismo através de palavras. Mas qual é o problema, dizem, com a palavra escarumba, afinal de contas uso-a com muito carinho?! Se alguém lhes chama a atenção, aqui-del-rei que me tolhem a liberdade! E assim transformam uma discussão de racismo numa discussão sobre liberdade, ao mesmo tempo que passam de agressores a vítimas. Claro que no meio disto tudo o politicamente correcto é só uma distracção. Ora, que tanta gente que não é racista caia nessa distracção é a prova de que se trata de uma estratégia bem pensada. Tiro o chapéu aos racistas e aos preconceituosos em geral.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. António Luiz Pacheco9 de março de 2016 às 10:48

      É que não concordo nada consigo, meu caro!
      Escarumba é ofensivo... e ponto final!
      Sempre? Bom é como chamar "cabrão" a um amigo... nunca o fez? Bom, se calhar no seu carmelo fala-se pouco - espero que entenda a ironia.
      Mas na generalidade é ofensivo, não se usa... e está a dar um exemplo que não o é.
      Quando falo com um africano, uso o termo "preto"... estou-lhe a falar de igual para igual e ele sabe, pela minha atitude, acções ... e sabe que o considero homem, um igual... e olhe que falo com dezenas deles de todas os níveis, diariamente!
      Está enganado... o politicamente correcto é uma invenção de uma minoria que se acha bem-pensante mas ambiciona dominar o pensamento, coisa que jamais foi conseguida e cito:
      "Não há machado que corte, a raiz ao pensamento", cantado pelo imenso homem e comunista que foi Zeca Afonso... vê como não sou preconceituoso?

      Saudações humanas e descomplexadas cá da Cidade Morena

      Eliminar
    2. Acho que entendi. O conceito está, se calhar, realmente distorcido e o ser-se incorreto, por contradição ao "correto" que é agora considerado anormal, é apenas uma capa para se poder dizer o que de outro modo seria inconveniente dizer-se.

      Eliminar
    3. António Luiz Pacheco9 de março de 2016 às 23:18

      Ahhhh... explicado assim, toma outro significado e sim tenho de concordar!

      Eliminar
    4. Eheh!, um bocado rebuscado, bem sei, mas ando a seguir Marlowe. O ideal seria que nos referíssemos a pessoas e não a pretos, a doutores, ciganos ou benfiquistas (lato sensu), mas se calhar vão-me chamar (in)correto.

      Eliminar

Enviar um comentário