Decidir um ofício

Talvez a maioria das pessoas que se queixam continuamente do trabalho não faça aquilo de que gosta e, mesmo realizando funções na sua área de formação, preferisse deitar a mão a uma coisa diferente. Escolher um ofício não é para todos, evidentemente; e, assim em termos abstractos, eu até poderia dizer que, se não trabalhasse com livros, me via a ser radialista ou actriz de teatro mas, provavelmente, não tenho o mais pequeno talento para representar, nem condições, porque tenho bastante medo do público; e, quanto à rádio, desconfio de que não me entenderia com as máquinas. Conheço, porém, artistas multifacetados que hoje são músicos mas sempre desenharam bem, ou que se tornaram escritores mais ou menos bem-sucedidos quando as famílias pensavam que acabariam a cantar num palco. O falecido cineasta João César Monteiro disse um dia numa entrevista que decidira na juventude ser poeta (e, claro, também o foi à sua maneira particular com os filmes que fez); mas que, percebendo que a poesia portuguesa estava «cheia como um ovo», teve de se virar para o cinema. Ele, pelo menos, decidiu o seu ofício.

Comentários

  1. Sim. As pessoas continuam a fazer cada vez mais o que não gostam, por uma questão de sobrevivência. Há vários actores e realizadores que têm segundas e terceiras profissões.

    Na nossa literatura contam-se pelos dedos de uma mão os escritores que vivem apenas dos livros... o que até nem acho negativo de todo. O escritor precisa de "ver mundo", para não escrever apenas para o umbigo...

    E as palavras do João César Monteiro valem o que valem...

    Até por o cinema português de autor ser uma coisa de minorias, como a poesia. Ou seja, podia ter escolhido uma coisa mais popular e com mais rendimentos. :)

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  2. É preciso um ofício que nos pague as contas e depois podemos nos dedicar ao que gostamos e acho que esse escape ganha muito com essa paixão. Se trabalharmos no que gostamos, não deixa de ser um trabalho que tem dias de rotina e paixão mais apagada.
    Trabalho num escritório e desenho muito nas restantes horas, uma paixão que reforça em muito a minha sanidade mental e que infelizmente não paga contas.
    Achei piada à expressão do João César Monteiro. Pensar que o no cinema há "vagas" que não há na poesia. Ironia.

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  3. Cláudia da Silva Tomazi2 de março de 2016 às 05:32

    Sim, há inúmeras vertentes ao trabalho no entanto o quê era tarefa, o era jornada, o quê era ocupação o era trabalho. E, até mesmo se espreitar a criatividade com o tal funcional emprego aliado as regras e os direitos, multiplicar-se-ía a frente de trabalho a consolidar consolidando-se de modo extraordinário e exemplar.

    Convenhamos, evoluímos ao lidar com tarefas diárias e a lide transformou-se de labuta em convenções e tratados necessários a organização dos povos na atualidade (hoje em dia) as nações cada vez mais, especializam-se desenvolver o conhecimento a dominar com "feroz" capacidade tais tarefas.

    A técnica e os profissionais altamente elaborados dominam qualquer área a nível mundial, logo atuam sem exagero ou concorrência, pois sempre há disponível à entrada no mercado de trabalho cujo ofício ou Ofício transformara e agregara desde sempre o 'status quo' ao longo de gerações. Claro, eu por ventura cheguei a fazer o teste vocacional de quando o crivo estabelecera o argumento.

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  4. Ora aqui está uma questão muito pertinente e que merece alguma atenção, até porque o assunto tem muito que se lhe diga. Pergunto-me eu: Mas será que nos dias de hoje, perante esta sociedade contemporânea que nos espreme até ao tutano, temos o poder de escolher um ofício que nos apaixone?
    Poucos são os corajosos que arriscam, pois a vida não nos permite grandes aventuras, é preciso pagar contas, casas, carros, escolas, impostos e por aí além. E é nisto que se pensa imediatamente quando os outros nos classificam como adultos, no dinheiro que precisamos para viver ou sobreviver. Existe uma enorme pressão da sociedade para medir e julgar modelos de vida, o facto de ousarmos assumir um ofício menos eficaz em termos financeiros, ainda que mais satisfatório emocionalmente, corremos o risco de sermos marginalizados, dados como irresponsáveis ou inconscientes. Vivemos numa Era de formatações. Somos levados a fazer ou a escolher o que aparentemente está certo e dentro do convencional e não o que nos pode valer dois palmos de felicidade. Perdemos cedo a capacidade de sonhar...

    Isto é assunto que dá pano para mangas...
    Um abraço.

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  5. Embora, como é óbvio, essa faceta fosse, nele, menor (de tal forma que renegada pelo próprio, ou, pelo menos, esquecida), J. César Monteiro foi, realmente, poeta. Publicou, em 1959, um livro chamado «Corpo Submerso». É um livrinho breve, que pouquíssima gente terá (creio que nem o próprio JCM teria um exemplar), mas existe/existiu. Vitor Silva Tavares pode ser visto a lê-lo, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=tbe1KlLWApQ (a partir do minuto 45, sensivelmente).

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  6. Vivemos e temos que sustentar materialmente a vida que levamos e algo mais que permita que o mundo melhore, como até hoje tem acontecido. Nessa exigência fazemos o que gostamos ou o que surge e nos é possível fazer. Penso que isto é a base, o resto é sonho. E o sonho comanda a vida, como sabemos.

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  7. Julgo que há uns afortunados que têm a sorte de profissionalmente fazer o que gostam. E há os outros. Nuns como noutros é a perspectiva com que a vida é olhada por cada um que determina a forma como se está na profissão. Há gente que fracassa a fazer o que gosta e depois desgosta, há quem aprenda a gostar do que faz, há os que levam tudo como quem carrega uma cruz. E deve haver mais. Mau, mau, é não ter trabalho ou ter um que não abarque a despesa. É pensar que hoje a juventude tem que se virar para qualquer lado e estar sempre pronta a fazer outra coisa, a ser despedido, porque se extinguiram as efectivações. Não posso concordar com este espírito que pensa a vida dos vindouros na corda bamba quando, enquanto assim a pensa, tem um lugar seguro. Afinal o que é feito do Estado Social em que acreditamos quando se projecta assim o futuro dos outros?!

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  8. António Luiz Pacheco2 de março de 2016 às 12:12

    Há o fazer o que se gosta, e, o aprender a gostar do que se faz... esta última situação é que (em minha opinião) faz a diferença e torna alguns felizes!
    De um modo geral, tenho gostado daquilo que tenho feito... ou aprendido a gostar, pois muitas vezes foi mesmo muito duro! E digo, mesmo muito duro... física e mentalmente duro!
    Por isso, e me perdoem a prosápia, aos 60 anos e ainda a dar duro, só posso dizer que ou são mal-agradecidos ou não sabem do que falam!
    Considero-me um privilegiado, mas pelo menos tenho consciência de que o sou, o resto é hipocrisia.

    Saudações empenhadas cá da Cidade Morena

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  9. Eu gosto do meu ofício. Escolh muito cedo o ´que queria ser quando fosse grande'. Não sei se já sou grande, mas faço aquilo que gosto. E gosto muito.
    Um privilégio, eu sei.

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  10. Eu sou professora e agora não faço o que gosto. Acho a profissão lindíssima, mas muito maltratada. Quero mudar, quero mudar para outra coisa e o meu sonho é ter a minha própria livraria. Talvez seja um pouco despropositado nesta altura, mas é um sonho que mantenho. Gosto de ensinar, mas chega de ser explorada.

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