Livros perdidos

Não imagino pior coisa para um autor do que perder um livro em que está a trabalhar – o ficheiro desaparecer do computador, o computador portátil ser roubado e não haver cópias, enfim, aquilo em que gastou meses ou anos de trabalho ser mera poeira na sua memória, incapaz de refazer inteiramente o escrito. Mas há livros que desaparecem de outra maneira – ou porque os seus autores nunca lhes deram grande atenção nem quiseram publicá-los, ou porque os originais (muitos deles escritos ainda à mão) foram entregues em revistas, publicados e, pouco tempo depois, esquecidos, até o autor, muitos anos mais tarde, se tornar célebre. O director da revista The Strand já encontrou, por exemplo, um conto de John Steinbeck que nunca fora publicado, e mais recentemente também um conto que Fitzgerald escreveu pouco antes de morrer – «Temperature» – e que fala de um escritor que bebe descontroladamente e sofre do coração (era o seu caso, de resto, e portanto provavelmente autobiográfico). Também foi encontrado um conto com o herói Sherlock Holmes no sótão de casa de um historiador (imagina-se que seja de Conan Doyle, mas não há a certeza); e, depois de desaparecido por 50 anos, um poema-ensaio contra as Invasões napoleónicas assinado por «um cavalheiro de Oxford» (mas que se sabe ter sido escrito por Shelley) foi achado no meio de uma data de outras coisas num leilão (e está hoje numa biblioteca em Oxford, onde Shelley o escreveu). Enfim, para os estudiosos, deve ter graça encontrar de vez em quando um livro perdido; para os autores, perder livros deve ser uma tristeza.

Comentários

  1. Não sendo escritor, mas apenas leitor, ainda hoje eu me lamento dos livros que emprestei e que nunca recuperei, sim, porque livro emprestado é livro roubado -é uma tristeza, nem quero imaginar se estivesse na pele de escritor...

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  2. Para mim a história mais extraordinária de um romance não publicado em vida é a do "Clarabóia" do José Saramago. Escrito por ele depois do seu primeiro romance ("Terra do Pecado"), e décadas antes do "Levantado do Chão" que revelou o grande Saramago, foi destinado à gaveta e, no entanto, é um belíssimo e complexo livro que nada tem a ver com a verdura neorrealista do "Terra de Pecado". Foi uma enorme e muito deliciosa surpresa quando li "Clarabóia", publicado após a morte do autor. Considero-a a obra de ficção que melhor traduz o ambiente social doentio do salazarismo. E, no entanto, poderia ter ficado inédito...

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  3. Perder livros é, sem qualquer dúvida, uma das, senão a, maior tragédia para um escritor.
    Há uns anos, escrevia aquilo que pretendia que viesse a ser um romance sobre a vida de um carrasco. As primeiras páginas surgiram quase que por inspiração, límpidas e acabadas, quando... tragédia das tragédias, um qualquer vírus fez com que o meu computador «morresse», tendo de ser formatado. Perdeu-se aquele texto que, depois escrito de memória, não voltou a ser como se anunciava. A ideia ficou esquecida e permanece guardada...
    Uma das histórias mais interessantes sobre livros perdidos é a história do manuscrito Os Sete Pilares da Sabedoria (que tenho na minha estante) sobre o Lawrence da Arábia; um volumoso livro que, quem deseje saber um pouco mais sobre o pensamento e a natureza daqueles povos e, até, perceber de que modo o ocidente se tem imiscuído nos seus assuntos, deve ler; dizia, uma das histórias mais interessantes prende-se precisamente com o facto de o autor ter perdido esse manuscrito acabado, durante uma viagem de comboio, tendo de o reescrever de raiz, graças às notas que mantinha consigo... Enfim... Centenas de páginas, de considerações, de pensamentos que jamais serão escritos da mesma maneira... Interessante, mesmo, é descobrirmos um livro que há muito procuramos e demos praticamente como perdido... Tenha um bom dia e obrigado.

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  4. António Luiz Pacheco7 de janeiro de 2016 às 04:36

    Reza a lenda (ou a história?) que Camões tendo naufragado, conseguiu todavia salvar as folhas em que ia escrevendo ou anotando "Os Lusíadas" - não acredito na versão de nadar só com um braço mantendo fora de água o outro... salvo se por um par de metros...

    Deve haver muitas e tristes histórias de casos assim, e creio que daria mesmo para um romance!
    Eheheh!

    Quanto ao achar de livros/textos inéditos de autores célebres, isso deve ser altamente emocionante para o descobridor, sobretudo se este for um dos nossos, um amante dos livros!!! Seria um outro tema para romance, sobretudo se o protagonista fosse um mero amador como tantos de nós, sem os meios nem conhecimentos de um investigador!

    Saudações, e despedidas, cá do Bairro Ribatejano

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    1. Diz Diogo do Couto nas suas Décadas que a Camões lhe roubaram mesmo um livro:

      "Em Moçambique achamos aquele Príncipe dos Poetas de seu tempo, meu matalote e amigo Luís de Camões, tão pobre que comia de amigos, e, para se embarcar para o reino, lhe ajuntamos toda a roupa que houve mister, e não faltou quem lhe desse de comer. E aquele inverno que esteve em Moçambique, acabando de aperfeiçoar as suas Lusíadas para as imprimir, foi escrevendo muito em um livro, que intitulava Parnaso de Luís de Camões, livro de muita erudição, doutrina e filosofia, o qual lhe juntaram (roubaram). E nunca pude saber, no reino dele, por muito que inquiri. E foi furto notável."

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  5. Não resisto a contar o caso de uma autora norte-americana de romances históricos, Sharon Kay Penman. No início da sua carreira, roubaram-lhe um original de mais de quatrocentas páginas, o resultado de vários anos de pesquisas, pois era um romance sobre os reis medievais ingleses Eduardo IV e Ricardo III. O original (impresso, isto foi nos anos 1990, antes de a internet e os emails dominarem a nossa vida) estava pronto para ser entregue à editora e roubaram-lho do carro, pois encontrava-se numa pasta, o único objeto roubado. Apesar de calcular que os ladrões andavam, acima de tudo, à procura de dinheiro ou valores, Sharon Kay Penman andou, durante muito tempo, cheia de medo que alguém se lembrasse de publicar o romance sob outro nome. Felizmente, nunca aconteceu.

    Mas a tragédia pessoal não terminou aí. A autora esteve cinco anos sem conseguir escrever uma linha. Depois, animada por parentes e amigos, lá se deixou convencer... E reescreveu esse mesmo romance, que foi editado com o título "The Sunne in Splendour". Penso que foi o seu primeiro, entretanto já escreveu vários, mas não tem obras traduzidas, pelo que é apenas conhecida por fãs anglófonos deste tipo de literatura. Mas se alguém ficou interessado em saber mais sobre os seus livros, pode dar aqui uma olhada:

    http://www.sharonkaypenman.com/penman_books.asp

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    1. Correção:

      o episódio que referi passou-se nos anos 1970 e o manuscrito roubado era a única cópia dactilografada que a autora possuía. O livro foi editado pela primeira vez em 1982, já depois do bloqueio de cinco anos.
      É essa edição da Penguin, de 1982, que possuo e tem quase 900 páginas; o manuscrito roubado tinha 500.
      Fiz confusão porque de facto adquiri o livro, na Alemanha, no início dos anos 90 e já não lhe pegava há muito tempo. Além disso, aproveitei uma ida a Londres em 1996 para comprar outros livros da autora (alguns editados nessa época).

      Dou alguns links a quem quiser confirmar a história:

      https://en.wikipedia.org/wiki/Sharon_Kay_Penman

      http://www.laterbloomer.com/sharon-kay-penman/
      «She put the completed 500-page typewritten manuscript on the back seat of her car, ready to mail, and ran some errands.

      When she returned to the parking lot, she discovered that someone had stolen the manuscript from her car. “I found that the loss was so traumatic that I couldn’t write again…it was as if the well had gone totally dry.”»

      http://www.sharonkaypenman.com/interview.asp?ISBN=0399150773


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  6. Se for mesmo um romance que está a andar e sobre que se têm ideias... se já vai adiantado...creio que sim, perdê-lo será penoso. Mas também acredito que quem escreve deita muita coisa fora e que nem sempre o que se perde vale a pena. Bom. Mas é sempre melhor ser o próprio a decidir deitar fora. Brincadeiras de computador caprichoso são uma chatice.

    O cinema que tudo aborda, também a este tema deu atenção; vi um filme sobre um jovem escritor que ganhou um prémio com um livro que achou escritinho por inteiro e de que se apropriou. Não recordo o nome mas lembro-me que o verdadeiro escriba era o Jeremy Irons. Coisas.

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  7. Tenho por hábito escrever notas de viagem em quadrinhos de papel autónomos. Mais tarde escrevo o registo da viagem apoiando-me nessas notas e nas fotos que também vou fazendo.
    Já me aconteceu perder um ou outro desses papelinhos e, depois de dar voltas e voltas à sua procura, fico furioso e depois desanimado.
    Transpondo o escrevinhador e as notas de viagem para o caso de um criador e seu esboço de romance, fácil se me torna imaginar o seu sentimento de perda, a sua ansiedade.

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    1. António Luiz Pacheco9 de janeiro de 2016 às 14:31

      Ahahah! Boa! Extraordinário(a?) Amalivros:

      Eu tenho anotações e apontamentos, desenhos, e claro milhares de fotos, das minhas aventuras nos últimos 40 anos... até os peixes que apanhei aponto!!!!!

      Nunca se sabe... mas normalmente são-me (foram, pois estou temporáriamente retirado) úteis nas minhas reportagens e artigos revisteiros!

      Saudações húmidas, transpiradas e calorosas da Cidade Morena!

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  8. Eu sou escritora, em uma semana meu trabalho de mais de 5 anos foi perdido para sempre. Por causa de um acidente que não é preciso comentar. É como se você tivesse perdido um pedaço da alma, algo irrecuperável. Ter uma história em mãos, anos de pesquisa, leitura e aprofundamento. Ainda estou pensando se vou tentar escrever tudo novamente, talvez algo melhor, mais experiente.

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