Bocage

Disse-me há uns anos um amigo poeta que visita frequentemente escolas e dá a conhecer aos jovens vários poetas portugueses de todos os tempos que os alunos de agora já não acham graça a Bocage. Achei estranho. Lembro-me de a minha avó nos contar histórias divertidíssimas do senhor Manuel Maria, anedotas e tiradas de génio cheias de humor (algumas bem escatológicas), e de, enquanto aluna, me ter também deliciado com muitos sonetos de Bocage. Um dia destes, reparei que se celebraram em 2015 os 250 anos do nascimento desta figura singular do iluminismo português, na qual, segundo um dos organizadores da campanha Bocage Reconhecido, que se realizou no final do ano passado, quase todo o povo português se revê. Não dei por grande barulho à volta da efeméride (mesmo que o grosso dos festejos possa ter sido em Setúbal, donde Elmano Sadino, o nosso Bocage, era natural). Se calhar, porém, o meu amigo poeta tem razão e, em tempos mais escuros, como os que vivemos, não se valoriza a sátira... Eu cá vou ali ler uns sonetos e volto amanhã. E não é só para ir contra a corrente, mas porque, juro, vale mesmo a pena.

Comentários

  1. Engraçado, a nós também era a Avó que nos contava as anedotas do senhor... :)

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  2. Cláudia da Silva Tomazi22 de janeiro de 2016 às 02:05

    Bom dia! Já o tempo a avó dizia: de janeiro à janeiro vai a rosca de polvilho, nem enjoa-se.

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    1. António Luiz Pacheco22 de janeiro de 2016 às 02:15

      Olá Cláudia!!!!

      Já andava a matutar por onde andaria... tenho sentido a sua falta!

      Este é sem dúvida um extraordinário presente de aniversário no dia em que saindo de um ligeiro acesso de paludismo completo 60 anos!
      Fico muito feliz por a reler aqui!

      Saudações palúdico-aniversariantes cá da Cidade Morena, e um extraordinário fim-de-semana para todos!

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    2. Caro António Luiz !
      Parabéns !
      Seja benvindo ao grupo dos sexagenários, ao qual fui admitido antes de si.
      Desejo-lhe que as febres desapareçam rapidamente.
      E, de quando em vez, nos vá contando o que vai acontecendo pela sua Cidade Moreno.
      Um grande abraço de aniversário, que conte muitos e que nós o possamos ler, e muito obrigado pelos textos que nos vai oferecendo quase todos os dias.

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    3. Fico a saber, pelo comentário do extraordinário Artur Águas, que faz hoje anos e que tem estado doente. As melhoras, um bom dia, e felicidades. Acrescento, uma vez que fiquei igualmente a saber que foi admitido no clube dos sexagenários: é bom, porque nem todos conseguem admissão neste clube restrito e selecto; é uma porra porque... Vai descobrir por si mesmo. Ah, não atravesse a rua nas passadeiras para não vir a ser notícia no Correio da Manhã.
      Um abraço.
      José Catarino

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    4. Anda Pacheco...

      Abraço e um bom dia

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    5. Parabéns "Extraordinário Pacheco".

      Um dia sem "febres" e com sorrisos.

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    6. Caro António Luiz

      O tema do dia é o de reactivar nas escolas a leitura de Bocage pelas crianças.
      Por feliz coincidência, o Pacheco celebra hoje a sua entrada na segunda infância.
      Pois então aqui vai a minha apropriada prenda de aniversário: uma fábula de Bocage, muito pedagógica porque o tema permanece actual.


      «Os dois gatos


      Dois bichanos se encontraram
      Sobre uma trapeira um dia:
      (Creio que não foi no tempo
      Da amorosa gritaria).

      De um deles todo o conchego
      Era dormir no borralho;
      O outro em leito de senhora
      Tinha mimoso agasalho.

      Ao primeiro o dono humilde
      Espinhas apenas dava;
      Com esquisitos manjares
      O segundo se engordava.

      Miou, e lambeu-o aquele
      Por o ver da sua casta;
      Eis que o brutinho orgulhoso
      De si com desdém o afasta.

      Aguda unha vibrando
      Lhe diz: ''Gato vil e pobre,
      Tens semelhante ousadia
      Comigo, opulento, e nobre?

      Cuidas que sou como tu?
      Asneirão, quanto te enganas!
      Entendes que me sustento
      De espinhas, ou barbatanas?

      Logro tudo o que desejo,
      Dão-me de comer na mão;
      Tu lazeras , e dormimos
      Eu na cama, e tu no chão.

      Poderás dizer-me a isto
      Que nunca te conheci;
      Mas para ver que não minto
      Basta-me olhar para ti.''

      ''Ui! (responde-lhe o gatorro ,
      Mostrando um ar de estranheza)
      És mais que eu? Que distinção
      Pôs em nós a Natureza?

      Tens mais valor? Eis aqui
      A ocasião de o provar.''
      ''Nada (acode o cavalheiro)
      Eu não costumo brigar.''

      ''Então (torna-lhe enfadado
      O nosso vilão ruim)
      Se tu não és mais valente,
      Em que és sup'rior a mim?

      Tu não mias ?'' - ''Mio.'' - ''E sentes
      Gosto em pilhar algum rato?''
      ''Sim.'' – E o comes?'' - ''Oh! Se como!...''
      ''Logo não passas de um gato.

      Abate, pois, esse orgulho,
      Intratável criatura:
      Não tens mais nobreza que eu;
      O que tens é mais ventura.'' »


      Que conte muitos e bons, ó Pacheco.
      Um abraço!

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    7. António Luiz Pacheco22 de janeiro de 2016 às 13:54

      Ainda fui ver se seria gralha e eram os dois sapos, mas não... são mesmo gatos! Ahahah!

      Obrigado pela lembradora e pela amizade!

      Grande abraço

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  3. Então, se calhar, não vivemos tempos assim tão escuros... Porque é precisamente nos tempos ditos mais escuros que a sátira se manifesta no seu melhor.
    Vou reflectir um pouco sobre isto...

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  4. Os alunos de agora já não acham graça, porque, de um modo muito geral, os alunos de agora só conhecem o seu contexto muito próximo e as anedotas explicadas não têm graça nenhuma...

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  5. "Consta que foi um médico
    O inventor da guilhotina
    Deu rapidez à morte
    Mostrou que sabe medicina"
    Ou:
    "Aqui jaz um homem rico
    Nesta rica sepultura
    Salvava-se da morte
    Se o não matasse a cura"
    (De memória)
    Não me batam muito: admiro a sátira, considero Bocage um extraordinário repentista e improvisador, mas poeta medíocre (Camões, grande Camões, Já Bocage não sou, ...). É um óptimo exemplo do que, para alguns, é a poesia: inspiração sem trabalho.
    JCC

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    1. O problema é que, porventura, ao Camões ainda acharão menos graça...

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  6. Eu diria, que não se valoriza a sátira nem o autor português.

    Porque razão é que 90% dos textos teatrais encenados são de autores estrangeiros?

    (o custo dos direitos de autor não deveriam ser desculpa para tudo)

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    1. Talvez por termos falta de dramaturgos. Alguém, não me lembro quem, escreveu que Portugal adormeceu com Gil Vicente...
      JCC

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    2. o custo não deveria ser desculpa...

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    3. É uma falsa questão, José Catarino.

      Porque fazem-me muitas adaptações de obras literárias de autores estrangeiros que não são de teatro. Ainda há pouco o Teatro de Almada adaptou um dos contos de Hemingway.

      Porque não se adaptam os nossos melhores romancistas?

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    4. Pois não sei. Talvez - meras hipóteses - nas nossas obras predomine a narração sobre a história. Ou tenhamos falta de dramaturgos para as adaptar. Não sei.
      JCC

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  7. Mas estão à espera de quê - por exemplo a RTP1 transmite actualmente, em horário nobre, o BIG PICTURE , concurso onde o marialva de vez em quando fala português.Ontem apareceu lá um dos que não deve achar piada nenhuma ao Bocage (muito menos ao Camões) cujo sonho é ser Presidente da República mas não soube identificar dois bem recentes (Spínola e Costa Gomes) nem a época em que o foram...como é que hão-de achar piada ao Bocage.. BIG PICTURE pá frente...

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  8. E há ainda a registar a falta de vocabulário...

    «Lavrou chibante receita
    Um doutor com todo o esmero;
    Era para certa moça
    Que ficou sã como um pero.

    - Tão cedo? É milagre! -
    Diz a mãe que de gosto chora.
    - Minha mãe, não é milagre,
    Deitei o remédio fora.»

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  9. E no amanhã em que volta é segunda feira, creio. BFS, então, para nós todos. Não desgosto de Bocage, mas prefiro outros poetas. A sua poesia tem muito para além da sátira.

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  10. Vou deixar aqui uma história que se passou comigo e que, a continuar a verificar-se, explica muito.
    Quando andava no secundário, tive de apresentar um trabalho sobre Bocage, e mais especificamente sobre um dos dois poemas satíricos que estavam no nosso manual.

    Para fazer o trabalho, consultámos alguma literatura secundária, para tentar acrescentar ideias ao trabalho e ir um bocadinho para além da interpretação do poema. Ora, nada do que líamos nos fazia sentido, era estranhíssimo, parecia que estavam a falar de outro poeta ou de outros poemas...

    Uns anos depois, encontrei na estante do meu avô o volume completo das Poesias eróticas e Satíricas, deliciei-me durante horas, e percebi finalmente o mistério: em várias dezenas de poemas, os autores dos manuais tinham escolhido para apresentar a jovens de 17 anos os únicos dois que não tinham qualquer referência sexual. E, por acaso (ou não) também dois dos poucos que não tinham grande graça.

    E foi assim que o génio humorístico de Bocage sucumbiu ao moralismo, os poemas atípicos passaram a típicos e a turma de adolescentes de hormonas aos pulos decidiu que o senhor podia ter muitas virtudes, mas a graça não era uma delas.

    Aconteceu-me semelhante com Camilo - às vezes, vir a gostar dos autores que se leu na escola é um acto de resistência, e exige um esforço extra.

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    1. Ups, sem aquele "para" ali em cima.
      (acho que esses dois poemas deviam ser os citados acima, se calhar afinal eram três ou quatro)

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  11. No teatro em Portugal também se adaptam textos de autores portugueses. Ainda há pouco isso aconteceu com Clarabóia " de Saramago e Cartas (creio que da guerra) de Lobo Antunes. O que há é poucos, muito poucos, dramaturgos. Talvez não seja exagero afirmar que a única obra-prima é o "Frei Luís de Sousa" de Garrett.

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