Provar literatura

Já fez uma prova cega de vinhos? Não? Então faça. É divertido e gostoso e, além disso, mostra em que estado está o nosso olfacto e o nosso paladar. Mas provar vinho e literatura ao mesmo tempo pode ser melhor ainda. É disso que se trata no festival Tinto no Branco – A Literatura Posta à Prova, que hoje começa em Viseu e se prolonga até domingo. A iniciativa integra-se noutra maior e já na segunda edição – Vinhos de Inverno – que se realiza no Solar do Dão, uma sala-de-estar aberta a todos os viseenses e visitantes que queiram juntar-se-lhes neste fim-de-semana. Como dizem os organizadores, «há grandes nomes para ouvir e muito para aprender sobre os mundos das letras e dos vinhos e as suas ligações – culturais, simbólicas, espirituais e vivenciais.» Entre os convidados para a mesa, estão, por exemplo, Afonso Cruz, Rui Cardoso Martins, Fernando Dacosta, Francisco José Viegas e Paulo Moreiras (um dos meus autores que mais percebe de vinhos e que os sabe combinar muito bem com os condimentos da língua e da literatura). E, entre as mesas-redondas, não faltarão os habituais espaços de prova de vinhos e contacto com os produtores e enólogos da região e, além de «workshops vínicos», animação musical. Bom vinho e bons livros!


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Comentários

  1. Uma prova cega de excertos de livros seria deveras interessante. Era assim que eu gostava de ver os meus textos comparados com os outros, sem influência do nome dos autores.
    Talvez um dia o que hoje é válido para o vinho passe a ser também para os livros.
    JCC

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    1. António Luiz Pacheco4 de dezembro de 2015 às 03:50

      Não quero ser repetitivo, mas, na verdade aquilo que o JCC escreve está mais do dentro de si, é você! É o Mundo que o rodeia e rodeou, e duvido que um Saramago tivesse conseguido escrevê-lo... não que lhe faltasse a arte, essa sobrava, mas sim que apesar de tudo tivesse tido a experiência e até sensibilidade humana para o fazer!

      Aqui há dias escrevi no facebook (O JCC leu...) sobre o falecimento do Sr. Manuel Raimundo, alentejano da Quibala, um dos últimos sertanejos vivos, que se misturaram e regaram com sangue, suor e lágrimas esta terra. Uma espécie em vias de extinção... muitos de nós somos espécies em vias de extinção, é muito mais grave que o lince mas ninguém dá nada por nós, o que está a dar é criminalizar o piropo (é machista e políticamente incorrecto) , o que está a dar são os direitos dos homossexuais e dos refugiados... é o que vende, é o que parece bem, que mostra que se é solidário e preocupado e "bom"! Agora toscos que semeiam feijão??? Isso nem se considera... os feijões há-os aos montes no supermercado e até já cozidos!
      Também parece bem afirmar raízes rurais em corpos tatuados e com piercings, agora gajos com um bigodinho fora-de-moda... que permanecem na sua aldeia e plantam couvesl? Daí não pode vir nada de bom, é evidente...

      Uma prova cega de literatura? Mas isso era subverter tudo, e correr riscos desnecessários que o negócio não admite.

      Hum... saudações azedas cá da Cidade Morena!

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    2. O que é que quer dizer com isso de "gajos de bigodinho que plantam couves"? É que a vida pessoal de quem escreve não parece ser o que faz o escriba ou sequer a qualidade da sua escrita. Bom, na verdade, há profissões e condições de vida facilitadoras, mas não vinculativas.

      Repare por exemplo em Elena Ferrante que toda a gente diz um fenómeno. Ninguém sabe quem é:), mas afirmou-se na mesma. Pode ser estratégia. Mas também pode que não. Nada li da senhora (?) e já ganhou a minha admiração.

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    3. António Luiz Pacheco4 de dezembro de 2015 às 09:43

      Pois tenho uma opinião diferente Cara Beatriz!

      A vida pessoal do escriba, pode não lhe dar a qualidade literária (aliás já o tinha dito) mas sem dúvida que lhe dá muito do miolo para aquilo que escreve, o recheio... o conteúdo.

      Quem tendo embora conteúdo (porque o ganhou ou arrebanhou...) mas não faça parte do clube dos elegíveis, não terá o que precisa - apoio. Porque o que vende é ostentar pose, atitude, ser diferente sendo igual (seguir as modas), ora sabe-se que os gajos de bigodinho que plantam couves, estão completamente fora do baralho actual, em que se tem de ser fracturante, ter aspecto de selvagem urbano, gótico, e exibir isso.

      Um bom fim de semana, na Segunda cá estaremos outra vez.

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    4. Obrigado, amigo Pacheco, mas não penso que seja o meu bigodinho e as couves a afastarem o interesse de editores. É certo que aspecto, peso mediático, os ares que se tomam, pesam nesta sociedade que privilegia as aparências; mas suponho que mais pesa o meio português, com mais autores que leitores,
      o gosto predominante, a necessidade de facturar para sobreviver...
      Mas, concordo, como é um meio muito pequeno e fechado, factores externos como a imagem, o conhecimento pessoal, o relacionamento familiar, a situação social, o alinhamento político e partidário, o pedido, o empenho, a cunha, a sorte, podem favorecer mais certos autores.
      JCC

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    5. A minha defesa das provas cegas não é alheia aos prémios ganhos nos concursos literários que funcionam nessa modalidade.
      JCC,

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    6. Arrisco dizer que tem razão. Porém, muita gente que é hoje considerada Grande, no seu tempo foi mal paga, mal vista e não vendeu. BFS

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  2. António Luiz Pacheco4 de dezembro de 2015 às 03:57

    Bom, perdoem-me o acesso gástrico de há pouco.

    Excelente iniciativa esta, sem dúvida que a comida e a bebida fazem parte da cultura dos povos, tal como a literatura, e se cruzam constantemente! Não sei porquê mas os escritores têm uma nítida tendência para a copofonia e a gastronomia... não acham?

    Paulo Moreiras é em minha opinião um dos casos mais sérios que conheço desse cruzamento e um brilhante representante (perdoem a cacofonia mas não estou para perder tempo a procurar sinónimos que a evitem) da classe que refiro, dos escritores gastrónomos!

    Mas há mais...

    Bom proveito a quem possa ir!
    Qu'ê fic'aqui "áugado" a pinsar in vócezes!

    Saudações envidiosas e salivantes cá da Cidade Morena!

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  3. Isto anda tudo muito sério por aqui.
    Um poema básico para todos vocês para que esta quadra de natal neutralize todos os ácidos.

    PASSEM MIL ANOS,
    E TUDO ME APETECERÁ COMO SEMPRE,
    E TUDO SERÁ COMO SEMPRE!

    «Sabes o que me apetecia hoje?
    Sentar-me naquela praça
    onde enrodilhaste os meus braços
    à volta da tua cintura,
    quedando-me quieto a ouvir aqueles acordes
    que nos prometiam, mas que tardavam em nos dar.

    Sabes o que me apetecia hoje?
    Passear contigo à beira-rio enquanto te deixava
    um murmúrio agradável ao ouvido,
    daqueles que nos deixam para sempre
    zumbidos que podemos ligar ou desligar.

    Sabes o que me apetecia hoje?
    Levar-te ao lusco-fusco de um qualquer "café-in",
    e devorar baixinho aquele som e aquela moda
    que nos interpelava, enquanto escorria,
    devagarinho como bálsamo,
    um fino fio líquido que se evadia, feliz,
    por entre os lábios nossos.

    Sabes o que me apetecia hoje?
    Dançar contigo a meia-luz da lua,
    naquele miradouro onde quase ouvíamos
    o tique-taque do rio, o toque toque
    dos namorados e amantes,
    deixados sozinhos por amigos
    que se deixavam enlevar pela música.

    Sabes o que me apetecia hoje?
    Envolver-te num enorme abraço,
    para te agasalhar da geada e do frio
    e proteger-te de qualquer cansaço
    ou de qualquer ruga que teime,
    teimosa que é, em molestar-te.

    Sabes o que me apetecia hoje?
    Dizer-te baixinho ao ouvido que te gosto,
    que te gosto tanto como te amei baixinho
    naquele primeiro dia, talvez há dez anos,
    há mais de três mil e seiscentos dias,
    muito mais assim, pela aritmética das coisas,
    do que sessenta dias, quando te vi de preto vestida,
    sempre tão arranjada, aperaltada, sempre tão cheia de vida,
    sempre tão senhora, sempre tão segura,
    daquilo que tão bem fazes
    com tanto pundonor e perfeição.

    Sabes o que me apetecia hoje?
    Beijar-te ao de leve na fronte.
    Talvez, se me deixasses beijar-te, ao de leve nos lábios,
    juntando devagar o meu sorriso ao teu sorriso.
    Talvez, até beijar-te mais fundo,
    aproveitando as covas marotas para além dos nossos lábios,
    lá onde os sisos escondem aquelas serpentes amorosas
    que chamamos línguas e que em vez de morder se encontram,
    reconhecem, afagam, amarram, despertam.

    Sabes o que me apetecia hoje?
    Dormitar à beira da tua arcada, da tua janela, pois claro,
    para te proteger de maus sonhos
    e te enviar toda a noite uma brisa daquelas que ronrona
    “facilmente” como os gatos.

    Sabes o que me apetecia hoje?
    Sonhar contigo desde o deitar ao acordar,
    sabendo eu, passem cem ou mil anos,
    estarás sempre bonita, "bela" mesmo,
    mesmo que de sorriso maroto,
    malandro, trocista, nos meus melhores sonhos.

    Sabes o que me apetecia hoje?
    Sentar-me naquela praça onde enrodilhaste os meus braços
    à volta da tua cintura, quedando-me...

    Sabes o que me apetecia hoje?
    Fazer e dedicar-te o meu melhor poema,
    pois passem sessenta, cem ou mil anos,
    sejas tu indiferente, santa ou pecadora,
    e tudo me apetecerá como sempre,
    Amiga!»

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    1. A amizade é pano para muita manga.
      Sufrago os apetites.

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    2. António Luiz Pacheco4 de dezembro de 2015 às 09:35

      Bonito poema, mas... ainda me produziu mais acidez gástrica, e é fácil imaginar porquê!

      Saudações saudosas da Cidade Morena...

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    3. Um abraço, António. Mas deixe lá que a Lusitana Melancolia só faz de si um vencedor.
      Leia isto http :/ observador.pt /2015/12/02/plenario-da-newshold-publicado-na-internet-ninguem-direito-nada-as-empresas-nao-dinheiro/ e veja como estar aí no meio de África entre as tabancas e a Vila Alice o protege de um país tão náufrago como a História Trágico Marítima...

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  4. Já dizia o “outro”: «Beber um copo de vinho é dar de comer a um milhão de portugueses».
    Se calhar é verdade, atenta a dimensão do sector vinícola.
    Assim sendo, eu, se pudesse, aproveitaria este evento para, de borla, beber dez copos, e desse modo dar de comer a todos os portugueses.
    Dez patrióticos copos em três dias não é abuso.
    Pelo contrário, até ajuda a pessoa a apreciar devidamente os acompanhamentos, pois que estimula o espírito para apreciar os condimentos da literatura, e aguça o paladar para saborear os da língua.
    Presuntos, queijos, etc , são palavras saborosas, que combinam bem com um bom tinto e um bom livro.

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  5. Tem óptimo título, a prova cega de vinhos. Desejo aos convivas Boas Provas Literárias e não só. Que a seguir descai-se para o fim de semana e é uma boa maneira de arrumar o assunto. E pronto.

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  6. Se me estivesse mais acessível iria certamente. De amalivros com gosto me transmutaria em amavinhos . Ou melhor, assumiria ambos.

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  7. Sem bigodinho e abstémia, sem me poder gabar de estar sob os focos dos media ( não sou "famosa", nem jornalista, nem política, que são a nova plêiada de escritores), pois não passo de uma professora de literatura reformada, que vive encerrada a estudar e a escrever romances históricos que me roubam 3 a 5 anos de vida cada um, raramente apareço em público. Daí o meu espanto, por ter sido convidada para tal evento. Julgo que por ter 70 anos e ser, portanto, uma espécie de dinossauro em vias de extinção, devo servir de elemento decorativo, a atestar uma abertura gestacional. Portanto não estranhem aqueles que não conseguem publicar um livro em cada ano, que é o que dá visibilidade e fama, seja lá o que issofor, consolem-se se possível com a ideia de que o que escrevem, além da inspiração tem aquela grande dose de trabalho que marca a diferença entre um livro medíocre e uma obra séria, senão extraordinária, pelo menos honesta. O festival de Viseu teve mesmo qualidade e eu diverti-me imenso, sobretudo quando servi de guia/contadora de histórias em duas visitas de comboio turístico pela linda cidade de Viseu.


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    1. Perdoem-me as gralhas de gestacional por geracional que o PC mudou e a junção das palavras no final do texto por má visão.

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